Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008
Só para isto parecer uma coisa com actualizações frequentes e outros adjectivos que façam sentido


Porque a coerência é uma arte, e eu um artista de estripe picassiana vezes infinitos vezes infinitos, é com regrado orgulho que me vejo seguir, em parte, a dinâmica iniciada na comunicação a esta imediatamente anterior. De sorte que cá deixo, em profundo detalhe, ou – optando por uma retórica menos polvilhada de intrujice – em detalhe duma profunda mediania descritiva, o pior dia do ano transacto. Não em termos mundiais, humanos ou o que for. Apenas o meu. Temos então, em tão honrosa categoria, aquele dia em que, finalmente e após inúmeros – cerca de três, seguramente não mais de quatro – impulsos conscienciosos nesse sentido, resolvi presentear um ceguinho do metro com uma quantia monetária: vinte e poucos cêntimos, em moedas das pretas – algumas de cinco, portanto, nada mau. Tomada a decisão, e como expectável, foi-se acercando o cego, curiosamente o que menos encontro nestas lides. Cada vez mais próximo o feliz contemplado, procuro, no bolso das moedas pretas, um punhado desses belos exemplares. Porém, havia que lembrar que o cego não consegue subentender que o vou presentear, uma vez que não me vê a meter a mão no bolso. Neste aspecto, perdem muito para os romenos com acordeão, que esses vêem um indivíduo meter a mão no bolso, percebem que vão receber por terem tocado o “Cheira a Lisboa” ou uma música de Natal [isto é mais quando é Natal – e, note-se, chateiam-me estas cristalizações musicais a períodos temporais específicos; não pode, pergunto eu, um indivíduo ter vontade de ouvir um “Noite Feliz” em Agosto? Pronto. Fica a pergunta no ar, que entretanto já usei uns parênteses rectos, um traço, um ponto e vírgula e um ponto final, e, se calhar, não sei, esta intercalação às músicas de Natal tocadas por acordeões romenos já vai longa e depois é confuso para as pessoas] e param em frente à pessoa, expectando a sua pequena gratificação pelo momento musical e tradicional, e concomitante, boa disposição. Quando um desses romenos – e, amplo realce para este facto, só não fiz isto quando o Niculae jogava no Sporting – passa por mim, eu meto sempre a mão no bolso, finjo que estou a tentar apanhar uma moeda que está mesmo no fundo da algibeira e, passados uns, deixa cá ver assim por alto, trinta, quarenta segundos, retiro a mão, devagarinho, para criar suspense. O romeno espera, sorridente. Na prática, esperou que a minha mão, já fora do bolso, e sem moeda nenhuma à vista, mudasse uma música no meu leitor de aúdio digital, aparelho que dava para comprar um prédio em Bucareste. Isto é o que eu lhes digo. “Olhe qu’isto dá para comprar um prédio na tua terra, em Bucareste.” Em Bucareste talvez não, que as capitais são sempre sítios onde a especulação imobiliária grassa e arrasa, mas daria, seguramente, para uma faustosa moradia em Timisoara. O romeno vai-se embora, mas, durante um bocadinho teve esperança. Esperançar as pessoas é, em qualquer ponto do globo, bem melhor que lhes dar dez cêntimos, e acaba por seguir mais aquela dinâmica do provérbio chinês do não dês um peixe a um homem, ensina-o antes a pescar. Se bem que ensinar um homem a pescar é coisa que pode demorar. Há homens muito burros e, se pescar é chato, ensinar a pescar não deve ficar muito longe disso. Portanto, se estiver com pressa, acho que é de deixar o peixe. Ele que aprenda a pescar sozinho. Ou então coma carne, que não tem espinhas. Entrementes, e com tanto a acontecer em simultâneo, já me perdi. Vou deixar agora um espaço, voltar atrás para ler onde ia, e dar seguimento a isto.

 

O cego não me viu meter a mão no bolso, percebi logo que o ia deixar passar se não fosse mais expedito e, derivante dessa pressa que m’assaltou de rompante, deixei cair uma moeda de dois euros que, não sei a que propósito, estava no bolso das moedas pretas. Não mais recuperei essa moeda de dois euros, que caiu naquele folhe da porta do metro e, daí, sabe-se lá para onde algures na linha. Não tive o ataque de fúria que teria naqueles dias em que não tomo umas coisas que se chamam sedativos, dei as moedas pretas ao invisual e perguntei-lhe se não tinha ouvido uma moeda cair. É que, e uma vez que estão privados da visão, os cegos têm um outro sentido muito desenvolvido. Super-sentido, é o nome deste fenómeno. Podia ser que este cego tivesse super-audição. Mas não tinha, que ele só disse que sim, que lhe pareceu ter ouvido qualquer coisa. Se tivesse super-audição, tinha ouvido bem mais que isso. Se calhar era um cego com super-tacto, que dá jeito para sentir seios sem chegar a tocar na camisola. Ou super-paladar. O super-paladar traduz-se no facto de, por exemplo, quando se come um frango, esse frango saber mesmo, mesmo, mesmo, mesmo muito a frango. Lá lhe disse que aquela impressão de ter ouvido cair qualquer coisa estava relacionada com a queda efectiva duma moeda de dois euros, tendo, em seguida, explicado ao senhor as circunstâncias que provocaram tamanha perda. Findei a minha exposição descrito-argumentativa frisando que, moralmente, ele me deveria dar pelo menos um euro, uma vez que eu tinha perdido uma moeda de quatrocentos paus por causa dele. Não aceitou, e diz que isso é apenas um esquema para sacar duzentos paus a cegos como ele. Eu ainda lhe mandei a boca que s’impunha, aquela do “olhe, sabe, eu nem vou insistir mais, que o pior cego é aquele que não quer ver, homem” e retirei-me, deixando o cego, e porque não s’apercebeu que eu havia ido à minha vida seguindo outra direcção que não aquela para onde ele estava virado, a praguejar impropérios na direcção de outras pessoas que não eu. Desde esse dia, decidi que não mais daria uma moeda a cegos, tendo ainda, com os nervos, chegado a casa e apagado os mp3’s que tinha do Stevie Wonder. Tenho saudades do "Songs in the key of life", ou lá o que é, mas é o tipo de saudade bastante controlável. Como ter saudades de farinheira no cozido à portuguesa. É mais naquela dinâmica de até se poder ter saudades, mas saber que a farinheira não é nenhum chouriço. Ou uma carne de vaca. Nem uma morcela, quanto mais. É também, e sobretudo, impressionante como tenho sempre fome.


P.S: Isto era suposto estar ilustrado por uma fotografia, mas não está a aparecer, sabe lá Deus porquê. Este post scriptum sairá daqui assim que a fotografia em questão der sinal de vida ou, bastante mais provável, eu me lembrar passado demasiado tempo.




Comentários:
De patricia a 18 de Janeiro de 2008 às 04:04
benditas insónias!
descobri por mero acaso este cantinho cheio de sarcasmo no estado mais avançado. E, por estranho que pareça, deve ter sido das melhores coisas que tenho lido por aí, ou então será só o meu estado de semizombie que está a deturpar a minha percepção da coisa...
não querendo ser graxista, que não tenho feitio para isso, que fique aqui registado o meu humilde reconhecimento a esta pérola de humor negro. (não que interesse para alguma coisa..mas uma tipa ensonada sempre tem de passar o tempo com alguma coisa)


De ZOT a 18 de Janeiro de 2008 às 07:57
Pois é! é o que acontece quando se é um mãos largas como tu. Eu deixei de dar moedas seja a quem for, desde que vi uma reportagem sobre falsos "pedintes" lisboetas que tem prédios arrendados. Sabe-se la se esse cego que te viu perder os quatrocentos paus, não é dono de metade da avenida de Roma.

Antes da entrada do Euro ainda lhes dava as moedas pequenas de outros paises por onde passava, sempre era mais logico sustentar os pedintes portugueses que os estrangeiros e assim também me livrava de porcaria que me enchia a minha gaveta das tralhas.

Ja agora, farinheira também não é orelha de porco.

Cumps


De AL a 18 de Janeiro de 2008 às 10:03
Hilariante!!!:)))


De 100STRESS a 18 de Janeiro de 2008 às 12:03
Ainda não parei de rir...
Está espectacular. Parabéns pelo destaque no Blogs do Sapo.
www.enfermando.blogs.sapo.pt
www.nano.blogs.sapo.pt
www.masqueraiodevida.blogs.sapo.pt


De sigacafe a 18 de Janeiro de 2008 às 13:35
Tens um blog muito nice!!
Parebéns pelo destque da sapo!
Fica bem,
Jota


De Blogadinha a 18 de Janeiro de 2008 às 16:53
Em terra de cegos, quem tem olho não reina nem perde a moeda.

Bom blog(ue). Felicitações pelo destaque!

Nota: a farinheira não é um chouriço mas dá para encher uns quantos...



De outroscaminhos a 18 de Janeiro de 2008 às 20:43
Visitem-nos http://outroscaminhos.blogs.sapo.pt/

Blog muito interessante ! parabéns


De lxdeluxe a 18 de Janeiro de 2008 às 23:19
Em relação aos pedintes, eu deixei de dar qualquer moeda, sejam eles falsos ou verdadeiros, desde que um me ameaçou com um isqueiro enquanto eu punha gasolina, para lhe dar uma moeda. Outros "traumas" só uns quantos com a boca virada para o rabo... enfim.


Em relação ao blog, parabéns!!! Não me canso de o ler, é genial! :)


De Ah! a 19 de Janeiro de 2008 às 13:24
Contorcionismo?!


De efe a 19 de Janeiro de 2008 às 01:53
clicando na caixa da imagem dá para ver a foto
;)


De Heitor a 20 de Janeiro de 2008 às 09:30
Sinceramente não encontro humor de qualidade acima do medíocre, nas tuas supostas graçolas.
Mas a verdade é que há quem se contorça a rir e a bater palmas com as mãos e os pés, com as ditas.
Parabens então.
Contra factos não há argumentos.
Afinal as vozes do bicho sempre alcança os céus.
Fica bem.


De Moyle a 21 de Janeiro de 2008 às 19:44
este comentário é genial. agora é que me estou a rir de caraças...

[era um bocado estúpidoe star aqui a reproduzir graficamente as gargalhadas pelo que vão ter que acreditar na minha palavra. Já agora, continuo a rir]


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