Sexta-feira, 25 de Maio de 2007
Essencialmente, mais ou menos












Já calhou, em conferências de Ialta e assim, questionarem-me relativamente às problemáticas mais intrigantes que se possa imaginar. Vantagens de se possuir uma resposta derradeira para tudo o que existe e poderá vir a existir em todo e qualquer contexto real, especulativo e até onírico. Mas a esmagadora maioria das vezes, as perguntas com que me confrontam assomem-se, na sua génese e no que mais houver, como bastante estúpidas. Certa ocasião, determinado indivíduo, que, por acaso e poucos minutos antes, captei no bar da infra-estrutura a inquirir o funcionário sobre a possível existência de uma sande de queijo fresco no estabelecimento, questionou-me acerca daquela que eu consideraria ser a teoria da conspiração com mais fundo de verdade de todas as teorias da conspiração, com fundo de verdade ou não. A verdade é que embirro logo com pessoas que dizem sande. Dizer sande, por si só, já releva alto índice de idiotice no emissor, mas, enfim, se for para pedir uma de torresmos ou amêijoas, aquilo, de certa forma, até se dilui e acaba por passar despercebido. Quando é de queijo fresco, e até acho que ele disse queijinho, embora, admito, isto já possa ser o meu asco à criatura, e às pessoas em geral, a reconstruir memórias, memórias essas que passarei daqui a nada em diante a processar como factos inabaláveis; mas, dizia eu, quando é de queijo fresco, tenham lá santa paciência e espero que apanhem brucelose, e da grande, daquela que abre noticiários e tudo. Relembro que, em ocasiões anteriores, e neste mesmo espaço ímpar de não sei quê, deixei já expressa a minha crença numa entidade divina, chamemos-lhe Deus, que, digamos, não tem lá assim tanta pachorra como querem fazer crer as missas e isso. Ora, portanto, a brucelose é, se alguma coisa, mais uma manifestação da pouca longanimidade que Deus tem para com quem o enerva a sério. A brucelose é o castigo de Deus para quem pede uma sande de queijinho fresco em algum lado. E, se Deus me permite a ousadia, é correctivo que só peca por escasso. Mas, e regressando triunfantemente à questão com que o indivíduo da sande de queijo fresco me confrontou, a resposta só poderia, como é meu apanágio, ser una e irrefutável. Há uma cadeia de supermercados, chamemos-lhe Pingo Doce, que insiste em ter sacos de plástico impossíveis de abrir. E cobram-me dois cêntimos por cada um, valor que só me predisponho a pagar porque não quero ser uma daquelas velhas que traz os sacos de plástico de casa e depois sai do Pingo Doce com um saco da H&M cheio de comida para gato e enlatados de gramíneas. Impossíveis será exagero, mas, vá lá, impossíveis de abrir em tempo são. E eu sei porque é que o Pingo Doce insiste em ter sacos de plástico que custam muito a abrir. Pela mesma razão que há empregadas de caixa que usam decotes. Para me lixarem nos trocos. A mim e aos outros pobres coitados que não conseguem abrir sacos e que ficam à mercê do magnetismo que só um decote consegue difundir neste mundo. Se estou a tentar abrir a bodega do saco, é claro, óbvio, evidente, axiomático e outros sinónimos disto, que não posso estar atento aos trocos e, invariavelmente, sou gatunado em somas que, não raras vezes, ultrapassam mesmo a vintena de cêntimos. Já consegui abrir um ou outro saco em tempo útil, ou seja, de forma a conseguir arrumar as compras dentro do dito e receber o meu troco com todos os sentidos em alerta máximo, mas, quando isso acontece, está lá sempre um sacana dum decote. E um decote, pá, é sempre o centro das atenções, mesmo que a dona do brinquedo tenha um bigode. A verdade é essa. Lembro-me que, depois de ver o Frida no cinema, alguém me ter dito que era pena a Salmita Hayek ter envergado uma execrável monosobrancelha durante o filme inteiro. Não reparei. Também não reparei que entravam outras personagens que não o decote da Frida Kahlo. Um homem até pode ter acabado de ter sido pai e estar, pela primeira vez, a pegar no seu filho ao colo, que, se a enfermeira tiver um decote, não há nada a fazer e não vai ligar nenhuma ao puto. Se não o deixar cair de cabeça já é uma sorte. Não nos peçam nada acima disso. Por conseguinte, sim, é esta a teoria da conspiração com maior fundo verídico. Não é por acaso que os sacos são lixados de abrir e não é por acaso que as mulheres usam decotes. Sabe-se lá o que raio está a acontecer à nossa volta quando está um decote na área. Alguma coisa é, mas nunca saberemos. Questionaram-se acerca de muitas outras coisas e cenas. Deixo mais duas, que entretanto também se faz tarde para ir comprar um corta-unhas e depois mete-se o fim-de-semana e é chato. Um gajo de óculos quis saber a minha posição face às invasões muçulmanas na Península Ibérica e as repercussões de tal acontecimento na nossa portugalidade actual ou recente. Simples. Só temos a agradecer aos árabes, sarracenos, muçulmanos ou, em linguagem corrente e técnica, monhés, que por cá andaram. A herança monhé no nosso país assume um papel substancialíssimo e que não devemos esquecer. Deixaram-nos uma herança única em termos de tudo: as palavras que se iniciam por “al”. Isto não tem preço. Se não fossem os árabes, não teríamos, por exemplo e entre muitas outras coisas, alpista. Que comeriam os nossos canários? Nada. Morriam à fome. Não havia canários, pronto. Se ainda hoje temos canários, devemo-lo única e exclusivamente aos árabes. E que Portugal teríamos hoje se nunca tivéssemos tomado contacto com pilhas alcalinas? Um Portugal, com certeza, muito diferente, limitado a todas as outras pilhas que não são alcalinas. E um Portugal sem almoços, por Deus? Impensável. E devemos tudo isso aos árabes. Uma outra senhora, claramente sofredora de distúrbio afectivo sazonal, quis saber qual a melhor forma de aumentarmos a nossa auto-estima naqueles momentos mais críticos. Não sei o que raio a senhora quis dizer com “momentos mais críticos”, mas a resposta não deixa por isso de ser elementar. Pegue em duas crianças com idades não superiores a oitenta e quatro meses e veja a Rua Sésamo com elas. Eventualmente, como sempre acontece, vai chegar aquela parte do “o que é que não pertence aqui?”, uma rubrica em que alguém nos mostra quatro objectos, sendo que um não tem grande relação com os outros três e deve ser identificado histericamente. Projecte-se a seguinte conjectura: mostram-nos um bolo, um martelo e um prato de sopa. O que se pretende é que, uma vez exposta a terceira hipótese, e antes que lhe mostrem um bife, você grite logo “O martelo! É o martelo que não pertence aqui!”. É só repetir esta dinâmica sempre que possa e o seu ego fica nos píncaros. Não se preocupe se as crianças chorarem. É isso que elas fazem no dia-a-dia e o mau perder dos outros não o deve impedir de festejar as vitórias com manguitos e as mais diversas provocações que incluam simulacros ou referência sexuais na cara dos derrotados.

 




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