Quinta-feira, 3 de Maio de 2007
Orgulho
















É tão fatal com’ó destino. Ou como um murro com força na maçã-de-adão. Que, tempos houve, era assim a cena mais mortífera no nosso país. Isso, os murros com força no coração ou os murros no nariz com pujança tal que a cana ainda ia furar o cérebro. Isto, este dado axiomático, assimilei eu no recreio. Que realidades da vida, realidades sérias, das ruas e das vivências, o INE nunca ensinou a ninguém. Toda a gente, sempre, às vezes, quando lá calha, tem dias ou raramente, acaba por ter orgulho. E este pecado, disse-me um padre, é especialmente fodido. Ele recorreu a um outro vocábulo com muito menos força argumentativa, “tramado”, mas o essencial do que me proferiu estrutura-se ao longo do facto de o orgulho ser o pecado que deu origem aos outros seis, sendo até, segundo o mesmo padre, o mais sério dos sete. Calma lá, não se espume já feito convulso, que ter orgulho até é saudável. Só é pérfido quando se refere a coisas sem jeiteira nenhuma. O padre, ainda que com frases com terminavam todas em “tendes que não sei quê…ade, meu filho”, lá concordou. Eu disse-lhe logo que tinha extremo orgulho em muitas das minhas ideias e acções. Disse que eram algumas, para ele pensar que sou humilde. Mas sim, claro que tenho em todas. Disse algumas e apontei-lhe também algumas. Lá está, coerência. E, ora, a primeira é, sem tirar nem pôr, a solução versus secularismo galopante e matula de ateus. Tipo, comecei assim logo assim com um tema assim mais assim da área assim do padre e assim. Sim, porque eu sei cativar as pessoas. E disse-lhe que, doutor padre, isso do homem invisível que mora numa nuvem a ralhar por meio de trovoadas é chão que já deu uvas. A melhor maneira de castigar esses ateus devassados é obrigá-los a trabalhar na sexta-feira santa. Se eles não acreditam, que vão trabalhar. Folguem quando o vosso deus que, chamo a atenção para este facto, não existe, for pregado a uma cruz. Até lá, ala para a labuta, descrentes e intelectuais demasiado armados ao pingarelho para se fazerem de parvinhos tementes só para sacar feriados em barda. E deixem-nos, à malta que acredita com um dinamismo pio, no refestelo. O mínimo que se exige é congruência entre credos e actos, que o Nietzsche disse o que disse mas na sexta-feira santa lá estava ele, ao balcão dos correios de Weimar, a vergar a mola. Agora, se querem aproveitar um fim-de-semana de três dias, e porque a igreja é a malta do perdão, meus amigos, têm que acreditar. De outra maneira, não passam duns cínicos. É que até vieram as lágrimas aos olhos do padre, palavra de honra. É natural que o homem se tenha emocionado. Não é todos os dias que um dos passos decisivos na salvação do cristianismo lhe comparece à frente. Deixei que o padre se recompusesse e apresentei-lhe mais motivos de orgulho maior e, nesse sentido, dignos do céu. Ou, se na altura houver vagas, até do lugar de Deus ou vice-Deus para as modalidades. Como toda a gente, também eu vi “A guerra do fogo” numa aula de História. E depois tivemos uma ou outra aula sobre o que havíamos lobrigado via vídeo VHS marca Funai. Tinha duas cabeças. Dizia na caixa, que não percebo assim muito de vídeos. Perdemos logo uma ou duas aulas com a discussão que incidia sobre a eterna contenda relativa ao facto de a pessoa que leva uma à canzana quando está a beber água à beira do riacho ser menino ou menina. Não dava bem para ver e a turma estava dividida. Podiam ter metido uns vestidos em quem estivesse a fazer de menina, mas já se sabe que esta canalha dos filmes às vezes gosta muito de confundir a audiência. Havia, lá na aula de dúvidas relacionadas com a película cinematográfica, quem defendesse que isso das mariquices tinha sido inventado muito séculos depois, na Brandoa, numa noite em que o canal 1 estava a apanhar muito mal e, pá, lá calhou. Parece que não, que já existe há muito tempo. Na altura, aquando dessa aula de História, gostava de já ter tido a possibilidade de citar a Carla Caldeira, doutora com um curso e tudo que, há não mais de um aninho, disse num programa televisivo de converseta que “a homossexualidade é muito antiga, já vem do tempo dos romanos e tudo”. Tivesse eu recorrido a uma citação de elevado calibre, a exemplo de todas as que culminam com um “e tudo”, e tinha logo cingido o debate da canzana à beira do riacho enquanto se bebia água a apenas uma única aula. Ainda assim, lá acabei por ter uma intervenção que, ainda hoje, me atulha de orgulho. O professor, só porque lia livros e sabia datas, pensava que nunca seria surpreendido e, todo pimpão, dizia que o fogo era muito importante também porque assustava todos os animais perigosos. E disse mais. É a única coisa que todos os animais temiam. Desconfiei e fiz-me ouvir. Não é, não. Então? Disse ele, com um sorriso paternalista. À espera duma barbaridade. Bem o lixei. Então e o aspirador? Pumbas, pá, aquilo só visto. Não há animal que não tenha medo dum aspirador, ó “professor”. Fiz o gesto das aspas e tudo. Ele, já em desespero de causa, bem tentou dizer que isso era uma parvoíce, Pedro, onde é que existiam aspiradores na pré-história?, mas a mim não me lixou ele com estas lógicas manipuladoras. O próprio padre, enquanto eu lhe contava isto, até me disse que sim, que o gato dele costuma estar próximo da fogueira, mas que do aspirador ligado nunca se chega sequer perto. Com aspiradores, nem rinocerontes, doutor padre, concluí eu. Lixado é arranjar uma tomada no Congo, mas um daqueles pequenos, de cozinha, que é só mesmo para apanhar migalhas, deve fazer o jeito. E o outro a teimar que era o fogo, e só o fogo. Identicamente, orgulha-me a minha postura perante os telefonemas que são engano. Eu digo sempre que sim, que é de casa da pessoa que procuram. Digo logo “sim, é o próprio”. Sempre achei que era aborrecido ouvir “não, olhe que deve ser engano”. Comigo não, que eu continuo sempre a conversa, mesmo que não seja para mim. Assumo o lugar da pessoa que procuram. Sou solícito. E orgulho-me veramente de tamanha qualidade. Por falar nisso, um tal de Horácio de Almada que é casado com uma tal de Regina, se estiveres a ler isto, o Geraldes está no hospital. Um taipal qualquer com paletes ou isso caiu e parece que o gajo está mal, olha. Era de bom-tom passares por lá para dizeres um olá e desejar as melhoras. Espero que não t’apoquente o tratamento por tu, mas parece que até temos um número telefónico comparável. E, parecendo que não, é coincidência para até granjear alguma proximidade no trato. Não obstante, comuniquei eu ao padre, o meu orgulho manifesta-se de muitas outras formas e um ou outro feitio. Se não consigo abrir o frasco do doce de morango, e, porra, que há deles que parece que estão colados, vou antes comer pão com manteiga. Não me vou rebaixar e pedir a alguém para m’abrir um frasco. Sou demasiado orgulhoso. Como quando andei quase dez anos a chagar a cabeça à minha prima, a insistir que era ela que tinha ficado com o meu porta-chaves daqueles que era um homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo. Todos os dias lhe dizia isto. Todos. Se ela abria a boca para dizer alguma coisa, e nem precisava de ser para mim, eu confrontava-a sempre uma coisa do género “pois, já me davas é o porta-chaves que me fanaste, aquele do homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo”. Um dia, lá encontrei o malvado do porta-chaves do homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo, dentro duma minha mochila que não usava há muito tempo. O que eu fiz, obviamente, foi pegar no porta-chaves do homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo e metê-lo na bolsa dela. Tem que ser assim. E não é só uma questão de ter demasiado orgulho para admitir o erro. Se a chaguei anos a fio com isto, ia agora mostrar que todo aquele frete permanente, e às vezes com telefonemas às tantas da manhã perdido de bêbado, tinha sido em vão? Isso é que seria pecado. Assim, quando viu o porta-chaves do homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo, quando percebeu que foi ela que teve o porta-chaves do homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo durante todos estes anos, aí a minha prima soube que todo aquele sofrimento não tinha sido debalde. Eu devia era, para contar isto, ter arranjado um outro nome para o porta-chaves do homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo, que porta-chaves do homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo ainda é comprido e eu canso-me muito depressa. Agora que se lixe, que isto está quase a acabar e já nem vou falar mais no porta-chaves do homem num barril que mostrava a pila quando lhe empurrávamos a cabeça para baixo. O que não fez grande sentido foi o comentário do padre depois de lhe relatar tudo isto. Pareceu-me, e digo pareceu-me porque eu derivo muito quando são os outros a falar, que ele disse qualquer coisa como “meu filho, não se deve confundir orgulho com arrogância”. Claro, já sabia disso. E há para aí muita gentalha que faz isso, confunde orgulho com arrogância. Curiosamente, são as mesmas que confundem arrogância com o simples facto de eu ser melhor que elas em tudo.



Comentários:
De Anónimo a 19 de Maio de 2007 às 13:02
Doutor Padre, este post está muito bom! Beijinhos, Dulce


De PML a 10 de Maio de 2007 às 13:03
Muito Bom! ahahah


De Sr. Bastonário a 10 de Maio de 2007 às 11:59
Parágrafos? Isso é a mesma coisa que olhar para a Mona Lisa e queixar-se da falta de cor, ou coisa que o valha.


De Jaime a 8 de Maio de 2007 às 12:47
parágrafos é coisa de rotos


De escaffandro a 8 de Maio de 2007 às 09:08
Opá... e parágrafos?


De MiSs Detective a 8 de Maio de 2007 às 01:31
o pedro não existe pois não?!


De Miguel Ferreira a 7 de Maio de 2007 às 18:42
esta muito bom =D
fantastico


De Nuno a 7 de Maio de 2007 às 18:31
Que bruto post. Tu és mesmo bom, ó Pedro.


De netwalker a 4 de Maio de 2007 às 23:03
Jean jacques Anaud?! Espero que tenhas visto O Urso!


De JL a 4 de Maio de 2007 às 18:34
Lindo. :D


Comentar post

arquivos e isso
coisas menos coiso
digam que vão de minha parte
 Para deixar recado e assim
  • olhequenao@hotmail.com