Terça-feira, 10 de Abril de 2007
Ira












Rabiscar, ainda que ao nível celestial a que já habituei o universo, sobre um tema que em rigor já se terá focado, ainda que ao de levezinho, neste espaço, poderá parecer meio improfícuo. Mas não é. E, para não ser, basta-me dizer que não é. Sou como um pai mau, não tenho que dar justificações. Ou melhor, e em vez de um simples “não é”, é capaz de ser melhor recorrer a um "não é, cara***!". Se querem provar ou pedir alguma coisa, aconselho veementemente um “cara***!” no final da vossa argumentação ou pedido. Faz milagres. Por exemplo, imagine-se a situação em que alguém está à vossa frente e, conalmente, ignorou o vosso “com licença” ou “dá-me licença” ou mariquices dessas da boa educação e o raio. É pegar no “dá-me licença?”, juntar-lhe um “cara***!”, e ficamos com um “dá-me licença, cara***?” que não passará despercebido a ninguém. A escolha é vossa. Ou arriscam-se a ficar horas e horas atrás de alguém que, reafirmo, deveras conalmente, ignora a vossa prece, ou fazem-se homenzinhos e ficam com o caminho desimpedido e com mais largueza para passar que aquela que alguma vez imaginaram. Um “dá-me licença?” pode-vos ajudar a ultrapassar muitos obstáculos, mas um “dá-me licença, cara***?” ajuda-vos a ultrapassar todos. É garantido e isto até devia estar escrito em livros de citações. A ira, nisto dos pecados capitais, é algo com que me identifico de sobremodo. Irar-me é o pão-nosso de cada dia. Não sei quando, estava cheio de pressa para ir ao cinema e a porcaria da porta automática do centro comercial demorou demasiado tempo a abrir. Ira-me que aquilo demore tanto tempo a abrir. Se venho a correr, tenho que parar, para não atravessar o vidro. Mas, deixem lá, que ainda me hei-de rir quando vir o centro comercial a arder e os bombeiros irem a correr para acudir as pessoas e terem que parar para a porta abrir. Eu sei que é só um bocadinho. Eu sei disso. Mas são segundos preciosos que se perdem. E vai haver ali muita queimadura de 2º grau que só têm a agradecer ao chico-esperto que achou que aquilo não devia abrir de maneira a que quem viesse a correr ou em passo mais apressado conseguisse passar sem ter que parar. Depois do cinema, já cá fora, encontro um indivíduo na paragem do autocarro que come Oreos como se fossem bolachas Maria. Trinca e pronto. Irritam, estas pessoas que não sabem comer uma Oreo. Há uma razão para a Oreo ser como é. Para enfardar uma Oreo na sua plenitude, deve-se retirar metade, lamber o branco como se fossemos deficientes ou estivéssemos com a boca dormente por causa da anestesia cavalar no dentista, e depois comer a outra metade. É assim que se come uma Oreo, mas ainda há para aí muito calhau com olhos que come aquilo como se fosse uma carcaça de pão. Por falar em dentista, a parvinha da recepcionista já parava de me perguntar coisas como “Ora, marcamos a próxima consulta para dia 20 de Novembro de 2007. De manhãzinha, às 10h. Pode ser?”. Sei lá se pode! Falta quase um ano, minha tansa. A única coisa que lhe consigo dizer é “a que dia da semana é isso?”. Ela responde com um “é uma terça” ou uma coisa dessas, ao que eu reajo com um “pois, ‘tá bem” como se o facto de ser a uma terça fizesse alguma diferença. Depois, e isto já m’aconteceu várias vezes, pelo menos mais que uma, se ligo para lá uma semana antes do dia 20 de Novembro de 2007 a dizer que, afinal, não vai dar para ir porque não sei quê, ela solta um “pois, compreendo”. Mas é um “pois, compreendo” envolto num claríssimo “então, ó minha besta, não sabias dizer isso quando marcámos a consulta, quase um ano antes? Eu não te perguntei se podia, meu patego?”. Eu bem lhe topo o tom. É isto que o “pois, compreendo” dela me está a dizer. Só me dá vontade de lhe dizer “Fod*-**, parem mas é de marcar consultas quase um ano antes ou o cara-***, fod*-**! Mas isso tem algum jeito, sua marrã da me***? Um ano antes, sei lá eu bem ou o cara*** se vou estar ocupado numa terça de manhã”. Mas não digo. Não que tenha dúvidas em relação ao tom dela. Eu sou espectacularmente bom a captar tons, não estou é para me chatear. Porque, se estivesse para me chatear, atacava logo à dentada o pescoço de quem me diz “olha o cinco de paus” quando estou a jogar solitário. Eu sei que está lá o cinco de paus, vacão! Não posso estar a guardá-lo? Além disso, por que raio estás tu a ver-me jogar solitário? Isso é que é uma bela existência que para aí vai. Jogar já é triste que chegue, mas ver jogar é todo um outro campeonato. E depois, diz-me a minha madrinha, “ó Pedro, passa cá para vires buscar as tuas amêndoas”. E eu vou, feito parvo. Para vir de lá com um pacote daquelas drageias de chocolate com forma de amêndoa. Isto é que são amêndoas? Hã? Se nem amêndoa tem lá dentro! Ao menos que tenha a decência de me dizer “ó Pedro, passa cá para vires buscar as tuas drageias de chocolate com forma de amêndoa”. Porque assim eu não lá ia. Ninguém gosta dessa porcaria de drageias de chocolate. Andou Jesus a ressuscitar, que é uma coisa que ainda dá trabalho e chatices, para as pessoas andarem a dizer que é para ir lá buscar as amêndoas e afinal são drageias de chocolate? Foi para isto que Jesus ressuscitou? Nem que seja por respeito a Jesus, caramba. Amêndoas! Dêem amêndoas! Já para não falar em quem fica todo ofendido porque eu, quando tenho uma ambulância a apitar atrás de mim, em vez de encostar para ela passar, acelero. Só a senhora ambulância é que pode estar com pressa, é? Ora mais essa! Se acelerar, a ambulância não vai mais rápido também? Pá, se têm alguém com dores de barriga aí na parte de trás da ambulância, eu estou atrasado para registar o euromilhões que aquilo fecha as sete e são sete menos dez. Não coloco a vossa pressa em segundo plano, uma vez que são uma ambulância e isso, mas também não me peçam para desprezar a minha. Logo, acelero e vamos os dois mais depressa. É uma situação em que beneficiamos os dois. Todos ganham. Não só a ambulância, mas também eu, que não m’atraso. Parece simples. Agora, e meter isto na cabeça das pessoas? Isso é qu’era bom! Não, para as pessoas, temos que encostar quando a ambulância vem em emergência. Se aceleramos em vez de encostar, somos logo catalogados de maníacos e estúpidos. Sociopatas, coisas dessas. Quer dizer, um gajo encontra soluções óptimas para as mais variadas situações e ainda é ofendido de alto a baixo? Vão mas é chamar nomes ao idiota que achou que “ambulância”, escrito na parte da frente, tinha que estar ao contrário. Sim, porque se não estivesse escrito “aicnâlubma” em vez de “ambulância”, as pessoas não percebiam que veículo era aquele. Iam pensar que era um maluquinho com muitas luzes e apitos a guiar uma carrinha normal. Agora sim, com “aicnâlubma” já se consegue ler “ambulância” no retrovisor e encostar para a senhora passar. Santa paciência. Mas não, eu é que sou alienado e imprudente por ter encontrado uma solução para quem tem uma ambulância atrás e também está com pressa. Este país, às vezes, parece que ainda está na idade média. E isso, francamente, encoleriza-me um bocadinho. E a verdade é que podia ficar aqui o dia todo a apontar iras e raivas, mas isto também já me está a enervar.



Comentários:
De Zé-do-Telhado a 15 de Abril de 2007 às 01:23
Gostei disto. Continua.


De Ni a 14 de Abril de 2007 às 20:53
És mesmo demente cara***!


De Alice a 12 de Abril de 2007 às 15:06
O que mais me ira é ser recriminada por me irar...AAAARRRGH!!!!


De Anónimo a 11 de Abril de 2007 às 19:09
Realmente, há coisas muito irritantes! Gostei muito. Se a escrita é boa,olha que essa foto, absolutamente demoníaca, não lhe fica atrás :)
um beijinho
dulce


De Ana a 11 de Abril de 2007 às 16:54
Eu venho aqui sempre com a esperança de poder dizer algo de mal contra essa crueldade subjacente ao humor acutilante que aqui debitas, mas depois só consigo rir-me e rir-me e... mais um post genial!
Boa sorte com as portas dos centros comerciais (só nunca cometas o erro de lhes dares um pontapé e seres apanhado, que é crime, ok? :-))
Ah, e já agora, cuidado com as chamadas de emergência falsas, porque o número de telemóvel é sempre identificável.


De RL a 11 de Abril de 2007 às 11:39
Mais um bom post mas, aqui vai uma para aumentar a tua ira Pedro...Ao contrário de ti, os Bombeiros não vão ficar à espera que a porta automática do centro comercial abra. Em situações de emergência as portas ficam permanentemente abertas. Conselho: quando fores a correr para o cinema, aproveita e liga para a segurança do centro e inventa uma emergencia qualquer....pode ser que as portas abram para tu passares.


De Anónimo a 11 de Abril de 2007 às 08:41
Eu sei porque é que não dizes a Sra.do Dentista: "eu sei lá o que vou fazer para o ano, CARALHO"
Pelas mesmas razões que eu, é que quando lá voltares à cadeirinha, vais dizer muitos mais Caralhadas...
PS- Não percebo essas coisa das estrelinhas...

Muitos ****
Bibá P*i*t*u*x*a


De Rantas a 11 de Abril de 2007 às 00:14
Cada dia melhor!


De Ganda Bolta a 10 de Abril de 2007 às 21:52
este texto tem um requinte do caralh*!


De MiSs Detective a 10 de Abril de 2007 às 20:46
a escrita do pedro desperta em mim um outro pecado capital, inveja. muita inveja de quem escreve aasim :)


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