Terça-feira, 15 de Novembro de 2005
Capas que dificilmente serão piores que a música, mas é possível (IV)

Eu perco as palavras perante coisas destas. Palavra de honra que até me falta o ar. Antes de mais, fica o esclarecimento: não foi Joyce, a senhora da capa, que lançou a moda do nome único, popularizada por Cher, Madonna ou, mais recentemente, Beyonce. Ou, em território nacional, Ágata, Chiquita, Dora, Romana, Alexandra ou Micaela. Não, não foi Joyce a lançar a moda. Joyce é apenas o nome do álbum, de 1983, um trabalho de, isso sim, Joyce Drake, que então, está visto, era reconhecida no meio artístico por dois nomes. Como deve ser com as mães de família, aliás. Mas, assim, esfumou-se por completo a hipótese desta senhora alguma vez na sua, esperamos que fugaz, carreira musical, ter lançado uma moda ou uma tendência. Valha-nos Deus que, tirando esta "pessoa", mais ninguém ousou emular qualquer característica da pose de Joyce para ilustrar um álbum.

Se nos conseguirmos abstrair do olhar "anda cá a minha casa que eu fiz-te um bolo, mas depois não te admires se nem com cães encontrarem o teu corpo" com que Joyce nos recebe, há logo uma similitude que se destaca. Joyce Drake é tal e qual o Dustin Hoffman a fazer de Dorothy Michaels no Tootsie. Ora bem, sendo assim, eu quero acreditar que, se alguém comprou isto, foi exactamente porque pensava que era a banda sonora do Tootsie. Nesse caso, menos mal. Porque este é um daqueles álbuns que eu imagino as pessoas a mandar para o lixo, mas que depois continuam a aparecer misteriosamente em casa dessas mesmas pessoas. Debaixo da almofada, sempre que se abre um armário, um baú. Às vezes ouvia-se barulho num dos quartos e, chegando lá, deparava-se com uma jarra partida e "Joyce", de 1983. Outras vezes, lá estava a gaveta das facas e cutelos aberta e "Joyce", de 1983, nas imediações. O tipo de álbum que nos atazana a vida inteira, que, uma vez comprado, é impossível ver-se livre.

Ora bem, uma sósia do Dustin Hoffman no Tootsie empunha uma rosa. Parece só ter um braço, sobretudo porque a forma desafogada da manga direita dá a entender que não há matéria viva no interior. O que não oferece dúvidas é a camisa, em forma de roupão, que, apesar do seu tema "arco-íris", acaba por entrar numa espécie de fusão pictórica com o cenário. Tudo isto já é suficientemente aterrador. Mas tudo o que foi atrás mencionado fica reduzido a um patamar infinitamente marginal quando se descobre o título de uma das canções que compõem ‘Joyce’, de 1983. Nada mais, nada menos, que "I Get All Excited". Em bom português, "eu fico toda excitada". Ou húmida, se quisermos tornar o cenário ainda mais medonho. A Joyce. Excitada. E pronto, com esta, que com certeza vai destruir a vida sexual de todos os que tiveram o azar de ficar a saber isto, me despeço.

Outras capas:
Heino
Richard & Willie
Freddie Cage



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