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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Sou lá agora

pedro, 17.04.07











E o que eu aprecio aquela coisa do “não me arrependo daquilo que fiz, mas sim daquilo que não fiz”? Assaz, concedo. Cada vez que oiço isto, e o interlocutor está ali à mão de semear, não lhes consigo deixar de dar razão e arrependo-me logo de algo que não fiz. No caso, enfiar-lhe um murro nas costelas antes que a azémola conseguisse terminar a aludida frase. É minha convicção que, num mundo perfeito, não haveria frio quando eu saio de casa mal agasalhado apesar da minha mãe me ter dito que o tempo ainda ia arrefecer e depois eu ter que andar a ouvir “eu não te avisei para levares casaco?” por cada espirro que der nas próximas semanas, nem existiriam crianças com fome, nem eu teria que perseguir pessoas durante quase cem quilómetros para as confrontar com o facto de não me terem levantado a mão em sinal de agradecimento quando as deixei entrar ali no cruzamento há coisa duma hora, nem surgiriam guerras e isso, nem passariam cegos a pedir quando eu estou no meio do corredor do metro cheio de malas e não tenho para onde me desviar, nem doenças, e, por último, embora de não somenos importância, a tal frase relativa ao arrependimento jamais seria findada em toda a sua estribilhice, sendo, isso sim, sempre paralisada por um murro nas costelas ou algo de natureza afim. Não é que não tenha arrependimentos. Tenho. Um ou outro. O maior remete para a minha infanto-adolescência. Porque era nessa altura que eu gostava de ter visto um certo fenómeno que, por uma razão ou por outra qualquer, nunca se cruzou comigo. Refiro-me ao, nunca de mais louvado se levarmos em linha de conta que se trata de um espectáculo visualmente estimulante, ataque epiléptico. Alturas houve em que eu fiz do visionamento de um ataque epiléptico um objectivo de vida. Tudo começou na 3ª classe. O João Ricardo teve um ataque epiléptico no recreio. E eu não vi. Tinha ido ver as bombas de Carnaval que o Marco André tinha comprado a um gajo da 4ª classe que já tinha sido cigano. Não vi, mas fascinaram-me as descrições do ataque epiléptico. Pelo que me contaram na altura, tratava-se assim de uma manifestação corporal que ia beber influências a actividades muito diversas, com coisas como descargas eléctricas duma brutalidade parva e exorcismos logo ali à cabeça. E eu não tinha visto. Desde esse dia, e até passar para o ciclo, acompanhei sempre o João Ricardo. Queria estar por perto quando o sacana tivesse um ataque epiléptico. Mas nada. Ano e meio de marcação cerrada e nem um espasmo mínimo aquele ingrato me foi capaz de dar. Nem um soluço. Com o passar do tempo, este desejo premente de ver um ataque epiléptico foi esmorecendo. Até que, algures no 6º ano de escolaridade, eu oiço a mãe do Hugo Filipe comentar com a directora de turma que ele era epiléptico e que até tomava uns comprimidos. Eu sei ver oportunidades de ouro, sobretudo quando elas me caem aos pés. Fiquei amigo do Hugo Filipe. Mas, antes disso, fiz os trabalhos de casa. Sim, não iria mais adoptar a postura passiva com que brindara o João Ricardo uns anos antes. Informei-me sobre ataques epilépticos e, em vez de esperar que um acaso juntasse o Hugo Filipe e uma qualquer manifestação epileptiforme, eu ia-me certificar que isso ia acontecer. Li que a forma mais comum de desencadear um ataque epiléptico passava por submeter o objecto da nossa experiência a súbitas mudanças na intensidade luminosa ou simples luzes que piscassem. No livro, falavam disto como se fosse uma coisa má, algo a evitar. Eles mencionavam isto mais num sentido de “cuidados a ter”. Enfim, que idiota, este pessoal que escreve livros. De maneira que levei o Hugo Filipe lá a casa. Meti-o a jogar Master System durante horas com as cores da televisão todas desfocadas, enquanto lhe tirava dezenas e dezenas de fotografias com flash. Nada. Levei-o a casa do meu tio que tinha uma parabólica grande e meti-o a ver canais codificados durante duas ou três tardes. Nada. Nada, a não ser um valente raspanete da minha tia que nos apanhou a ver, aliás, a ouvir, filmes pornográficos. Se bem me lembro dos gemidos, orientais, diria eu. Sei é que, por causa disso, a minha tia chegou a sugerir à minha mãe que me metesse num psicólogo porque “aquilo não era normal e que eu podia ficar paneleiro ou violador”. Está mais que visto que eu arriscava para ver um ataque epiléptico. Até o meti a ver o teledisco “Pump up the jam”, dos Technotronic. Caraças, aquilo até em cegos causa ataques epilépticos. Mas, no Hugo Filipe, nada. Aliás, lembro-me agora que cheguei a meter o gajo a fazer estas coisas todas ao mesmo tempo enquanto lhe apontava uma lanterna, que acendia e desligava a um ritmo altamente profissionalizado. Nada resultava. Mas o gajo lá acabou por ter um ataque epiléptico. A caminho de casa, contou-me a Ana Sofia. E mais: o gajo foi-se chibar à mãe que eu o submetia a todo aquele ambiente de clarões e luminescências. O ingrato da merda, hã? Joga Master system, vê parabólica, telediscos, etc. e isso, e ainda faz queixinhas. E, pronto, a mãe dele foi falar com a directora de turma, que, por sua vez, chamou a minha mãe, e, para resumir a coisa, digamos que o Hugo Filipe acabou por mudar de escola a meio do ano. Parece que ficou pior ou o raio que o parta. Se calhar foi ter ataques epilépticos todos os dias para outra escola. O cabrão. Aliás, o sacana.

P.S: Quase uma década mais tarde, lá vi um desses ataque. Não tão perto como eu idealizara em pequeno, mas deu para desenterrar esse antigo fascínio. Foi um velho. Ainda estava um bocado afastado do ancião epiléptico, porém, tivesse eu corrido, e seria seguramente o primeiro a chegar para observar de perto tão vibratório fenómeno. Mas, e porque fiquei à espera que alguém lá chegasse primeiro, já só apanhei uns segundos, penso que 34, de abanadura compulsiva e sobre-humana. Fiquei à espera por uma razão muito simples. Uma vez disseram-me que, se for preciso fazer respiração boca a boca a alguém, quem a faz é o primeiro indivíduo a chegar ao local. Eu sempre quis ver um ataque epiléptico, mas convenhamos que deixar um puto num ponto sem retorno, no que à epilepsia diz respeito, é uma coisa. Arriscar-me a dar beijos em velhos é outra cantiga. É outro patamar. Assim com’assim, aqueles 34 segundos de ataque epiléptico longínquo serviram para afagar a nostalgia. Foi um bocadinho como ter andado uma infância a querer ver o “Dartacão” e depois acabar por só ver aquilo quando já se é crescido. Faz o jeito, mas não deslumbra. Há coisas que só têm um efeito completo em determinada altura. E aquele urso do Hugo Filipe e da mãe dele tiraram-me isso.

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