Quarta-feira, 25 de Julho de 2007
Quatrocentos e noventa


Não reverencio mesmo nada o acto, involuntário, sim, mas nem por isso menos factual e ordinário, de pisar humidades quando estou de meias. É incomparavelmente pior que pisar descalço, que uma vez calquei iogurte líquido quando estava de meias e fiquei com aquela sensação durante meses. Sempre que andava de meias, tinha aquela sensação de ter a meia ensopada de iogurte líquido. A meia direita. Acho que nunca pisei nada com o pé esquerdo, o que não deixa de ser curioso. Ter noção destas coisas é mais importante do que possa parecer à partida. Nunca se sabe o que raio nos vai perguntar um médico. Uma vez, um desses doutores que partilham a farda com padeiros e talhantes e mesmo assim têm a mania, perguntou-me se eu metia manteiga no pão da esquerda para direita ou vice-versa. E já me perguntaram se eu costumava comer produtos ricos em tiosulfato de sódio pela manhã. Disse que sim, que tinha dias em que não me chegavam as torradas e a geleia à colherada, mas só para o gajo não ficar a achar que, lá porque tem um curso de receitar Nimeds e Aspegics, me deixa sem resposta no que quer que seja. Não me vão apanhar incauto quando a pergunta “com que pé é que costuma pisar humidades ou coisas em geral” vier à baila – e, não se duvide, virá, virá que eu bem sei que virá –, que eu respondo-lhe logo, sem pestanejar. Não tenho medo de médicos, muito menos das suas perguntas idiotas que visam, única e cheira-me que também exclusivamente, fazer cair o paciente numa espiral de ignorância em relação às suas próprias rotinas. Medo, medo, só tenho de um tipo de gente. Absolutamente curioso, ou curiosamente absoluto se se mais-quiser, esse medo só se repercute no temeroso acto de dar sempre prioridade a essas pessoas. Refiro-me, já se terá enxergado por esta altura, às pessoas cujo veículo automóvel apresenta um plástico em vez do pára-brisas. É deixá-los passar à frente, não apitar, não barafustar, permitir que venham para a nossa fila quando a deles pára e todos os diversos et ceteras que tornam a vida rodoviária numa pitoresco rendez-vous de parvalhões e bestas. As pessoas que têm plásticos em vez de vidros do carro, e vou recorrer aqui a um estereótipo que, como todos os demais, é verdadeiro, é canalha com uma saudável tendência para encontrar confusão no mais insignificante pormenor. Ontem matei uma barata. Por sistema ou mesmo recreação, não mato insectos, mas há algo de mágico em matar com um chinelo uma criatura que sobreviria a uma explosão nuclear. De certa maneira, o meu chinelo prova ser mais poderoso que uma bomba nuclear. Como seria dar uma chinelada em Hiroshima e Nagasaki? Quão diferente seria o mundo? Se calhar as pessoas iam pensar que os japoneses estavam a exagerar um bocadinho, que umas chineladas nunca fizeram mal a ninguém. Menos àqueles miúdos que morrem com sovas de chinelo. Normalmente é mais com cintos e ferros, mas já deve ter acontecido com chinelos. Daqueles de praia, em plástico duro. Não daqueles de usar mais por casa, com pêlo e uma sola toda maleável. Já que é de holocaustos que se trata, registe-se que na segunda-feira, ou um desses dias assim em que me posso deitar quase de dia, metade dos canais portugueses em sinal aberto passaram, em simultâneo, filmes do James Belushi. Um era com cães, como quase todos os filmes com o James Belushi. Cerca de muitos, dizem-me ali da cozinha. Dois filmes do senhor e, óbvio, pensei logo “Olha, morreu o James Belushi”. Por que outra razão dariam dois filmes com o James Belushi ao mesmo tempo? Quando morreu a Amália, eu cheguei a casa e reparei que estavam a dar filmes e documentários sobre a senhora. Coisas a preto e branco e com cantorias. Inocentemente, pensei que fizesse anos. Afinal tinha morrido e eu fiz figura de parvo. Não me lixam mais. O James Belushi até pode ter feito anos na segunda-feira. Mas para mim morreu.




Comentários:
De Chico-Online a 25 de Julho de 2007 às 11:06
Espectacular a forma como brilhantemente associas as ideias, só com os teus textos é possível começar em humidade nas meias e acabar com o James Belushi.

Muito bom como sempre :)


De Chiqui a 25 de Julho de 2007 às 11:45
"Undownputtable" ou "a page turner", é como, em inglês, se poderia adjectivar este blog. Que é como quem diz, uma leitura que não se consegue largar e uma vontade de "virar a página" em busca do que virá a seguir. Poucas leituras me conseguem agarrar assim. Parabéns.

PS - Se da tradução à letra das expressões em inglês resultar um "não se pode pôr em baixo" ou um "vira páginas" a responsabilidade é inteiramente do(a) leitor(a).


De M.João a 25 de Julho de 2007 às 12:25
Tu escreves mesmo bem, é uma delícia ler os teus posts, leio-os rapida e estupidamente e fico sempre com pena quando chego ao fim, como aliás me acontece com alguns livros!

Bela gargalhada que me arrancaste ( no meio do serviço - a vergonha!!) com o belissimo Tiosulfato de sódio pela manhã!


De angelina a 25 de Julho de 2007 às 13:47
ainda só li a primeira frase. e já afastei os olhos do monitor para me rir sozinha e me preparar para me deliciar com o que aí vem. caramba... continuo


De dino a 25 de Julho de 2007 às 17:35
realidade e humor. isto é uma terapia


De Nuno a 25 de Julho de 2007 às 22:40
Há uma pergunta que me assolou durante o tempo todo em que li este post... Quer dizer não me assolou o tempo todo, mas sim o tempo a partir da altura em que li o acontecimento. Ah e também não me assolou quando parei de ler para rir uns minutos por causa do pessoal dos plásticos em vez de vidros nos carros ( é gente que não interessa a ninguém )... A pergunta é a seguinte: Como é que raio é que foste ( e trato-te por tu com todo o respeito ) pisar um iogurte liquido e acima de tudo, descalço?


De João a 26 de Julho de 2007 às 00:22
Pior do que pisar um iogurte líquido, só mesmo entrar calçado apenas com meias numa casa-de-banho pública, daquelas em há uma sanita tão entupida, que até já transbordou e tudo.


De Marta a 26 de Julho de 2007 às 16:51
Porque raio é que alguém entraria numa casa de banho pública descalço? (ou de meias, que é ainda mais estranho)

Sigo o teu blog há muito tempo e é como um vício. Impossível de deixar. Mais uma pessoa a dar-te os parabéns pela escrita.
Continua.


De João a 26 de Julho de 2007 às 21:56
Está-se mesmo a ver que nunca te roubaram os sapatos longe de casa, e te deu logo de seguida um aperto na bexiga. A mim, isto acontece amiudemente. Muitas vezes, vá...


De Brockston Über Alles a 26 de Julho de 2007 às 23:09
Eu às vezes cholhaco a Fanta sem querer e molho as meias.


De Nuno a 27 de Julho de 2007 às 03:29
Não sei porquê, associei essa da sanita a transbordar, com rios, cataratas e canoas... Não sei porquê...


De cat power a 27 de Julho de 2007 às 04:06
Pior que pisar o que quer que seja descalço...é ir para a praia de meias, não é coiso? :)


De Miss Detective a 27 de Julho de 2007 às 12:07
É UM SENHOR! É UM SENHOR ESTE GAJO! lol


De pedro a 30 de Julho de 2007 às 14:20
Nós já combinávamos era alguma coisa, que esta tensão sexual faz-me mal à hérnia.


De Sacrilegius a 27 de Julho de 2007 às 12:14
Isto é um blog de engates ?
A propósito, que é que aconteceu ao congro do pára-brisas em plástico ?


De O Criador a 27 de Julho de 2007 às 12:34
Bestial como sempre mas... porque é que o título é "Quatrocentos e noventa"? O que é que me escapou?


De pedro a 30 de Julho de 2007 às 14:21
70x7 é quatrocentos e noventa. Não posso é explicar o porquê de ter recorrido a 70x7 porque, como é do domínio público, desenvolvo apenas uma explicação por post.

Devia ter aproveitado para me questionar relativamente ao 70x7 e menos em relação ao resultado dessa multiplicação, caro indivíduo.


De Izzy a 31 de Julho de 2007 às 17:16
Isso do 70x7 eh a tua profunda religiosidade a vir ao de cima caro Pedro. Eh bonito sobretudo porque os teus posts nao sao nada catolicos, digo eu...


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