Segunda-feira, 28 de Março de 2005
O mais bad mother fucker (II)
Medalha de Prata

Carlos Ray Norris, só por si, é um nome que dificilmente fará tremer algum vilão, mas, se no lugar das primeiras duas palavras que compõem o título identificador, colocarmos “Chuck”, o caso muda completamente de figura. Pois bem, Carlos Ray “Chuck” Norris inicou a sua carreira cinematográfica em 1969 com o filme “Arma Secreta contra Matt Helm” (The Wrecking Crew), filme em que faz de empregado de mesa e serve uma bebida a Dean Martin. Com um início tão prometedor, estava mais que visto que o, à altura, quase trintão iria marcar uma era no que diz respeito à porrada desenfreada e sem sentido que, afinal de contas, é aquilo que, a par de gajas boas, queremos ver no cinema e na televisão.

Mas vamos a factos concretos. Chuck protagonizou a trilogia “Desaparecido em Combate” (Missing in Action), onde, basicamente, interpretava o papel de um coronel (James Braddock) cuja missão consistia no resgate de uns quantos prisioneiros de guerra que ainda estavam enclausurados numas quaisquer barracas no Vietname. É giro constatar que a trilogia começa com um sonho do coronel em que este dizima uma carrada de vietcongs todos iguais e salva alguns dos seus antigos companheiros de luta (todos com uma família nuclear perfeita e filhas louras muito giras e bem comportadas). Ou seja, o Chuck Norris até a dormir, a sonhar, é um gajo lixado.

Seja como for, quero destacar duas cenas, ambas míticas, que além de demandarem já há muito a instituição de cursos universitários que gravitem à volta do seu conteúdo, são paradigmáticas quanto à capacidade destrutiva do Chuck. A dada altura, num dos “Desaparecido em Combate”, o Coronel Braddock é capturado pelos vietcongs maus que, sob a égide do pérfido Coronel Yin, decidem pendurar o nosso herói numa árvore, de cabeça para baixo. Depois, tapam-lhe a cabeça com um saco de serapilheira que, e aqui é que está a parte lixada, tinha uma ratazana esfomeada (se calhar, até radioactiva e mutante, só para apimentar a coisa) lá dentro. Braddock contorce-se compulsivamente, ouvem-se uns guinchos de rato e depois silêncio. Começam a cair umas gotas de sangue e os soldados vietcongs trocam entre si as piadas que se exigem neste género de processo “rato de esgoto come cabeça de herói anti-comunista”. Bem, um deles aproxima-se para desvendar a cara, pensam eles, desfigurada do Chuck, mas, eis que surge o ponto de viragem, foi a ratazana que se viu transformada em bolo alimentar. Depois, não me lembro como porque era muito novo (mas lembro-me que fez perfeito sentido), o Chuck soltou-se e despachou mais uma palete de vietcongs.

Há uma outra cena em que o coronel está a fugir num barco a motor enquanto três maus lançam incontáveis rajadas de Kalashnikovs AK-47, que, vá-se lá saber, não parecem ter efeito no veículo de escapatória aquática. Um dos maus, mais astuto e despachado, ao ver que a continuarem assim o Chuck se iria escapulir e finalmente instaurar a paz e o amor no mundo, decide pegar na bazooka e consegue acertar em cheio na embarcação foragida. Tal como na cena do rato, os vietcongs riem-se e trocam piadas (povo animado, estes vietnamitas). Mas, da mesma forma que Fénix renasceu das cinzas, Chuck renasce dos destroços de um barco a motor e ergue-se majestosamente da água com a sua M60 (uma arma que, na altura, me parecia mais pesada que um carro) e, com uma só rajada, acaba com o trio das piadinhas em vietnamita (ou vietnamês, seja o que for). Conclusão: Chuck enerva-se particularmente com piadas que não percebe.

Mas Chuck não era sempre de carne e osso. Também existia uma versão em desenho animado das suas aventuras, nomeadamente uma (Karate Kommandos) em que ele combatia semanalmente uma horda de malfeitores ninja e que se caracterizava, entre outras coisas, por apresentar uma música de genérico que trauteava o nome “Chuck Norris” quase 50 vezes. Mas não se pense que, por ser para putos, a série era mais leve em termos de chapadas, pontapés, paralíticas, calduças, tiros ou lasers, porque a única diferença era que, na versão animada, Chuck Norris salvava crianças e não prisioneiros de guerra. Faz sentido porque os desenhos animados eram destinados às crianças e não a prisioneiros de guerra. Bem, a cena mais genial é uma em que o Chuck Norris (que estava sempre em tronco nu) saca a bicicleta a um puto para perseguir os maus de ocasião. O puto fica lixado, mas Chuck, como bom puericultor que é, apercebe-se do mau estar do infante e, em plena perseguição aos vilões, olha para trás e, num tom animador, atira: “Está tudo bem, rapaz. Sou o Chuck Norris.” Tanto no inicio, como no final destes bonecos, o verdadeiro Chuck Norris explicava-nos a moral por detrás do episódio que íamos ou tínhamos acabado de ver e demonstrava-nos como o processo de desancar ninjas maus não era mais que uma metáfora promotora dos valores da amizade, fraternidade, lavar as mãos antes de comer, não tocar às campainhas e fugir, entre outros.


Se a isto juntarmos o facto de Chuck Norris protagonizar, cantar a música do genérico, produzir e, hosana nas alturas, até escrever um ou outro episódio da série “Walker, o Ranger do Texas”, temos que reconhecer estarmos perante um autêntico Buda na arte que tão bem caracteriza os duros do cinema. Já agora, e para terminar, só dois apontamentos acerca desta sumptuosa manifestação televisiva de dureza do Chuck: Em todos os episódios o Walker e o seu companheiro de sempre tinham que aviar a clientela inteira de um bar (armada de tacos de snooker, claro) que não achava piada ao facto de dois Rangers do Texas terem decidido fazer perguntas sobre um qualquer possível vilão; e o Walker, apesar das calças de ganga bastante apertadas conseguia facilmente dar pontapés à altura da cabeça dos maus, sem, graças a Deus, a zona de tecido que envolve o escroto alguma vez ter cedido e revelado algo aterrador.

P.S: Irmão desaparecido do Chuck Norris em exposição n' O Gémeo Malvado. Passai Bem!




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