Quinta-feira, 7 de Setembro de 2006
A negação da Roda












Ter certezas é muito positivo. Acho eu, pelo menos. E eu tenho algumas. Aliás, muitas. Sendo sincero, existe apenas uma única interrogação à qual ainda não consegui associar uma resposta que, humildemente, reconheço como verdade absoluta a nível mundial. Essa questão é, na sua essência, simples e directa, mas, na procura de uma resposta definitiva, o mundo tem-se dividido. E, atenção, não me refiro aqui à eterna contenda de tentar saber o que é que a Maria João Avilez tem mais: se voz rouca, se laca. Essa questão, já se percebeu, toca universos exactamente proporcionais. Pode parecer que ela tem a voz mais rouca que laca no cabelo, ou vice-versa, mas não. É igual. Ambos os fenómenos em quantidades absurdas, é certo, mas enigmaticamente iguais. Isto já foi comprovado por estudos e tudo. O que nem percebo bem é como é que deixam, ou deixavam até há pouco tempo, a Maria João Avilez conduzir entrevistas. Ainda por cima quando o tempo se encarregou de dispensar talentos do calibre de um Joaquim Letria. Fazem falta mais entrevistadores que não se consigam levantar da cadeira e suem em barda, como o Joaquim. Fazem falta entrevistadores visivelmente desconfortáveis. Para se centrarem no essencial, e nunca no acessório. Além do mais, a laca apeçonhenta o ar e isso inibe as pessoas de abrirem a boca, facto que, claro, afecta a dinâmica que se quer em qualquer entrevista. Eu sei disso porque, uma vez, no Metro, fiquei atrás duma daquelas velhotas que mete muita laca e, porque estava constipado, respirei pela boca. Constipado ou com o pasmo, não me lembro. A verdade é que a laca começa a conspurcar as papilas gustativas e, num ápice, ficamos com um azedume de natureza química na boca que é uma coisa parva. É por isso que imagino que, ao ser-se entrevistado pela Maria João Avilez, baste fechar os olhos – o que, mais tarde ou mais cedo, vai acontecer, que laca naquelas quantidades é pior que gás lacrimogéneo ou Raid – para parecer que se está a ser entrevistado pelo Olavo Bilac no meio duma vinha que está a ser sulfatada. Uma vinha a ser sulfatada em Chernobyl, para ser mais exacto. Pessoalmente, não me parece que, estando no meio duma vinha a ser sulfatada em Chernobyl, o que mais m’apeteça fazer seja responder às perguntas do Olavo Bilac. E depois quem sofre é a própria entrevista, está claro.

Mas, e sem mais rodeios, centremo-nos na única questão para a qual não possuo ainda uma resposta irrepreensível de todos os pontos de vista: Afinal, qual é a pior invenção de todos os tempos? Aquela coisa que não tem qualquer tipo de utilidade, seja de natureza funcional ou estética? Após uma metódica e científica reflexão, eu, e, por arrasto, a própria humanidade, concluímos que a resposta para esta questão está, ainda e até ver, bifurcada. Por um lado, temos aqueles chapéus que, por alguma razão que escapa à sanidade, trazem um rabo-de-cavalo incorporado. Por outro, temos os calções de ganga em homens. E, para aqueles, que armados já aos cucos, estão a pensar “então, mas não é pior um daqueles fatos de empregada francesa, com espanador e tudo, num homem?” ou “então, mas não são piores aquelas decorações em alcatifa cor-de-rosa ou azul-canário para cobrir o tampo da sanita?”, eu respondo apenas com um irrefutável “Não, caralho.” E, acto contínuo, ainda enfio uma lamparina no idiota que usou a expressão “azul-canário” ao pé de mim. É óbvio que, para as mentes mais distraídas, muitas outras coisas parecerão estar ao nível dos calções de ganga em homens e dos chapéus com um rabo-de-cavalo incorporado, mas nada está. Há coisas que se aproximam, claro, como também há coisas que se aproximam da betoneira no ranking de “pior coisa para nos cair em cima quando passamos perto de uma obra”. Aproximam-se, mas a betoneira é a betoneira. Aqui é igual. Por exemplo, até admito que aquelas camisas que traziam enchumaços de esponja nos ombros se aproximem dos chapéus com rabo-de-cavalo e dos calções de ganga em homens, mas, porra, alguém no seu perfeito juízo é capaz de colocar estas coisas num mesmo patamar avaliativo? Seria um despautério. Seja como for, em breve, colocarei por aqui aquilo que, dentro dos limites da razoabilidade, se poderá chamar de “evolução e características” destas duas invenções. Para poderem opinar e assim. Enfim, participar activamente neste sufrágio essencial. Claro que, depois, vou cagar nas vossas opiniões e decidir sozinho. Mas também é bonito dessa forma.



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