Segunda-feira, 26 de Março de 2007
Bater, tocar, chamar










Isto é como em tudo, basicamente. Um gajo só dá por falta das coisas quando não as tem. É um rifão especialmente verdadeiro quando se trata de braços, pernas ou aqueles dentes laterais que só se vêem quando abrimos muito a boca a rir. Mas eu ainda tenho isso tudo. Estava só a dar um exemplo genérico, de mera, e até boçal, funcionalidade ilustrativa. E a colocar-me no lugar dessas pessoas, as que não têm braços, pernas ou aqueles dentes laterais que só se vêem quando abrimos muito a boca a rir, para criar alguma proximidade com aqueles que sofrem dessas intempéries. Só isso. Sou, como se as evidências não o demonstrassem e fosse necessária esta declaração, indivíduo com elevadas competências para lidar com pessoas diferentes. O que m’aconteceu, ainda recentemente, foi perceber que o apito do carro, essa funcionalidade que, todos os dias, todos nós tomamos como dado adquirido, estava avariado. Ora não produzia nenhum som, ora fazia aquele “fimmnheca” extremamente enconado. A princípio, não liguei. Para que preciso eu do apito? Vai para mais de dois anos que também não tenho piscas, com certeza que também consigo viver sem apito. Com os piscas, verificou-se o seguinte. Primeiro, começaram por se lixar ao nível da função que é comummente identificada como “o teu pisca desfaz?”; que, em traços gerais, consiste na capacidade do pisca se desligar quando se completou a mudança de direcção. Lixou-se o desfazer do pisca, e o que, não raras vezes, se verificava era eu fazer umas boas dezenas de quilómetros com o pisca do lado direito sempre ligado. Calhou ser sempre o direito porque, para entrar aqui na estrada principal ao pé de casa, eu mudo de direcção à direita. Mais tarde, o pisca deixou simplesmente de funcionar. Não me fez confusão nenhuma e até encarei aquilo como uma conquista por parte da minha liberdade individual. Afinal de contas, para que raio quero eu aquilo? Agora tenho que avisar quem vem atrás para onde vou? Devo-lhe satisfações, é? Era o que mais faltava. Não são minha mãe e metam o bedelho nas vossas vidas, alcoviteiras ao volante. Encarei isto como uma dádiva. Com o pisca lixado, eu escapava a mais um dos expedientes de controlo a que “eles” nos submetem. Quando se me escavacou o apito, lembrei-me disto. Que podia ser outra benesse. Porque, bem vistas as coisas, eu nem usava assim tanto o apito. De entre a tralha de utilidades ao apito associadas, nunca precisei de nenhuma por aí além. Já por várias vezes podia ter recorrido à função preventiva do apito, aquela que, defendem os técnicos, permite que se evitem acidentes. Mas, ao invés de apitar, há uma urgência interior que nos impede de o fazer e que a questão “Pá, este gajo não vai recuar até me bater, de certeza” define exemplarmente. A curiosidade é sempre mais forte. Depois vêm-me com coisas do género “Mas não me viu recuar? Porque é que não avisou?”. Não avisei porque queria ver se ia mesmo recuar até me bater. Nunca pensei que fosse tão parvo. Não se me está a perceber e “não, o pára-choques ainda não tinha estes arames antes de você me bater”. É que me parece sempre improvável que tal – o recuo até me bater - aconteça e, por isso, sinto-me sempre tentado a comprovar. Isto é como quando temos uma pedra na mão e, ao longe, vemos um velho de bicicleta. É claro que pensamos sempre “daqui, com o velho em movimento, nunca na vida eu lhe conseguia acertar na cabeça”. Mas atiramos sempre, como é óbvio. É por estas e por outras que a empiria abafa sempre qualquer teoria. Um gajo pode ler em muito lado que é quase impossível acertar com um calhau na cabeça dum velho de bicicleta. Mas, até experimentarmos, vamos ficar sempre na dúvida. Por isso é que o carácter preventivo do apito sempre foi inútil para mim. Mas o apito, segundo consta, serve para mais coisas. A questão é que, por exemplo, também nunca senti necessidade de recorrer ao apito para assinalar raparigas airosas que se pavoneiam nos passeios. Não acredito que seja um método eficaz e, para além disso, não alinho em estratagemas batoteiros. Quanto muito, sou gajo para usar uns óculos escuros para poder olhar para os decotes à vontade. Sim, porque o “olhar para o horizonte” dá muita barraca e, no que à eficiência diz respeito, ainda deixa bastante a desejar. Acho é que qualquer coisa para além disso, dos óculos escuros, já me cheira a violação. Depois temos as buzinadelas do “o meu clube ganhou” e “estamos num casamento e isto é muita giro, ‘bora apitar feitos parvinhos que ninguém vai achar que parecemos uns retardados mentais com a roupa do domingo”. Também nunca me deu para isso. É o meu feitio, pronto. Finalmente, temos as funções “Então, c******?!?!” que, para efeitos de está-me a apetecer e faço o que quiser, englobarão todas as manifestações de raiva. Aqui, nas manifestações de raiva, encontramos coisas como “então e o pisca, ò palhaço?”, “mas esta merda não anda porquê, f***-**?”, “’´tá verde é para nós, camelo da m****!” ou “olha-me para este coxo de óculos de sol a passear o cão no meio da estrada!”. Não concordo nada com o apito enquanto veículo de raiva acumulada. Quer dizer, não concordava com o apito enquanto vector de fúria. Até ao dia em que uma besta me trancou o carro. A situação é clássica. Carro com os quatro piscas ligados não me deixa sair. Mandam as regras do bom senso e boa educação que, qual sociopata, se mantenha o dedo enterrado no apito enquanto o gajo que tranca resolva aparecer. Eu bem queria, mas qual quê! Estar trancado e ter que esperar, pacientemente, sem poder buzinar como se tivéssemos cinco anos é horrível, digo-vos eu já aqui e agora. Ainda para mais, sabendo eu que, enquanto não apitasse feito demente, o dono do outro carro ia sempre estar a pensar “tenho a viatura em 2ª fila, mas ainda ninguém apitou, por isso posso estar aqui no paleio à vontade em vez de me despachar”. Eu, palavra de honra, por esta altura, daria uma nádega para ter um apito que funcionasse. Não minha, obviamente. Podia ser a nalga de qualquer um dos cerca de dez parvalhões que, enquanto eu esperava dentro do carro, me diziam “olhe que tem o cinto e o casaco entalados na porta”. Ai sim? E irem bardamerda mais os vossos avisos? Quero é um apito. Se faz favor, claro.

P.S: Para os mais dados a essas coisas das curiosidades, aproveito para esclarecer que o título deste coiso é um plágio descarado do título de uma cantiga dos Onda Choc, nomeadamente uma que está presente em “Passeando pela praia”, álbum de 1990 ou outro ano. O segundo facto digno de estupendo registo é a questão de algum asneiredo estar dissimulado entre astericos. Tal ocorrência vem no seguimento de um “não digas tantas asneiras, filho” emitido em tom de desespero pela minha mãe. E sim, consegui convencer a minha mãe que “enconado” e “bardamerda” não são asneiras. Desafio-vos a conseguirem o mesmo com as vossas mães. Ou, se forem órfãos, com o pároco da vossa freguesia.



Comentários:
De Anónimo a 9 de Maio de 2007 às 20:28
Epá somos o oposto a conduzir.
Se não fosse o barulho irritante eu andavam sempre com os quartro piscas só para baralhar os asnos todos que andam na estrada e muitos deles até abrem caminho qnd os ponho. Outra razão uma vez fui multado pq só tinha uma luz da frente à noite acesa (a outra havera fundido . depois de altruado (multa que nunca paguei claro) o bofia ainda mtem a lata de me dizer "se o senhor tivesse vindo com os 4 piscas ligados eu nao o poderia ter multado " -"ora fodasse ... agora é k me diz ?! -

E buzinadelas é comigo. Tou farto deve ser complexo de ser sempre inferior herarquico em todos os empregos sempre que alguma vez tive. E como acho k na estrada sou muito melhor que a maioria tenho o direito de mandar piçadas a tordto e a direito ...em forma de buzinadelas claro está ...especialmente a carros caros e taxistas ou outros "profissionais do volante " nao perdou .

LMAO @ "estes arames a seguras o meu para-choques não estavam aki antes de voçe me bates !" muito boa essa !!


De Lua a 4 de Abril de 2007 às 20:28
e eu a ler esse título e vem-me logo à memória "...até ao fim!", o seguimento da música dos Onda Choc, pois então, os grandes do meu tempo! Foi bom recordar...

quanto ao texto, nada a dizer. do melhor, como sempre. és grande, Pedro.


De Sara a 30 de Março de 2007 às 09:17
Tenho uma boa que as mães e os priores aprovam: Valha-me o Santo Ócaralho! (Esta ouvi eu a minha mãezinha dizer duas vezes: uma quando tirou um bolo do forno sem usar as pegas e outra quando cortou um bocado a um dedo. Ui!) Acho que é o Santo antes do palavrão em si que faz a diferença. Não sei, digo eu.


De Marta Valente a 29 de Março de 2007 às 21:18
Oh pa acredita que atrofia quando o gajo da frente decide mudar de direcçao sem fazer pisca, é que da vontade de nao travar e ir contra ele so pa ele ver o que é bom para a tosse. Só que depois nós é que nos fodemos.

Já o apito acho que usei uma vez desde que tenho carro... E foi para afastar uns meninos simpáticos para poder estacionar. Eles riram-se e comentaram 'olha a menina pah'... De resto nao me lembro assim de mais nenhuma situação.

Oh pa, alto lá e pára o baile que eu tenho sete cassetes dos Onda Choc! Na altura em que ainda haviam cassetes. E passava os dias a cantar as músicas deles agarrada à letra que vinha nas cassetes com a antena do rádio a fazer de microfone... (juro que é verdade) São fases. Agora já não uso a antena, uso um comando de alguma coisa que parece mais real.

:)


De O Embalador de Codornizes a 28 de Março de 2007 às 23:47
Ainda não consegui convencer a minha mãe que “enconado” e “bardamerda” não são asneiras. A minha mãe é solteira e na minha certdão de nascimento na parte do pai tem, paso a citar: "Talvez o Sr. Faria do Talho. É a vida!

Cumprimentos do Embalador


De Joana a 28 de Março de 2007 às 16:04
Ainda bem que falaram nos parágrafos. Eu sou uma leitora assídua deste blog e ainda não tinha percebido porque é gosto tanto do aspecto gráfico.Uma foto criteriosamente escolhida, alinhada à esquerda e um texto em arial- nada de especial! Mas os pormenores contam muito, o texo é assim um bloco maciço de carateres. Se foi intencional ou por força de um teclado mal estimado, não me interessa. O blog é muito bom.
os melhores cumprimentos.


De Português ao volante a 28 de Março de 2007 às 12:10
O Cláudio Ramos tem blogue?! o horror... e ainda não me recompus do dente da Odete!

http://portuguesesaovolante.blogspot.com


De Ganda Bolta a 28 de Março de 2007 às 00:13
quanto ao título parece-me pouco adequado aos Onda-Choc. a não ser que a Nené Junior fizesse parte do grupo. É que "Bater" e "Tocar" parece-me demasiado explícito!


De Ganda Bolta a 28 de Março de 2007 às 00:08
quanto aos parágrafos, defeca lá nisso! quem não consegue ler 300 palavras seguidas que vá ler o blog do cláudio ramos...

o espaçamento de 1,5 não chega??!


De Ganda Bolta a 28 de Março de 2007 às 00:05
pedro, foi fácil convencer o cónego almeida, aqui de Rana, que "enconado" e "bardamerda" não são asneiras. disse-lhe que "enconado" é igual a envaginado e que isso tem a ver a ver com as membranas celulares e o caralho.

quanto a "bardamerda" foi ainda mais fácil, disse-lhe que era o nome de um antigo concurso da SIC, e o gajo percebeu logo:

- ah aquele concurso com o Hodji e com aquela bimbalhôta que foi achincalhada pelos papás! "És a vergonha da tua família! Não vou olhar para trás!"


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