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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

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Destruidor de Mitos - O Milagre de Fátima

pedro, 14.12.05
Um dos mais propalados mitos, envolvendo o nome de Portugal, é o dos pastorinhos e Nossa Senhora de Fátima. Começo já por avisar que sempre confundi, e confundirei, os nomes dos três pastorinhos com os dos reis magos. Depois, como se não bastasse, ainda confundo os nomes dos três pastorinhos entre si, nunca tendo bem a certeza se havia um Francisco ou uma Francisca, um Jacinto ou uma Jacinta, se eram dois rapazes e uma rapariga, ou vice-versa, enfim, matéria para me deixar em acentuada reflexão, e catatónico, durante largos minutos. Também confundo o Abel e o Caim com o David e o Golias, e raramente sei quem matou quem. O que sempre soube é que um dos pastorinhos era a irmã Lúcia, e que foi à volta das suas visões que se ergueu o mito de Fátima. À pala das suas visões, Lúcia tornou Fátima na Las Vegas da religião e, muito provavelmente, vai conseguir sacar uma canonização. Para todos aqueles que querem ser santos – para ter estátuas construídas à sua imagem, pessoas a pedirem-lhe coisas ou um feriado em sua honra em que as pessoas na véspera enchem a mula de sardinhas –, não desanimem, até porque, afinal de contas, não é assim tão complicado como isso. E a história de vida da irmã Lúcia prova-o. Atentai em algumas das avarias que lhe vão garantir um lugar cativo na tribuna de honra do céu.

Avaria 1 – Há quase 90 anos, Lúcia viu Nossa Senhora de Fátima em cima de uma azinheira. Longe de mim ser especialista em milagres, mas, logo para começar, parece-me que Nossa Senhora aparecer em cima de uma azinheira é pouco credível. Imaginem que eram uma entidade divina e tinha uma infinidade de poderes à vossa disposição (multiplicar pães, curar doentes, dividir oceanos, fazer as estátuas em vossa homenagem chorar sangue ou cera, mandar trovoadas, entre outras coisas porreiras). Pá, subir a uma azinheira é muito pouco divino, parece-me. Eu consigo subir a uma azinheira com relativa facilidade e ser visto. E depois há para aí tanta árvore com um ar mais divinal que uma azinheira. Uma acácia, um pinheiro-de-alepo, uma bétula, por exemplo, e só para citar alguns nomes. Não faz sentido uma divindade como Nossa Senhora subir a azinheiras. É como se o Super-Homem passasse multas de trânsito em vez de derrotar vilões que ameaçam destruir o mundo. Portanto, logo aqui, ficamos a saber que a coerência e excepcionalidade do acontecimento que nos pode tornar santos não são critérios decisivos e profundamente investigados.

Avaria 2 – A irmã Lúcia andava sempre com a mesma roupa. Mas isso também o Einstein andava. E a única coisa que a irmã Lúcia fez foi ver algo que até lhe apareceu à frente. Que eu saiba, a teoria da relatividade não se limitou a aparecer à frente do Einstein e, mesmo assim, ele não teve direito a dia de luto nacional na Alemanha, muito menos se fala na hipótese de canonização do cabeçudo.

Avaria 3 – E, por amor de Deus, que segredos são aqueles? Mais coisa, menos coisa, a Rússia tinha, obrigatoriamente, que se deixar de comunismos e socialismos, e passar mas é a adorar o catolicismo, senão o mundo acabava. Ora bem, vamos supor que sim, que Deus achava mesmo que o comunismo seria o princípio do fim do mundo e que a União Soviética, como porta-estandarte da ideologia, tinha que mudar de política para salvar a humanidade. Então, faz sentido que Deus decidisse avisar o mundo do perigo que corríamos e, para fazê-lo, havia que escolher um sítio específico para tornar público esse aviso. O que eu gostava de saber é em que momento da conversa de Deus com os seus conselheiros é que se decidiu que o sítio ideal para avisar o mundo que o fim poderia estar perto era mesmo a Cova da Iria. Melhor ainda: uma azinheira na Cova da Iria. Realmente, de uma azinheira na Cova da Iria ao Kremlin é um instantinho.

Um dos outros segredos seria a visão do Inferno, isto é, a prova de que o Inferno existia mesmo. Nunca duvidei disso. Mas sempre pensei que fosse um sítio onde as almas condenadas tivessem que assistir, para toda a eternidade, ao último episódio de um qualquer novela do Tozé Martinho. Talvez a “Roseira Brava” ou a “Olhos d’água”. Afinal, parece que é mesmo aquilo das chamas e de um senhor corado com uma forquilha. Tudo bem, não contesto. Mas sempre pensei que houvesse mais imaginação e que não se limitassem a seguir estereótipos.

O último segredo seria, com muito boa vontade interpretativa, o atentado ao Papa. Uma das coisas mais lixada do mundo moderno é a pouca pachorra para pessoas que dizem “pois, já sabia” depois das coisas acontecerem. É um bocadinho como aqueles concorrentes d’O Cofre que dizem “Ah, claro, bloqueei, mas sabia. Isto aqui é mais difícil que em casa” e ainda se riem com sobranceria. É triste.

Como se pôde, então, ir constatando, ser santo não exige nada de absolutamente extraordinário, muito menos uma assombrosa imaginação ou um afinadíssimo sentido de coerência. É que, de entre tudo o que se disse sobre a irmã Lúcia, a única coisa que, afinal, bate completamente certo, é credível e irrefutável, é a parte de ter sido uma outra mulher que lhe apareceu para contar segredos. Todos sabemos que faz perfeito sentido uma mulher fazer tudo e mais alguma coisa - neste caso, descer dos céus, ter a chatice de vir à terra -, só para calhandrar com outra.

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