Sexta-feira, 24 de Novembro de 2006
A caneta é mais poderosa que a espada
















Se há sítio onde prezaria de sobremaneira ver aplicado este milenar adágio, esse sítio seria precisamente n’Os Imortais. A série ou o filme, é-me igual que eu até os confundo. Em vez de espadas, canetas. Em vez de duelos de espadaria, que invariavelmente acabavam com uma decapitação e decorrente trovoada com aquela música dos Queen, podiam-se passar a assinar cheques ou petições e apontar números de telefone e endereços. Ou até ver quem é que acabava primeiro um Sudoku, por exemplo. Quem sabe um joguinho de stop ou até uma batalha naval. Mais variedade haveria, com certeza. Já para não falar em termos de conforto e bem-estar, onde as vantagens chegam a ser absurdas. Os Imortais tinham que andar sempre com uns casacos enormes de cabedal, só porque tinham um espadagão medieval que urgia alapar dos meros mortais. É lixado usar sempre grandes sobretudos, sobretudo quando começa a ficar assim mais abafado. Finalmente consegui usar o sobretudo na sua forma adverbial e na sua manifestação substantiva numa mesma frase. Já tinha usado mas foi a falar a sério em conversas. Perguntaram-me o que é que eu gostava mais de usar no Inverno e eu disse “sobretudo o sobretudo”. Menti, eu é mais jaquetas de camurcina, mas valeu a pena. São estas pequeninas coisas que dão sentido ao nosso viver. Os Imortais é que tinham que estar sempre preparados para jogar à luta entre si. Eles, tal como os homossexuais com os da sua laia rabiló, possuem uma qualquer faculdade interior que lhes permite saber quem é como eles, id est, Imortal. Um Imortal maricas será, portanto, um gajo com assinaláveis capacidades psíquicas e sensoriais. Os duelos de espada podiam acontecer a qualquer momento, embora se acabassem todos por realizar no cimo de prédios consideravelmente altos em noites de nevoeiro. Eu, se fosse Imortal, nunca iria a telhados à noite, mas eles lá sabem. Se ainda não identificaram um padrão, se calhar é porque também não merecem viver descansados e em sossego para sempre. E, pronto, sendo a espada imprescindível em todos os momentos da vida de um Imortal, assome-se como natural o facto de eles a quererem esconder dessa escória que são os meros mortais. Assim numa primeira análise pode não parecer, mas andar com uma espada de metro e meio na bainha é coisa para levar logo outras pessoas a fazer queixa. Que aquilo é um perigo, até para eles. Que se caem, ainda se cortam e depois como é que por causa do tétano e da sida e infecções e coisas dessas que fazem ferida e deixam marca. Logo, esconde-se a espada no casaco comprido de cabedal e evitam-se chatices. Mas por isso é que nunca se vêem Imortais de calções, Imortais na praia, Imortais no ginásio ou em saunas. Em festas de pijamas ou a jogar à bola. Com a aplicação deste anexim da caneta, abrir-se-ia um novo mundo de possibilidades. O único senão regista-se mesmo ao nível da decapitação propriamente dita, ocorrência que, ao que julgo saber, revela suma importância ao nível de manutenção da dinâmica do “there can be only one”. E decapitar um gajo com uma Bic tem ar de ser coisa para demorar. Se calhar é serviço para demorar até mais de uma hora e depois lá se ia um episódio inteiro só de volta disso. Com uma Parker deve ser mais fácil. Têm aquela parte na tampa que é meio flecha.

 




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