Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
Vacâncias











Tem dias que, enquanto espero que A Bola vague lá no café, me entretenho com outros jornais. E fico logo pior que estragado quando vejo que as palavras-cruzadas e aqueles bonecos das diferenças já estão feitos. Não que os queira fazer eu. Não quero nada disso. Até porque os bonecos das diferenças fazem-me dor de cabeça e passado um bocado começo a ver tudo desfocado e a ouvir zumbidos que me dizem para fazer coisas más às pessoas. Não gosto daquilo. Mas, sendo sincero, até gostava de ser o indivíduo que, na redacção do jornal, é responsável por essa área. Desafiaria sempre o leitor para descobrir mais diferenças que aquelas que realmente lá estavam. “Descubra as 7 diferenças”. E depois só havia seis. E daquelas muito fáceis. Ia dar com toda a gente em maluca. Iam levar o jornal para todo o lado, perguntar a toda a gente se via aqui mais alguma diferença além das seis que já tinha assinaladas. Pararia um país, enlouqueceria uma nação. Seria uma marcha consideravelmente poética para a demência. Também não gosto de palavras-cruzadas. Não gosto que um passatempo me obrigue a saber símbolos químicos. E, cada vez que anunciam o prémio Nobel da Química, eu não consigo deixar de pensar “é assim, este gajo deve jogar, tipo, bué da bem às palavras-cruzadas”. E, pelo que me chegou aos ouvidos, em mais de cem edições, ainda não me enganei. Quando me deparo com aquilo feito, as palavras-cruzadas e os bonecos das diferenças, não consigo deixar de pensar que o jornal já não é puro, que já está no estádio final da sua existência enquanto publicação de papel. Que já andou na casa de banho, por exemplo, e que pode muito bem já ter sido usado para limpar vidros ou como cartucho de castanhas. Se há coisa que aprecio, é imaculabilidade na papelada que leio. Por acaso, a última vez que lá fui e tive que esperar que A Bola vagasse, não estava nada feito. Apreciei o gesto. E, embalado, certa notícia acabou por aliciar minha atenção. Uma coisa qualquer sobre uns reféns não sei aonde. Sempre achei que a catalogação dos reféns como vítimas, no sentido “ai aleijaram-me aqui tanto” do termo, era demasiado forçada. E os factos não mentem. Quando são assaltos a bancos, os reféns comem sempre pizza à borla. E, que eu saiba, comer à borla ainda é das melhores coisas do mundo. Quando dizem que o melhor do mundo são as crianças, eu pergunto sempre “Então e comer à borla?”. Calo-os sempre com esta. Já vi pessoas a dizer que não gostam de crianças, mas nunca vi ninguém dizer que não gosta de comer de graça. É um dado estatístico, ainda que - mera trivialidade - não quantificado na sua expressão mais básica, inatacável do ponto de vista empírico.Eu até percebia que se classificassem os reféns como vítimas caso não houvesse comida ou o prato fosse outro assim menos perfeito. Mas, que se saiba, ainda está para vir o dia em que o raptor diz ao negociador “E traga aí umas sopas de nabiças, que os reféns estão a ficar com fome”. É sempre pizza. Nunca é uma malga de sopa cheia de talos. Já vi uma vez ser hambúrgueres, mas, abaixo disso, nunca. Fico sempre com uma inveja do caraças, quando estou a ver um filme com reféns e os gajos vão comer pizza à borla. Fico agoniado, não sei. Angustiado até. Estão comer pizza. E eu ali, a ver. Quem é o verdadeiro refém afinal? Eles não são, com certeza. Claro, o lobby dos reféns de assaltos a bancos irá logo apregoar aos quatro ventos que a pressão psicológica foi enorme, o medo e o stress únicos e altamente traumatizantes. Não passam de cantigas para encobrir o facto de terem comido à pala. Cambada de mariquinhas. Valha a verdade que existem sequestros sem pizzas iluminadas pela bênção da gratuitidade. Aqueles lá no médio oriente e isso no meio do pó. Mas, mesmo esses, acabam por, regra geral, ter um final feliz e, vai-se a ver, conseguiram mesmo fazer maravilhas pela linha dos indivíduos. Ficam sempre muito mais elegantes. E o que sai mais barato ao Sistema Nacional de Saúde? Uma banda gástrica ou umas semanas fechado numa capoeira com os olhos vendados? Vou mandar este exemplo de desperdício de dinheiros públicos para aquele programa da Conceição Lino. Aquele das pessoas a queixarem-se de erros nos sinais de trânsito e dos aparelhos de rega da Câmara que só molham a estrada e assim é uma estragação de água que faz tanta falta. Alguém tem que se mexer para isto andar para a frente.

 




Comentários:
De Pedro a 29 de Dezembro de 2006 às 17:22
Eu dantes pensava que... ah não. Ainda penso.


De Nelson a 22 de Dezembro de 2006 às 16:20
Feijoada também é bom. Mas para isso é preciso um micro-ondas e nem todos os bancos têm isso. Acho que vou agora ao balcão da Caixa propor que comprem um micro-ondas para a eventualidade de um assalto.


De tchali a 19 de Dezembro de 2006 às 18:07
Eu gosto de cabidela no dia seguinte e conheço muita gente que tambem gosta.
Adoro cabidela acabada de fazer, mas no dia seguinte é como se fosse um novo prato.


De netwalker a 19 de Dezembro de 2006 às 15:41
Um dia fui refém num banco e sugeri ao assaltante que mandasse vir só pizzas familiares, por cada uma ofereciam uma Coca-cola de litro e meio e foi a maneira de dar de beber ao pessoal todo!
A massa foi alta e fofa!


De Le Rachelet a 19 de Dezembro de 2006 às 11:05
(Médio Oriente) Olha que as melhores pizzas que já comi foi em Israel. E depois, não te esqueças que podem haver «vítimas» intolerantes à lactose e com aquele queijo todo... Homicídio em 2º grau, digo-te eu.


De João a 19 de Dezembro de 2006 às 10:21
Um assalto,ou um rapto, ainda é coisa para demorar uns dias e pizza é o único "comer" que é bom nos dias seguintes.
Garantidamente que nenhum refém dirá "não quero comer esses restos" ou "outra vez pizza!?" não só porque a pizza ainda tá boa mas também porque levava logo um tiro.
É por isso que os reféns não se importam de comer sempre pizza. Mesmo fria e tudo.


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