Quinta-feira, 21 de Junho de 2007
Isto o fodido ainda são os títulos

Esta cena de ter um espaço cultural revolucionário e de categoria categórica, conquanto cheio de letras, tem que se lhe diga. Mais cedo ou mais tarde – ou vice-versa caso prefira e se preferir, permita-me a lisura, acho que é um coca-bichinhos empertigado ou, como dizer, da merda –, um gajo esquece-se do que já falou. Ainda há dias m’esqueci de não sei quê que já não me lembro. E tem-me acontecido, recente e frequentemente, entrar em determinada divisão da casa e não saber o que raio fui lá fazer. Depois, para me convencer a mim mesmo que não estou a ficar maluco, ao invés de m’ir embora resignado perante os primeiros galopes da demência, finjo que sei perfeitamente o que fui lá fazer e faço uma coisa qualquer. Na casa de banho é fácil, tomo banho. Há divisões bem mais lixadas. Na sala, finjo sempre que vim buscar uma revista ou um jornal. Só que às vezes só há catálogos e tenho que fingir que vim mesmo à procura do da La redoute ou do da Worten. Esta ocorrência é tramada porque depois tenho que levar com olhares do género “lá vai este ver as fotos das gajas em lingerie” ou “deves andar a pensar que vais enterrar novecentos contos num plasma, deves”. Quando é na cozinha, tenho que fingir que fui buscar um iogurte ou beber água. Só que às vezes não tenho sede nenhuma, ou só há iogurtes naturais, e lixo-me. Meto açúcar, claro, mas comer um iogurte natural não deixa de ser um renegar dos meus princípios mais básicos. Acabo por ser sempre confrontado com um “mas tu metes açúcar nos iogurtes?”. Meto, é para compensar o que não meto no café. “Mas tu não bebes café”. Exacto. A vida é uma montanha-russa de coisas sem sentido nenhum e eu dou algumas cem voltas por dia nela. Por seu turno, caso dê por mim na casa de banho sem saber a que propósito lá meti os pés, tomo banho, como referi ali mais em cima. Tendencialmente, uma coisa que ameaça justificar o adjectivo “recorrente”, em termos de banhos, é o facto de m’esquecer de molhar o braço onde tenho a mão que agarrou o chuveiro na primeira fase de molhadura. Só reparo que não molhei esse braço quando meto lá gel de banho e verifico que está seco. A sensação está longe de ser a mais agradável. Gel de banho numa zona enxuta do corpo é das medidas mais contraproducentes que a contraprodução alguma vez foi capaz de contraproduzir. É que até há coisas que eu apreciaria esquecer. O refrão da Baby jane, por exemplo. Ainda há dias percebi que o sei de cor. O sacana até me sai fluido, nem tenho que pensar, nem careço de qualquer período prévio de concentração ou o que for. É curioso porque, por exemplo, na tabuada do três para cima, tenho que pensar sempre, mas não para este refrão. Este e muitos outros, infelizmente. Destapei esta maravilhosa capacidade no seguimento duma teimadela dum indivíduo que, broncamente, apregoava que a Baby Jane era uma música do Michael Jackson. Limitei-me a constatar o óbvio, como quase sempre acontece: Baby Jane é do Rod Stewart, a Billie Jean é que é do Jackson, seu conaça. À criatura não lhe chegou. Lá tive que cantarolar when I give my heart again/I know it’s gonna last forever/no one tell me where or when/I know it’s gonna last forever. Não é das coisas que mais me via a cantar nuns urinóis, mas paciência. Até não desgostei da acústica do sítio, devo reconhecer. Relativamente a esquecimentos, o maior temor ganha forma nessa arte que é o zapping. Reúne-se junto a mim algum receio em esquecer como se faz. Aliás, apelidar de apenas zapping aquilo que faço com um comando de televisão seria equivalente a dizer que o Michelangelo Buonarroti foi somente um empreiteiro que até se ajeitava com acabamentos para tectos. Um telecomando, nas minhas mãos, parece um violoncelo nas mãos do Yo-Yo Ma. Ou um violino nas mãos da Vanessa Mae. Não sei quem é que toca melhor. Talvez o Paganini tocasse melhor que a Mae. Mas a Vanessa tem uma característica que o violino aprecia. Está viva. Também podia ter uma característica que eu aprecio deveras, mamas, mas nesse campo em particular acho que até o Paganini lhe bate o pé. Sim, que a Vanessa é oriental e o Paganini devia ser afanado. A wikipédia diz que tinha colestrol. Confere. Portanto, é ver quem tocava melhor e mandar-se a atordoada que essa pessoa toca violino como eu toco telecomando. E se oiço que não dá para comparar porque são áreas, gerações e até géneros distintos, mato já aqui um pequeno mamífero. Não é um insecto, é um mamífero. Toda a gente tem pena de mamíferos, por isso cuidadinho. Há algum mamífero nojento, que ninguém s’importe que eu trucide sem piedade com um martelo daqueles para comer sapateira mas em alumínio, que não havia de madeira na rameira daquela loja? Duvido muito. Só se for uma ratazana, mas eu também não me chego perto disso. Nem cães grandes. Tem que ser uma coisa fofinha. Um mamífero fofinho. É um desses que mato se fizerem não sei quê que entretanto m’esqueci. O Yo-Yo Ma é que até deve ser péssimo no ioió. Muitas vezes, o nome não quer dizer nada. Conheço um gajo chamado Futre que, apesar do nome, não joga nada à bola. Nem matrecos, quanto mais. O mais prazenteiro é que, quando estamos a jogar à bola e dizemos “ó Futre, entra aí, joga connosco”, quem não o conhece fica logo todo acagaçado, a pensar que o gajo finta tudo. Até eles perceberem, e porque o Futre passa a quase monopolizar a marcação cerrada, eu enfio alguns quatro ou cinco golos. E, como já tornei público anteriormente, conheço dois Gil Vicente e nenhum deles escreve teatro por aí além; julgo inclusive que nem sabem da existência do seu homónimo viciado em autos, conhecendo apenas o patético clube onde jogou o Mangonga e o Cacioli. A minha categoria com o comando, embora indefinível, acaba por deixar que se lh’apontem algumas qualidades mais manifestas. Num sentido lato, a face mais visível da arte com um telecomando é sempre o zapping, claro, sendo que, nessa área artística em concreto, o meu é visceralmente admirável a todos os níveis. É maquinal, de tão perfeito e técnico. Palavra de honra. Por isso é que me custa quando o meu pai diz coisas como “porque é que tens que estar sempre a mudar de canal”. A resposta é simples. Não percebo é por que carga de água se há-de ficar sempre no mesmo. Podem estar a dar coisas mais giras noutros canais. Podemos estar a perder o maior momento da história da televisão só porque preferirmos não estar sempre a mudar de canal. Não sou capaz de arriscar. Eu, quando foi o onze de Setembro, vi o segundo avião a aproximar-se, e ainda fiz um zapping antes do gajo bater nos vidros e deixar ali um bonito serviço. Que sentido fazia ficar a ver o trajecto do avião? Vi o avião, fiz o zapping, e voltei para o embate. Assim é que se faz. Mas há mais coisas. A gestão dos paus do som, por exemplo. Às vezes, chego a uma sala onde estão a ver televisão e, após uns segundos, percebo que algo está mal a nível das harmonias. Pergunto aos presentes se notam isso também, que algo não está a bater certo. Dizem quase sempre que estão bem, que não sabem a que me refiro e para parar de gritar e abanar o molho de chaves que eles estão a ver o filme e eu pareço uma criança. Pois, mas depois de eu pegar no comando e ajustar os paus do som, e às vezes basta um ajuste mínimo, de apenas um ou outro pau, já dizem que sim senhoras, agora é que está mesmo cinco estrelas, impecável. Haverá muito mais, que há, mas julgo que o essencial está exposto. Por tudo isto, faz-me imensa confusão que me digam que é má educação ir a casa das pessoas e açambarcar o comando. Blasfémia absoluta. Se as pessoas não sabem usá-lo convenientemente, há que intervir. Pode ser feio, mas salvam-se vidas. Ou, no caso, a minha paciência, que é bem importante. Toda a gente também pensava que o Hitler estava a ser mal-educado com as pessoas, mas a verdade é que, lá com os esquemas dele, mais ninguém voltou a usar um bigode daqueles. Valeu ou não valeu a pena, para exterminar por completo um tipo bastante específico de bigode? Hã? Claro que sim, que valeu. Quer dizer, não apagou por completo o rasto àquele tipo de bigode, que o Professor Neca ainda usa uma variante que foi beber bastante inspiração ao do Hitler. Mas o Professor Neca é um caso único em qualquer panorama e sob qualquer prisma. Não percebo aquilo. O homem tira um curso, carrega o pomposo título de professor, mas depois não s’importa, e até faz questão, que lhe chamem Neca. O Nelo Vingada partilha de alguma similitude, mas ao menos o Nelo sempre consegue que usem também o apelido. Não é só Nelo. É Nelo Vingada. O Neca é, só Neca. Mas professor. Foneticamente, isto é um crime de lesa-tudo. Se tem estudos, deixa de ser Neca. Ninguém é Professor Neca, tal como ninguém é Doutor Cajó. Sim, há o Professor Bambo, mas cursos em África não sei se terão equivalência por cá. Logo, a questão é outra. Aqui há uns anos, aliás, ontem, ouvi outro absurdo em termos de fonética. Um menino foi atacado por um chimpanzé no Bombarral. Abriu o noticiário do almoço, o da SIC. Fascinante, embora não exista cérebro civilizado que processe a informação sem um pujante recalcitrar, ainda que mental. Se eu, quando era gaiato, tivesse chegado a casa todo arranhado a dizer que tinha apanhado uma surra dum chimpanzé, ainda apanhava era uma chapada, para não ser mentiroso. Isto agora são outros tempos. Só facilidades, a papinha toda feita. Semelhantemente um bom exemplo de holocausto fonético é aquilo do Serial Killer de Santa Comba Dão. Soa mal e deviam ver essas coisas. Parecendo que não, dá a sensação que é a brincar. Não custava nada terem essa atenção, que assim não aparenta ser assunto sério. Por conseguinte, estando na segurança do meu lar ou não, sinto-me na obrigação moral de dominar o telecomando. Tenho truques para sacar o dito, que agora pelos vistos é socialmente punível o acto de simplesmente sacar o comando do colo d’alguém. Nunca o advérbio de modo socialmente é proferido por alguém que não m’apeteça esmurrar logo a seguir. É uma coisa que ele tem, o socialmente. Um dos ardis eleitos para sacar telecomandos é o clássico “oh deixa só ver uma coisa”. Que, espantosamente, resulta com uma eficácia parva no mundo dos adultos. Sim, ao contrário das crianças, não há adulto que não caia num “oh deixa só ver uma coisa”. E assim se assenhora um indivíduo do comando de televisão. Por sua vez, constate-se que os adultos não alinham no “abre a boca e fecha os olhos”. As crianças sim. É mais que notório que o “oh deixa só ver uma coisa” dá bem mais jeito quando se é criança, embora, no que à eficácia diz respeito, deixe muito a desejar nesse hemisfério. Enquanto que um “abre a boca e fecha os olhos”, com índice de aproveitamento decente, revolucionaria o mundo dos crescidos. Quando eu era criança, o “oh deixa só ver uma coisa” infalível é que me tinha dado jeito. Mas isso não existia. Existia é um “abre a boca e fecha os olhos” que raramente, mesmo muito raramente, saía frustrado. Agora dá-me jeito um “abre a boca e fecha os olhos”, e muito menos o “oh deixa só ver uma coisa”. Assim com’assim, eu recorro ao “oh deixa só ver uma coisa” no mundo adulto, até porque, e ainda que existam outras manigâncias do género que encaixariam que nem uma luva nas necessidades humanas, acho uma estupidez ignorar o potencial de algo que resulta. Sacar o comando até é fácil. Ouvir coisas como “ei, eu estava a ver isso, que mal-educado” é que custa. Dói-me o coração.


Mal-educadas são as pessoas que me dizem coisas como “hoje parece mesmo quinta-feira, não parece?” a uma terça ou quarta. Que pénis quer esta gente que eu lhe diga? Isto é gente que quer ser ofendida de alto a baixo. É gente que provoca. É gente que quer é confusão. É gente mal-educada. Isto, não eu. E, caso não tenham reparado, fiz uns filha da puta duns parágrafos. 




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