Quinta-feira, 8 de Abril de 2004
São dez da noite, porra!












É possível um espaço diário de informação ocupar duas horas? Para a TVI, a resposta assume desde logo a forma de pergunta: Mas existe outra maneira de o fazer? Todos os dias, exactamente três segundos antes das 20 horas, o Jornal Nacional inicia a sua emissão. Logo aqui está uma estratégia de marketing que nunca percebi mas que todos seguem à risca, esmorecendo qualquer tipo de mais valia que uns meros segundos pudessem representar em termos de audiências.

Porém, qualquer afinidade com os seus semelhantes da concorrência, termina exactamente neste ponto. O Jornal Nacional inicia a sua emissão de forma espalhafatosa, como que a deixar antever o que aí vem. A sonoridade do genérico é idêntica à daqueles blocos informativos especiais em que a gente sabe que qualquer coisa importante aconteceu, as letras do rodapé são enormes e o grafismo do mesmo é calamitoso e inquietante (lá está, caraças! Houve mesmo uma desgraça, vamos ver a TVI...).

A primeira notícia é quase sempre do mesmo género. A TVI conseguiu mais um depoimento exclusivo (quem, de entre nós, nunca ouviu “é uma notícia TVI” que atire a primeira pedra) de um jovem casapiano, ou de alguém que se lembra de ter visto uma personalidade (nunca se sabe quem, mas é muito famoso e importante) a falar com outra personalidade (aqui normalmente já se sabe quem) que está detida preventivamente no âmbito do processo casa-pia.(*) O que vai variando são as formas de encobrir a cara e a voz do corajoso jovem (ou observador). O básico “voz-lenta/cara-baça” há muito que caiu em desuso, utilizando-se agora uma série de novas técnicas de câmara bem mais aprazíveis para o telespectador. Um dos melhores é a chamada “troca de papéis”, que consiste no simples facto de entrevistador e entrevistado trocarem de lugar. Assim, o telespectador vê a cara do entrevistador de frente (a ouvir, atento, acenando ocasionalmente com a cabeça), e a do entrevistado de trás. Outro método bastante usado nestes últimos tempos é o da “utilização estratégica de um objecto natural”. Ora, neste caso, e como o próprio nome indica, estamos perante uma daquelas situações em que um arbusto, um ramo de árvore ou mesmo uns ofuscantes raios de sol, encobrem estrategicamente (lá está...) a cara do entrevistado. Aliás, as reportagens modernas do género, e dependendo da criatividade do operador de câmara ou realizador, podem mesmo acumular ambos os métodos, transformando um outrora penoso discurso monocórdico num espectáculo visual relativamente conseguido.

O problema é que, regra geral, os depoimentos diários relacionados com o processo casa-pia terminam passado meia hora, ou seja, são oito e meia e o Jornal Nacional ainda tem hora e meia para encher de informação(?). Habitualmente, os trinta minutos seguintes são preenchidos com guerra (sempre com imagens chocantes que mais ninguém se atreve a mostrar), futebol (com declarações de Zé Mourinho a dizer que bateu mais um recorde do género “há 37 anos que uma equipa portuguesa não tinha 3 cantos seguidos em França”), reportagens sobre romenos a vender os filhos (pode parecer que era uma reportagem de uns romenos a enganar uns jornalistas, mas não.), e, dependendo do dia, com os comentários mal-encarados de MST ou as sugestões literárias de MRS.

São então 21 horas e os telejornais da concorrência já estão a dar a previsão meteorológica para amanhã. Mas na TVI não! Ainda há muitas reportagens para passar. Por exemplo, a festa dos gémeos em Castelo de Vide, que reúne uma série de gémeos num jantar anual, e que é alvo de uma intervenção em directo do local e tudo. Normalmente, o tipo de perguntas que se fazem nestes jantares varia entre o “Então, e alguma vez trocaram de namorada/o sem elas/eles saberem?” e o “Então, e têm alguma história engraçada em vos tivessem confundido?”. Ou seja, perde-se uma bela oportunidade de fazer perguntas bem mais interessantes e que inquietam toda a população portuguesa, como seja a óbvia: “Mas que porra, pá! Vocês já são crescidos, e presumo que se vistam sozinhos, porque raio é que estão com roupa igual?”

Depois, passamos para a reportagem sobre a eleição da Miss Idosa de Vilar Formoso, com uma ampla reportagem sobre a vencedora e os bastidores do espectáculo, seguida de entrevista exclusiva com a vencedora, e onde a pergunta “você no seu tempo deve ter partido muitos corações, não?” parece ser obrigatória por decreto. Logo a seguir, uma reportagem sobre uma ou duas pessoas que fizeram a operação para colocar a banda gástrica e, mais tarde, uma reportagem sobre um vampiro que estudou no Liceu Francês. Esta parte do Jornal Nacional termina com o Avelino Ferreira Torres (presidente da Câmara Municipal de Marco de Canavezes) a disputar o título de maior anormal com a Manuel Moura Guedes. Estranhamente, o AFT dirige-se a MMG como doutora, mas perde por KO técnico no preciso momento em que a Manela abre a boca.

O tempo vai passando, e o processo informativo mantêm-se deveras dinâmico. Logo a seguir, dá uma reportagem sobre um carro em contramão numa auto-estrada do norte, depois uma casa alentejana assombrada por fantasmas, uma sobre um qualquer fruto enorme (normalmente melancias) ou um animal com membros a mais (quase sempre animais de quinta), seguida por uma excelente peça acerca de mais um recorde do Guiness que se bateu em Portugal (a temática dos mesmos vai variando entre o maior doce e a cidade com mais rotundas), terminado em glória com mais um precioso trabalho jornalístico sobre divorciados com mais de 35 anos que pagam 30 euros para irem jantar com outras pessoas na mesma situação. Ocasionalmente, o Jornal Nacional é interrompido porque vai haver uma explosão controlada de uma mochila na linha verde (de longe, a mais suspeita).

E pronto são quase dez da noite...mas não esquecer que os intervalos vão sendo entupidos com anúncios a programas da estação. Assim, “Marco na Colina do Sol” (mas aquele pessoal come nu, porra?) ou “O Inspector Max” (é tipo Lassie, mas mais moderno e urbano) vão, entre as peças de bandas gástricas e frutos mutantes, tendo amplo destaque. E Assim se faz televisão.

(*) Já agora quero deixar aqui a minha homenagem ao jornalista que decidiu que dizer “o caso casa-pia” tinha uma fonética horrível e que era melhor mudar para outra coisa. O processo casa-pia soa bem melhor e, além disso até é bastante apropriado, na medida em que o Carlos Cruz, quando foi relacionado com o dito, disse em todos os telejornais que “tudo isto é Kafkiano”.




Comentários:
De Anónimo a 29 de Abril de 2007 às 09:29
Muito, muito bom mesmo! De tal modo que não há hipótese senão recuperar 3(!) anos perdidos de comentários e fazer uma leitura directa, a um domingo de manhã...Parabéns


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arquivos e isso
coisas menos coiso
digam que vão de minha parte
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