Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007
carmesim & trevo


Aqui há dias, num momento de extrema luminescência criativa, em contraponto com a apenas brutal luminescência que por norma me acompanha de mão dada que nem um casal de namorados domingueiro e tendencialmente repugnante, concluí que o progresso é, em primeira instância, o resultado da acção de indivíduos preguiçosos que procuram formas menos cansativas de fazer as coisas. Esta minha conclusão – ou de outro gajo qualquer, chamemos-lhe Heinlein, Robert A., e, para efeitos de consistência narrativa, imaginemos que ele existiu mesmo e foi um [inserir adjectivo à escolha, mas nada de muito espampanante] autor de ficção científica, área que, por arrasto lógico, moral e tudo o mais, o torna num gajo intrinsecamente maçador – é a todos os títulos notável e, mais isso que outra coisa inclusive esta coisa da notabilidade, factual. Reconheço essencialmente que eu próprio seria um indivíduo imbatível neste trabalho de identificação de áreas onde as tarefas podiam e deviam ser alvo desse progresso mandrião. Áreas onde urge associar-se um muito maior facilitismo ao processo. É este tipo de incumbência profissional que devia constar da CNP, sigla para classificação nacional de profissões, o, refira-se, livro mais espesso (frondoso, se se preferir a figura de estilo básica que estabelece a associação entre a folhagem arbórea e o folhame do alfarrábio) que alombei na mochila ou levei na mão, encostado à anca direita. Isto porque a minha avó tinha uma versão do “Guerra e Paz” em centenas de volumes, julgo que mais de cem, como convém, assim ao estilo de livro de culinária, muito fininho e ideal para se guardar posteriormente num dossier creme. Para além disso, importará referir que nunca li o “Guerra e Paz”, mas é o livro mais grosso que conheço. Há ainda que evocar o facto de Tolstoi não ter recorrido ao espaçamento duplo e demais subterfúgios, como eu sempre fiz lá nas coisas para aquela faculdade. Aproxima-se agora da minha prodigiosa memória, aptidão que, têm-me dito, tendo cada vez mais a mesclar com a imaginação, um episódio curioso, envolvendo precisamente labuta escolar e um determinado processador de texto, aquele do clipe. Tratava eu dum encargo escolar, a entregar obviamente no dia seguinte, quando constato que possuo apenas cerca de trinta linhas sobre nada de especial, ainda por cima, aquele tipo de nada de especial onde um olho bem treinado consegue ver que não se leu peva sobre o que quer que fosse sobre o que se devia estar a redigir. Devido a uma procura miserabilista pela inspiração errante, e porque nunca consegui jogar aquilo do porta-minas ou saca-minas sem ser ao calha (o que, garantia pessoal, é frustrante), decidi ir saber com que tamanho de letra as minhas trinta linhas preencheriam a centena de páginas que tornava este trabalho sequer avaliável pelas doutas cabeças que me avaliaram nessa fase. Comecei como devia ser, sem me armar muito em Ícaro, com um tamanho trinta. Fui aos cinquenta. Cem. Duzentos. Quinhentos. Mil. C’um raio, tamanho mil dava-me tantas páginas. Até me vieram as lágrimas aos olhos, embora isso possa ter sido porque bocejei um daqueles bocejos que fazem vir as lágrimas aos olhos. Uma vez tive um desses bocejos no final do Armageddon, aquele filme em que deixam o Bruce Willis na lua. Fartaram-se de gozar comigo, a pensar que eu me tinha emocionado com a película e de nada valeram os meus clamores que garantiam que aquilo não tinha sido nada mais que uma reacção física e perfeitamente natural a um daqueles bocejos que fazem vir as lágrimas aos olhos. Cheguei a dizer, ainda ligeiramente de lágrimas nos olhos produto daqueles bocejos que fazem vir as lágrimas aos olhos, “estou-me a cagar para o Bruce Willis!”. Dizem que a minha voz resvalou um bocadinho para a estridência, eventualidade que costuma escoltar o desespero, mas essas cenas eu já contesto. Bem, mas já ia no tamanho mil e só me ocorria que, afinal, aquilo era fácil, Tolstoi. Mil e duzentos. Aquilo não tinha fim. Mil e quinhentos. Mil seiscentos e trinta e oito. Pronto, o máximo que dá. Eu só via o número de páginas a aumentar parvamente, cá em baixo, já ia em mais de oitocentas. Eis que, quando nada o fazia esperar, arre, foda-se para isto tudo. Mil seiscentos e trinta e oito foi o sol, eu fui Ícaro e as minhas trinta páginas podem ficar com o papel das asas de cera. O computador encravou, perdi as páginas que tinha e lá devo ter aprendido uma lição de extremo valor, o qual não estou bem a ver qual seja. Presumo que, dessa vez, tenha recorrido ao truque do “Eia, professor, tinha o trabalho nesta disquete, mas apagou-se tudo por causa da electricidade estática no metro”. Eu sei que a expressão não é electricidade estática, mas na altura eu sabia a expressão exacta, o que tornava a desculpa inatacável sob todos os pontos de vista. Que bodega de mito urbano mais revelador em termos de parvoíce individual. Cada vez que via um colega de escola com uma disquete envolta em papel de alumínio, só me dava vontade de lhes podar as extremidades. Portanto, dizia eu, lá mais acima, que áreas urgentemente carentes de progresso no tal sentido que, se alguma coisa, anuncia preguiça nos seus promotores, eu consigo enunciar assim uma ou outra aos pontapés, com inusitada facilidade. Por exemplo, o negócio da transacção da lenha. Tenham lá santa pachorra, mas estamos no século vinte e um, fazem-se melancias quadradas, transformam-se meninos em meninas e vice-versa, vai-se à lua meter bandeiras e cantar os parabéns, acho que já vai sendo altura de alterar, um tudo-nada que seja, a dinâmica que passo a descrever. Alguém da minha família conhece um gajo qualquer que vende lenha, da, passo a citar de cabeça, “boa, de carvalho e azinho, nada de bocados de eucalipto ou móveis velhos para encher”. Dão-me um número. Eu ligo para lá e pergunto sempre se é um senhor Manel ou ‘Quim. É sempre, tirando uma vez que era uma Conceição a dizer que o ‘Quim estava de cama, com papeira e que aquilo era muito perigoso quando já se é crescido. Peço não sei quantos quilos de lenha, os quais nunca poderei confirmar se estão conforme combinado, mas enfim. E é isto. Num sábado de manhã, aparecem-me dois aldeões, um mais velho (presume-se que o Manel ou ‘Quim) e outro mai’ novo (sobrinho ou enteado do Manel ou ‘Quim). E, atenção, de manhã, para esta gente, é quase de noite. É às oito da manhã. Não é, como eu inocentemente pensava, ao meio-dia ou, quanto muito, às onze e meia. Chegam, descarregam uma pilha de troncos à frente da garagem e vão-se embora, vindimar, tratar da criação e essas coisas. E é isto. Comprar lenha é isto. É, num sábado de manhã, ter o portão da garagem visualmente coberto por troncos. Eu não sei que sistema vigorava na Idade Média, mas não deve andar muito longe disto. O que sei é que, quando compro lenha, encho as minhas mãos de donzela – donzela não na sua ambiência de usar vestidos de gala ou ter predilecção pela roupa interior de seda, mas num sentido de “nunca sachei batatas de sol a sol” – de farpas. Chateiam-me as farpas. Acho o nome pouco masculino para a dor e aborrecimento que provocam. O “Eh pá, tenho aqui uma farpa no dedo” soa sempre a mariquice no receptor, mas é algo que provoca incómodo sentido no emissor. O triste da situação é que o emissor, uma vez receptor, se parece esquecer do incómodo que representa uma farpa no dedo. É complicado. Também gostava que desenvolvessem um método de assoar que se coadune decentemente com a ideia de progresso. Não tanto a ideia do progresso enquanto resultado da mera vontade em tornar as coisas mais fáceis, mas mais aquela ideia do progresso que afasta a franca sensação de que um sahelanthropus tchadensis com acesso a lenços não faria pior serviço que aquele que nos é possibilitado actualmente. E a verdade é que eu não preciso assim tanto de melancias quadradas como preciso de deixar de parecer um sahelanthropus tchadensis sempre que ando constipado.   




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