Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007
Não tenho mais fotos e queria ver se conseguia meter um vídeo

 

Uma coisa que as cantigas têm, entre si e relativamente a mim, é a circunstância de me darem vontades. Não são, evidentemente, querenças nascidas de associações primárias na estirpe de um “ah, aquela do Ai Timor se outros calam cantamos nós” dá-me vontade de cobrir completamente o Luís Represas de pioneses" (N.B: sim, estamos perante o plural mais idiota de sempre, mas algum tinha que ser; é verdade que o podia ser com menos margem de camelice, mas às vezes estas coisas são assim e não há que questioná-las ou fazer grandes alaridos teórico-práticos). Por cobrir de pioneses, não se entende a hipotética acção, de laivos circenses, de despejar uma grande balde azul de pioneses sobre o Luís Represas. Com efeito, tal execução seria, e em rigor, também cobrir de pioneses o Luís Represas, contudo, não é essa forma de cobrimento de que aqui se pretende idealizar a operacionalidade. Trata-se, por outra, de espetar pioneses no Luís Represas até que este fique completamente coberto destes pregos altamente adamados. A diferença é substancial, senão mesmo muito colossal. Pese embora, há que afirmar desde já que todo este exemplo bóia num mar de imbecilidade aparente e efectiva por duas ordens de razões. Porque, a), o Luís Represas é o tipo de individualidade que apetece sempre cobrir de pioneses, logo, não faz grande sentido que uma música em particular desperte esse sentimento; e, b), as vontades que as cantigas me incitam não são nada destas insipidezes com um nível de associação a, qual vassoura alegórica, roçar o solo da banalidade; não, são coisas bem mais rebuscadas, para pensar, com significados profundos, metáforas e coisas assim dessa têmpera e compleição. Sem mais delongas, esta canção em particular, que está naquele teledisco ali de cima, dá-me vontade de queimar coisas. Plásticos, coisas em vimes ou empalhados de uma forma mais genérica, pneus, casacos de ganga, pequenos móveis, sobretudo mesinhas de cabeceira, naperons, latas de laca, legumes, basicamente, tudo o que der. Raramente me deixam queimar coisas. Era assim em criança, continua a ser assim agora. A ideia “já queimávamos era isto, n’era?” nunca é acolhida com entusiasmo ou efusão. E eu sei, porque a uso como alternativa a quase tudo. Vá-se lá perceber um mundo que não recebe com efusão uma proposta destas. O cerne da questão, no que toca a identificar o problema central deste, chamemos-lhe conjunto musical, e nesta cantiga em concreto, é o facto da rapariga, ou matrafona de vestes normalmente associadas ao género feminino, apresentar, de longe e neste mítico dueto, a voz encorpada. Ao passo que o enfezado rapazola tem um falsete que faz parecer que os Bee Gees são o Darth Vader de ressaca. Por falar em Darth Vader, este ex-senhor de todo o mal das galáxias é um bom exemplo de reinserção na sociedade activa e liberta de gandulices. Depois de uma vida de iniquidades da pior espécie com naves e lasers, Darth cumpriu a sua pena e agora é o gajo que diz “this is cnn”, nos separadores da CNN. Não deve ser coisa para tirar menos de 200 contos por mês. Nada mau, para alguém com cadastro. Esta coisa, do duo com as vozes trocadas, destrói qualquer banda, porque confunde as pessoas. Não há necessidade de confundir as pessoas, sobretudo ao nível da dinâmica da percepção visual-auditiva. Serve isto também para lembrar que até já vi um concerto deste indivíduo de voz castrada, o Jimmy Somervile, ao vivo. Escandalosamente, não estava bêbado, pelo menos não no sentido comatoso do vocábulo, embora estivesse fora do país. O que acaba por ser a mesma coisa. Fora do país está-se sempre bêbado e sem se tocar num pingo de álcool. É o que o estrangeiro tem de bom. Não o livro do Camus, claro, mas esta referência sempre deu para fingir que até domino amplamente qualquer literatura mundial de referência ou não. Mais ou menos como quando finjo que a bola de bilhar que consegui meter no buraco depois de duzentas e trinta tabelas não foi ao calha. E vi o Somervile (ao vivo e a solo – ele, eu estava com mais pessoas), de certezinha totalitária, na sequência duma aposta que venci em toda a minha glória. Dizer isto, que já se viu aquele gajo dos Communards, o da voz fininha, que também foi dos Bronski Beat, mas a solo, não é o deus ex machina que julgava ser, assim em termos de conversas. Passa despercebido. Ou então dá chatices. O que é pena, porque é sabido que a única razão para se irem ver coisas é para depois se poder usar em conversas o facto de se ter ido ver, e, nesse sentido, Jimmy, só me serviste para ter que andar a explicar quem afinal és tu e conseguir, quanto muito, uns “ah, já estou a ver”. Mas é daqueles “ah, já estou a ver” fingidos, como os que eu uso quando m’explicam onde é que fica um sítio e dão referências “depois sobes e tens uma transversal que tem uma rotunda à direita, perto duma escola” e entes congéneres. Entretanto, e para ver se me passa este ânsia de queimar coisas, vou narrar uma história, impreterivelmente verídica. A primeira vez que joguei à porrada, naquela altura das nossas vidas em que o ludus marca forte presença na eterna arte da bulha, deveu-se a uma, até aí insondada, dificuldade em flexionar o verbo caber. Passava eu, do alto das minhas sete ou oito primaveras, de bicicleta numa zona que, devido a um indivíduo e a um carrinho de mão que norteava, estava agora ligeiramente mais apertada que o costume. O carrinho de mão forçou-me a aligeirar a velocidade, e eis que, do nada, o indivíduo, que, apesar de andar a empurrar carrinhos de mão tinha apenas mais um ano ou outro a mais que eu, atira-me um “não cabes?”. Eu cabia. Perfeitamente. E nem encarei aquilo como uma provocação. Mas levantaram-se logo uma série de obstáculos. Como é que dizia que cabia? Qual é a primeira pessoa do verbo caber? Como é que se diz? Sim, bem sei, agora e desde há uns anos – quatro –, que é caibo, mas não sabia naquele momento de tensão. E, claro está, se há coisa que não gosto de fazer diante de operadores de carrinho de mão, essa coisa é precisamente conjugações verbais desfeadas. As hipóteses que ecoavam na minha mente soavam mal. O cabo, o próprio caibo. Soava mal. Porque sim e por causa da pressão a exigir resposta pronta. Dizer simplesmente “sim” não era alternativa credível. Também não queria passar por uma daquelas pessoas que diz “sim” em vez de usar o verbo. Isto é, aquelas pessoas que, à questão “foste ali?”, e em caso afirmativo, respondem “sim” em vez de “fui”. Não queria, e não quero, ser confundido com esta gente, dos sins. Ora, não conseguindo decidir entre “cabo” e “caibo” e não sendo um solitário “sim” uma opção viável, lá tive que dizer que não. Como era óbvio que cabia à vontade, aquilo assumiu contornos de provocação e estágio de pré-cachaporra. Disto ao gesto foi um instantinho. Começámos a jogar à bulha. Nada de especial, só ficámos com as golas das camisolas um bocadinho mais largas. Lá nos cansámos e foi cada um à sua vida. Pronto. E a moral é simples e una. Ter a flexão verbal correcta na ponta da língua é meio caminho andado para não se meter em confusões e maçadas. De resto, e valha a verdade, não serve para muito mais.  




Comentários:
De Ana a 11 de Outubro de 2007 às 12:44
Parabéns!
Em primeiro lugar porque, sendo a leitura do post mais rápida que o carregamento do vídeo, assim que cheguei à fantástica descrição «(...) é o facto da rapariga, ou matrafona de vestes normalmente associadas ao género feminino, apresentar, de longe e neste mítico dueto, a voz encorpada. Ao passo que o enfezado rapazola tem um falsete que faz parecer que os Bee Gees são o Darth Vader de ressaca.» percebi de imediato qual o grupo em questão. Óptima descrição, portanto.
Em segundo, por nunca, ao longo do post, ver qualquer alusão aos comentários mais comuns que eu ouvi a elementos do sexo masculino a propósito do clip (sim, que eu «sou do tempo» em que este clip passava amiúde na tv - tão amiúde quanto é possível na vasta oferta de dois canais nacionais que então havia) e que, curiosamente, raramente se perdiam em grandes delongas quanto à questão da «troca de vozes» que sempre achei muito mais pertinente.
Não, 99% dos comentários eram centrados na discussão da forma como a rapariga energicamente fazia sobressair os airbags frontais (não, não era airbags que lhes chamavam, até porque na altura esse dispositivo de segurança inexistia nas viaturas nacionais) ao longo do clip. E geravam-se verdadeiras discussões de índole estética, funcional, antropológica e filosófica sobre esse pormenor do clip.
Mas neste post, nem uma palavra sobre tal questão, o que demonstra inegável elevação do nível deste «estaminé».
Parabéns, portanto!


De pedro a 12 de Outubro de 2007 às 02:44
As questões que levanta são bem mais prementes num determinado teledisco de Sabrina Salerno. E era com isso que eu perdia o meu tempo, inclusive debatendo, sim.


De joão a 11 de Outubro de 2007 às 14:01
hoje estou pragmática... Achei brilhante! e sem delongas e salamaleques me retiro!


De ZOT a 11 de Outubro de 2007 às 15:37
Os Communards...caralho! Aposto que esta alguém (não se ve no video) enfiando um dedo no cu deste rapaz, ou então também pode ser que o ar do estudio estivesse propositadamente impregnado de Hélio. Eu até diria mais, o pai deste rapaz é Manuela Ferreira Leite, que o expeliu antes de tempo durante um ataque de raiva, e o abandonou numa viela de Londres.

Quanto ao "Ai Timor..." do Luis Represas, fez grande sucesso no seio dos milhares de fans de Tony Carreira. O Ai Timor ainda consegue irritar mais do que o cabelo do proprio Represas.

Gostava de ouvir o som de um arroto dado pelo Darth Vader. Seria um bom toque para telemoveis.


De Izzy a 11 de Outubro de 2007 às 17:24
Meu caro Pedro, tu desta vez excedeste-te! Este texto esta fantastico! Li isto ontem e ainda nao parei de me rir de cada vez que me lembro de certas passagens. Entao aquela historia veridica da tua infancia... Excelente. Olha, ve la se publicas isto que a mim dava-me jeito ter este blog em forma de livro. Tambem pode ser fotocopias desde que venham bem encadernadas. Pode ser?


De pedro a 12 de Outubro de 2007 às 02:45
Não seja histérica. Isto é sempre igual.


De João a 12 de Outubro de 2007 às 13:19
Sempre igual e sempre moderadamente inteligente e compulsivo... ( inteligente a forma e o conteudo do que se escrevinha--- compulsiva... eu a ler o que foi escrito!) catano não é assim normalzinho normalzinho, senão não se (cacofónica me saí aí atrás) não perdia tempo a ler-te!!


De pedro a 12 de Outubro de 2007 às 13:25
A João não quer assinar com um nome de traço mais feminino? É só para eu me sentir mais confortável a nível hormonal e derivados.


De maria joão a 12 de Outubro de 2007 às 16:03
A joão tambem pode ser maria... uma maria qualquer... ele há tantas! ( isto de escrever na terceira pessoa à jogador de futebol, tem a sua piada... vou tentar oralmente pa ver como soa!)

Odiaria confundir, baralhar, ou mesmo redireccionar as tuas hormonas! Bem, e os teus (seus) derivados nem pensar!!!


Maria João --Prazer! Tua leitora assidua, crente mas muito pouco praticante na arte de comentar (até porque normalmente já disseste tudo!)

Sou "gaja"---- Melhorou???


De Izzy a 12 de Outubro de 2007 às 15:54
Ah pois, realmente tens razao, isto eh sempre mais do mesmo. Fui eu que me esqueci de tomar os medicamentos. Li outra vez e realmente nao achei piada nenhuma. Quer dizer, uma ou outra passagem ainda se aproveitam. Metade do texto, va la. Olha, afinal continuo a rir-me! Tenho que aumentar a dose.


De casino de Las Vegas a 9 de Junho de 2009 às 11:07
Si, también creo que daría un buen libro. Quizas un libro sobre el efecto que los hits de los 80s tuvieran sobre la generacion activa de hoy...


De Maria João a 12 de Outubro de 2007 às 16:53
bolas tive que voltar porque me esqueci de uma cena que queria ter dito logo na 1ª escrevinhadela ( sou deveras distraída), nunca perdi muito tempo antes a dissecar a história da transferencia vocal do duo... basicamente porque ficava fascinada a olhar a forma como ele dançava, se mexia e os movimentos da boca!!! Desde sempre que me conheço assim, existem criaturas que me fazem alienar de tudo o que seria importante, e ficar so a observar o movimento de uma parte do corpo das proprias ou mesmo do todo, como neste caso do Jimmy Somervile... ou porque elas são esquisitas ou porque eu sou estranha!!! :)))

eláaaa lembrei-me agora de uma cena chocante... isto foi em 86, e eu já era doida aos 15 anos! coitada da mamã!!!!


De primanocte a 15 de Outubro de 2007 às 19:47
Um blog fantastico. Parabéns.


De Mikelem a 15 de Outubro de 2007 às 22:32
Já repararam como o vocalista dá pequenos saltos como que a dizer: "Ui! Ui! Magoa..."


De Eduardo Ramos a 15 de Outubro de 2007 às 22:37
Óóóólhe!
Eu descobri este blog por culpa no Senhor "Marques" kanda a divulga-lo na rádio! Por isso a culpa é DELE, e NÃO MINHA, de qualquer comentário mais estúpido que saia dos meus dedos.
Tendo isto, de facto escreves para caraças. Deves gastar o dinheiro todo em táxis pra te trazer de onde a imaginação de leva. Começas num feijão e no fim já vias na pesca ao bacalhau no mares do Norte. Xiça!
Perdi-me 3 vezes. Da próxima vez que vier a este blog trago um GPS.

1 forte abraço!
;)


De Toclante a 16 de Outubro de 2007 às 12:08
Cabes tu, e muitos mais cabrão!


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