Segunda-feira, 31 de Março de 2008
[fazer de conta que está aqui um título muito, etc., bom]


Quando ocorre estar postado numa fila, consigo identificar claramente a pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” a mais de não sei quantos metros e com uma margem de erro tão absurda, mas tão absurda, que era escusada a própria menção de uma margem de erro. Esse tipo de criatura, a pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?”, existe, apenas e só, no sentido da fomentação de sentimentos que se podem descrever como implosões interiores ao nível dos nervos, basicamente e assim. Uma vez que o homicídio em própria defesa ainda é, infelizmente, um campo muito limitado e apenas aplicável em situações bastante específicas, há que lutar contra estas criaturas com as armas possíveis. Ora, partindo-se do óbvio pressuposto de que a fuga ao extremo incómodo que a pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” promove junto do receptor deve muito a uma identificação prévia da referida criatura, a importância dessa faculdade (ver primeira frase, se já se esqueceu qual é, seu monoceronte com um intervalo de atenção nulo) banha-se então, e declaradamente, num mar de incontestabilidade. Embora componente decisiva do processo, não basta a mera identificação da pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” a largos metros de distância. É necessária a aplicação imediata de uma postura de combate à pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” e à sua grande arma, precisamente o “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?”. Pessoalmente – e, relembro, depois de identificada a pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” –, socorro-me de duas tácticas, que passarei a descrever. Uma requer que se tenham vestidas umas calças com fecho-éclair, a outra não requer nada, pelo menos em termos de equipamento específico. Em relação à primeira, basta referir o seguinte: assim que identificar a pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?”, limite-se a baixar a cabeça e finja-se entretido a abrir e fechar o seu fecho-éclair. A pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” não ousará incomodá-lo, é garantido. A outra opção passa por centrar o olhar no seu próprio nariz, dando a nítida sensação de que é muito estrábico ou uma coisa dessas. A minha experiência diz-me que ninguém pergunta nada a estrábicos, sobretudo a quem aparente um nível de heterotropia que seja visível a uma distância considerável. Deve ser fenómeno intrinsecamente relacionado com o facto de essa gente parecer maluquinha, embora até existam alguns que andam de fato e têm estudos (ainda que nunca acima de licenciatura). Isto do estrabismo ciclópico, é, ao nível destas dinâmicas, equivalente a ter as calças ensopadas em urina – própria ou não –, uma suástica tatuada na testa, uns óculos escuros sem uma das lentes, etc., coisas dessas. Assusta, ninguém lhes pergunta, nem pede nada. Ambas eficazes, estas tácticas têm os seus pontos menos positivos. No caso da do fecho-éclair, é preciso estar com calças que possuam esse tipo de peça. Sabendo-se de antemão que setenta e oito por cento das esperas em filas se efectuam usando calças de fato-de-treino, é elevada a probabilidade de não termos o fecho-éclair necessário. Na outra táctica, o problema assenta no facto de que centrar os olhos no nosso próprio nariz fazer dor de cabeça passado um bocado; o que potencia a plausibilidade de você deixar de concentrar exclusivamente o olhar no seu próprio nariz antes da pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” reparar que você parece um daqueles malucos estrábicos. Se a pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” não reparar que você parece maluco, o mais provável é você levar com o “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” dela. Qualquer uma destas tácticas é duma eficácia avassaladora, mas há que chamar a atenção para o facto de não deverem ser usadas em simultâneo, visto que é óbvia a perigosidade de manobrar o fecho-éclair tendo-se o olhar centrado no próprio nariz. Desde que soube que tinha a faculdade de identificar a pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” à distância e aplicar subsequentemente uma destas tácticas de defesa, apenas por uma vez fui derrotado por uma pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” e tive que a deixar passar à minha frente para perguntar só uma coisa. Mas há que salientar que essa pessoa ““olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?”, quase no preciso momento em que a identifiquei como uma pessoa “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?”, se assoou à Futre (ver Nota Bene), eventualidade que me desconcentrou por completo e impediu a aplicação de uma das duas excelsas tácticas de defesa que tornei aqui públicas. Pessoas que se assoam à Futre são invencíveis nestas coisas dos conflitos sociais.

 

N.B.: Assoar-se à Paulo Futre é um movimento desenvolvido pelo ex-internacional português com o mesmo nome. Criado algures no encontro Portugal x Escócia de qualificação para o campeonato do mundo de 1994, este movimento exige, como condição prévia, um acumulação substancial de mucosidades nas fossas nasais, o vulgo “nariz muito entupido”. Satisfeita essa condição, a pessoa assoar-se-á à Paulo Futre, tapando uma das narinas com o dedo e fazendo uma força tremenda, tentando fazer passar ar pela narina livre (se tiver o nariz demasiado entupido e fizer muita força, poderá morrer devido a veias na cabeça explodirem). Se tudo correu bem, o indivíduo terá agora um longo fio de mucosidade pendurada, desde o nariz até ao solo, sendo que, para a fazer cair, não poderá usar as próprias mãos, camisola, ou o que for, mas, isso sim, recorrer-se apenas da locomoção; i.e., correr até que o longo fio de mucosidade caia naturalmente. Paulo Futre conseguia que tal sucedesse em duas ou três passadas, em corrida ligeira, mas acredita-se que o cidadão normal já o consiga fazer em cerca de sete, oito passadas. As condições climatéricas ideais são, evidentemente, ventos fortes e contrários. Como é ainda mais evidente, Paulo Futre não precisa de condições climatéricas ideais.




Comentários:
De ZOT a 31 de Março de 2008 às 09:44
Então e se responderes às pessoas “olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?”, que tu proprio também estas na fila para perguntares uma coisa, e por isso não podes deixar alguém que chegou à fila depois de ti para o mesmo efeito, passar à tua frente?

Ou então da uns saltinhos e diz que não pode ser porque estas à rasca para mijar e não sabes se irias aguentar mais atrasos na espera.

Esse assunto das assoadelas à Futre também me faz confusão. As assoadelas e as cuspidelas permanentes de todos os jogadores, para o relvado no qual vão cair e esfregar a cara em suposta agonia, segundos depois.
Se cada jogador, e arbitros, cospem em média uma vez por minuto, durante um jogo de futebol, no fim do jogo devem estar litros de gosma espalhados pelo relvado. Portanto devia ser um sitio a evitar esfregar a cara. Imagine-se agora se se verificasse o mesmo fenomeno em desportos praticados em recintos desportivos cobertos?! teriam esses atletas que usar saptilhas com bicos, tipo os utilisados no atletismo?

Cumps


De pedro a 31 de Março de 2008 às 14:02
Como o amigo ZOT deve calcular, é deveras importante que s'evite qualquer tipo de interacção oral (e, como se terá percebido, visual - em termos decentes, pelo menos) com uma pessoa "olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?".

Essa gente é do piorio, garanto-lhe eu.


De Cactus Jack a 31 de Março de 2008 às 12:12
Permita-me a errata, mas o movimento que Paulo Jorge dos Santos Futre popularizou na década de noventa tinha, na sua intróita génese, um outro nome maior do futebol nacional, Abdel Ghany, médio egipício, que no final da década de oitenta militava nesse (quase) histórico clube SC Beira-Mar e que, em conjunto com Dinis "O Sandokan da Ria de Aveiro" popularizou, ainda e não obstante, aquilo a que Gabriel "A Enciclopédia" Alves viria a descrever como a sandwich humana no célebre Beira-Mar - V.Setubal de 1989/1990 que terminou com a vitória dos da casa e com a participação criminal dos 2 elementos aveirenses supra citados na 7ª esquadra de Aveiro por parte dos cerca de 400 adeptos e/ou medricas forasteiros...
(in www.laquadrilha.blogspot.com)


De pedro a 31 de Março de 2008 às 14:06
Continuo a achar que foi o Futre. Algures na China, também um gajo inventou não sei quê e, no entanto, agora toda a gente diz que o primeiro foi aquele americano das barbas e monóculo.

Além de que eu sou mais do tempo em que a dupla de centrais do Beira-Mar era Dinis-Eliseu. Sei quem é o Abdel Ghany e não o vejo como indivíduo capaz do assoar-se à Paulo Futre.


De Nuno a 5 de Abril de 2008 às 03:45
O gajo do monopólio?


De Moyle a 31 de Março de 2008 às 20:56
eu, como tenho, normalmente, entre 20/30cm de altura a mais que a maioria das pessoas, faço de conta que não as estou a ver, limitando-me a fitar o horizonte.

por outro lado, fico a ver a filas d elonge e só me junto a elas em 2 situações:
- ou está na hora de encerramento do serviço;
- ou já não está ninguém na fila;
e sim, já voltei em dia posterior.

mesmo com umas calças de fato de treino, embora a eficácia, além da espectacularidade, fique a perder bastante para a estratégia apurada no post em epígrafe, seria brincar com o fio que serve de cinto - à falta de melhor expressão adjectiva - ou, ainda, experimentar em pública as propriedades de elasticidade do... elástico das mesmas calças - este talvez se aproxime em eficácia mas nunca em espectacularidade.


De tiagugrilu a 2 de Abril de 2008 às 14:54
Eu sou um "olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?”, mas apenas quando é MESMO só para perguntar um "olhe desculpe, onde é que é o WC". Nunca noutras situações.

Mas deixo já aqui o aviso: um "olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” que é "olhe, desculpe, posso passar à sua frente, que vou só perguntar uma coisa?” , não se deixa intimidar com malucos, aliás, nem olha para as pessoas na fila e dirige-se directamente ao tipo que está a atender. Assim, sugiro a rasteira à Petit para um efeito garantido.


De Susana Romana a 3 de Abril de 2008 às 12:15
Uma rasteira à Petit é melhor não, porque o Petit é feio...


De Joana, uma insana a 7 de Abril de 2008 às 03:55
Apesar de não ser propriamente fã da pessoa que seguidamente referirei, sinto-me na obrigação de rectificar um pequeno pormenor deste extremamente importante post, que é a afirmação da não-existência de Estrábicos com níveis de educação superiores à licenciatura.
Ainda que seja numa área não propriamente difícil de se obter um licenciatura e prosteriormente um mestrado e doutoramento, o nosso famoso cientista social Boaventura Sousa Santos tem uma licenciatura em Sociologia.
E ele é bem estrábico, que eu para além de me ter assustado quando ele se dirigiu a mim pela primeira vez numa aula, ainda fiquei na dúvida se de facto era comigo que ele estava a falar, ou com a colega que estava no outro lado da sala.

Um pequeno aparte, eu sou uma pessoa que quando de facto so quer perguntar alguma coisa, me limito a dizer "com licença" e dirigir-me ao guiché ou balcão em questão, mesmo que esteja alguém a ser atendido.
Mas é óbvio que sendo menina e não totalmente abandonada pelo deus da aparência, ponho o meu melhor e mais aberto sorriso na cara e desarmo qq um (pelo menos nunca tive grandes reclamações, até pq de facto eu vou só mesmo perguntar qq coisa e se necessário, volto para o fim da fila!)


De pedro a 7 de Abril de 2008 às 14:21
Joana, confirmo tudo o que disse, adiantando apenas que esse Uma Aventura Almeida Santos é a excepção que confirma a regra e o [inserir asneira].


De Nelson a 12 de Abril de 2008 às 02:22
Ah, mas eu até conheço estrábicos com doutoramentos em bioqúímica e coisas complicadas assim. Não é só nas ciências sociais (que, há quem diga, é um oxímoro)


De Nelson a 12 de Abril de 2008 às 02:23
Olha, que giro, escrevi bioquímica com acento em vogais consecutivas. Dá pontos?


De L.M. a 25 de Abril de 2008 às 16:43
So para avisar que o seu blog tem a honra de constar d':As Sugestões de Leitura do Três Vezes Nove Vinte-Sete.


De ZOT a 8 de Maio de 2008 às 00:00
Isto só tinha honra se houvesse seguimento, mas como o dono já não liga peva a esta merda...!


De Bruno a 15 de Maio de 2008 às 20:57
Sim, ainda sou do tempo em que se tinha mais do que um post por mês...


De Marco Lopes a 30 de Maio de 2008 às 20:16
Epá, não me digas que abandonaste o "Olhe que não"! Que grande perda para os leitores...


De linfomaescrota a 3 de Junho de 2008 às 15:40
WWW.MOTORATASDEMARTE.BLOGSPOT.COM


WWW.MOTORATASDEMARTE.BLOGSPOT.COM


Comentar post

arquivos e isso
coisas menos coiso
digam que vão de minha parte
 Para deixar recado e assim
  • olhequenao@hotmail.com