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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

obladì, obladà

pedro, 30.11.07


Pelo tom, mas só por isso, já percebi que não se deve deixar as sapatilhas no quarto. Ainda assim, nunca consegui ter uma resposta, nem me refiro a resposta decente ou mediana, é resposta sequer, para a questão “o que é que as sapatilhas estão a fazer no quarto?”. Sei lá eu bem ou o caraças!, como dizia um indivíduo que eu conheci em tempos e cuja única ocupação parecia ser a de dar rodagem a uma Toyota Hiace grená ou amarelo [acho que só se faziam nestas cores], se bem que ele substituía o caraças por outra palavra que, facto invulgar, era, e é, ainda é, uma asneira das grandes. Portanto, como dizia, pelo tom, percebo que não é suposto as sapatilhas estarem no quarto, porque noto ali aborrecimento e não simples desconhecimento e interesse relativo a que raio fazem as sapatilhas no quarto. Não se trata de metafisicamente questionar a acção das sapatilhas naquela zona da casa em concreto, é aborrecimento puro e simples. Nunca ouvi “o que é que as sapatilhas estão a fazer na despensa?”, mas, se ouvir, também não sei responder. Há perguntas que eu nem sabia que existiam, quanto mais que pode haver respostas para elas. Outro bom exemplo é o “como é que regaste as plantas?”. Ainda em termos de perguntas, convém lembrar que há dias me ligaram a perguntar se queria ganhar uma viagem para duas pessoas e, logo depois de ouvir isto, disse “quero pois” e perguntei “mas dá para ir só eu para ir à larga no avião, deitado ou assim?”. A pessoa disse que eu é que sabia, se queria ir sozinho ou acompanhado. Eu disse que não m’importa isso, importa-me é se posso ir deitado, assim de lado, no avião. Se ganho a viagem para dois, e vou só eu, é justo que o lugar do lado seja meu também e eu possa ir deitado, de preferência para a minha esquerda que é desse ouvido que ainda não me saiu alguma água do mar que lá entrou neste último Verão. Esta moça que telefona para casa dos cidadãos a perguntar se querem ganhar uma viagem para duas pessoas começou a dizer que não tinha a certeza, que isso ter-se-ia (óbvio que ela não usou este tempo verbal – usou um teria-se - impossível de catalogar, embora eu saiba que é um condicional, etc., qualquer coisa) que ver com a companhia área. Antes que ela pudesse avançar com mais pormenores de livre vontade e de protocolo, perguntei se passavam uns filmes no avião e se dava para passarem o Fim-de-semana com o Morto, o primeiro, que eu só vi o dois e não sei como é que o morto morreu, o que me deixou bastante à nora no acompanhamento da sequela. Ou então um filme qualquer que tenha o Neil Diamond a cantar nos créditos finais, que há diversos. Ou um que tenha a sleeping in my car, dos Roxette, e lá lhe perguntei “sabe qual é”, tendo, acto contínuo, começado a cantar o refrão. Como só sei aquela parte do “sleeping my car, I will não sei quê [nesta parte fiz um som parecido com belest you]”, repeti-a três vezes. A partir daqui ela começou a tentar falar por cima do que eu dizia e lá a ouvi por uns segundos. Diz que teria que me deslocar a um endereço e apanhar com uma reunião sobre, pareceu-me, aspiradores, mas é possível que fosse um coiso de limpar alcatifas só com o vapor. Interrompia-a logo aos gritos, com a seguinte argumentação: “mas isto são horas de telefonar para casa das pessoas?, não sabe que eu sou guarda-nocturno e que ligar a estas horas é como ligar para casa dum professor primário às quatro da manhã?, “como deve calcular, meio-dia são quatro e meia da manhã no meu fuso horário!”, “têm esse hábito por aí, de ligar para casa de professores primários às quatro da manhã?”. Entretanto, a chamada caiu, mas este tipo de dinâmica, cem por cento verídica, ocorre sempre caso perguntem, ao telefone, por um qualquer nome que não seja o meu. Verifica-se que não tenho coragem de dizer estas coisas em meu nome. Motivo de assinalável orgulho é o seguinte facto: aqui há coisa de aquando daquilo do Rei de Espanha ter perguntado ao Hugo Chávez porque é que ele não se calava, eu convenci um meu conhecido da inteira factualidade da seguinte parvoíce: o Rei de Espanha tinha mandado calar o Hugo Chavéz porque ele, Hugo, tinha jogado no Real Madrid nos anos oitenta e marcava muitos golos de pontapé de bicicleta, tendo o Rei de Espanha ficado melindrado com ele, Hugo, devido ao seguinte facto: Chavéz tinha, no auge da sua carreira, alegado ordenados em atraso para rescindir contrato com o Real de Madrid, o clube do coração do Rei, para assinar com o seguinte clube: o Chivas de Guadalajara, do México, acontecimento que debilitou consideravelmente o clube do Rei, levando a que perdesse o campeonato na última jornada para um clube rival: o Atlético de Madrid, ou: a Real Sociedad. Daí que, ainda lixado com isso, o Rei se tenha enervado e mandado calar o Hugo Chávez. A princípio, o meu conhecido mostrou-se descrente, mas eu logo recorri a truque infalível. Gritei para um indivíduo que estava lá mais além “olha lá, o Hugo Chávez não jogou no Real Madrid?” e, crente que estava que, no calor da pressão, muita gente confunde os apelidos Chávez com Sánchez, lá obtive resposta amplamente positiva, através dum “jogou” acompanhado dum positivo abanar de cabeça. Depois eu queria era estar presente quando as pessoas que eu convenço destas coisas passam a informação a outras, lá no emprego, mas tenho que me contentar com o imaginar. O que mais me lixa nisto tudo de mandar calar pessoas é o facto de ninguém acreditar que uma vez mandei calar o Freitas do Amaral. Fiz-lhe um shhtta! no cinema, ali no Monumental, que ele ria-se de coisas sem piada e tinha um daqueles risos de pessoa que tem a mania só porque lê livros. Quem conhecer o Freitas sabe que isto é verdade, que ele se ri assim e se ri em cenas em que não faz sentido rir, um daqueles risos de “ah, ninguém se vai rir nesta cena, mas vou-me rir eu, que assim passo por indivíduo culturalmente evoluído”, mas não, a verdade é que passa por parvo, que eu bem sei quando é que é suposto achar piada a coisas no cinema; logo, ora bem, quem conhece o Freitas, acredita em mim e sabe que isto aconteceu mesmo. Agradece-se, então, que, via carta registada, alguém que conheça o Freitas me faça chegar declaração a validar a autenticidade deste meu shhtta! no sentido de ocorrerem uma diversidade considerável de acontecimentos, todos eles facilmente enquadráveis nessa bela arte do meter-nojo.

emozione dopo emozione

pedro, 28.11.07


Nunca esquecendo que vivemos num mundo em que não passa um minuto sem que alguém canzane [terceira pessoa do singular do presente do conjuntivo do verbo canzanar] um animal de quinta, eu, pelo sim, pelo não, quando um indivíduo me pergunta se pode usar a minha casa de banho, e porque esta questão se apresenta estruturalmente como bastante ambígua, contraponho sempre um “para quê?”. Não estou para dizer apenas “claro, claro, é ali à direita” e passado um bocado aparecer um marmanjo de barba feita e banho tomado, a usar o meu robe preferido, quando tinha eu ficado a pensar que o usufruto do quarto de banho fosse apenas no sentido de mictar ou usar o espelho para ver se tinha alguma coisa nos dentes. Ressalve-se que, como bónus, depois do “para quê?”, pouca gente perdura na demonstração de vontade em recorrer à minha casa de banho, o que será sempre de salutar. Até porque há dois cafés ao pé de minha casa, ambos com WC, e os quais eu não tenho que limpar. A primeira parte desta última oração é o facto que refiro quando as pessoas, apesar do “para quê?”, especificam e continuam a querer usar a minha casa de banho. Daí que, de tempos a tempos, num desses cafés, lá ouça uns “é você que encaminha pessoas para usarem aqui a casa de banho, não é?”, todavia, como só lá vou ler o jornal, não corro o risco de me cuspirem na bica.

cose della vita

pedro, 26.11.07


Dica complementar e prática: como apanhar grilos ou isso



Opção primeira: Apodere-se de uma palhinha de extensão razoável e, após a inserção da dita na casa do grilo [vulgo, buraco – obviamente, caralho, que se dispensam todo e qualquer vulgarismo analógico], vá rolando entre dedos, fazendo cócegas ao insecto ortóptero aqui objecto da sua caçada, até que este venha cá para fora. Se ficou confuso, lembre-se: insecto ortóptero é o grilo [li muitos dicionários quando tive papeira, varicela e aquela outra coisa que se deve apanhar em puto porque quando se é grande faz mal e morremos].

 

Vantagem da opção primeira: além do grilo sair bem-disposto e a gargalhar, esta opção tem o seu quê de poético, infanto-nostálgico e demais diversas paneleirices tão do agrado de poetas, infanto-nostálgicos e demais diversos paneleiros.

 

Desvantagem da opção primeira: Pode ocorrer o grilo não ter cócegas ou ter tido um compromisso fora. Mas, mais importante que isso, esta opção não nos dá uma desculpa para mijarmos para um buraco [vulgo, casa] onde mora um grilo.

 

Opção segunda: Urine para a casa [que é vulgo quê? exacto, buraco] do grilo, até que o referido animal saia a boiar num transbordo de líquido urinoso. Se correr bem, o grilo sairá em posição ‘escorrega de aquaparque’. Será muito divertido.

 

Vantagem da opção segunda: É para lá d’óbvia: esta opção estrutura uma desculpa para mijarmos para um buraco onde mora um grilo, acontecimento que é sempre de louvar, seja em que latitude for.

 

Desvantagem da opção segunda: Além de, muito possivelmente, ficar com um grilo que cheirar a urina – o que pode depois levar a que se coloquem questões da índole de uma “este grilo até canta bem, mas cheira a mijo” –, trata-se de uma opção que, embora esteja longe de ser exclusiva, surge-nos claramente optimizada para o género masculino, dado possuirmos a faculdade da pontaria. Para ambos os sexos, podem-se apontar, como pontos menos positivos, o facto de nem sempre se ter vontade de mijar e às vezes a casa [vulgo nada, já chega] do grilo ser, afinal, o lar duma cobra ou etc.

non c'è più fantasia

pedro, 23.11.07


O capitalismo, a exemplo de variadíssimos outros ismo [autoclismo, cinismo, feudalismo, metabolismo, sabujismo, catecismo, etc., serão porventura exemplos capazes] é fenómeno que se apresenta perante mim sem segredos de qualquer espécie. Conheço-lhe as manhas todas, e, não fosse a ocorrência de o Marx falar alemão e já ter morrido – sobretudo isto –, eu era cachopo para ser um dos seus melhores amigos, ou inclusive até substituir o seu fiel companheiro, Engels, em eventos sociais ou o que fosse, quando este estivesse constipado ou simplesmente a chocar alguma, que ninguém é imune a aragens e correntes de ar. Assim com’assim, o que importa reter é a circunstância de este regime económico, precavendo-se contra a sua anunciada queda, tentar, frequente e sub-repticiamente, inundar-nos a mente com mensagens sobre as suas supostas mais-valias relativamente a outros sistemas. Estes recados estão por todo o lado, sem excepção do frasco de gel de banho a que recorri hoje. Sou, como seria expectável, indivíduo sem preferência na área dos géis de banho, uma vez que utilizo sempre o que estiver ali nos arrabaldes da banheira. Decorrente desta preferência, surge-nos o facto de nunca ter comprado, então, um frasco de gel de banho. O mesmo princípio s’aplicaria a lasanhas congeladas se, por obra e graça de sabe-se lá quem, o frigorífico, mormente a sua zona da congelação, tivesse lá sempre um exemplar de lasanha. Como tal nunca se verificou, vejo-me na obrigação fisiológica e social de comprar lasanhas congeladas com assiduidade. Géis de banho é que nunca foi necessário. Está lá sempre pelo menos um frasco e, na única vez em que não esteve, optei por gastar mais champô, espalhando-o corporalmente; logo eu, que sou um acérrimo partidário de espuma com fartura. Ora, o que sucedeu foi que o capitalismo, através dum gel de banho de marca Fa, quis-me convencer, como é de resto seu apanágio, que eu estaria a ter acesso a um produto fantástico, repleto de substâncias raras e reguladas com tecnologia de ponta, tudo isto a um preço que, enfim, no máximo dos máximos, não meteria nojo por aí além [informei-me a posteriori e percebi que custou seiscentos e cinquenta paus]. Este gel de banho Fa, como, presumivelmente, todos os géis de banho Fa, tinha um sabor. Ou cheiro, como se preferir. Este gel de banho Fa tinha como subtítulo, o mesmo é dizer, tinha como binómio sabor/cheiro, a torresmada “Limões do Caribe”. Não nego que andei o dia inteiro a cheirar a limão, tendo mesmo auscultado um par de vezes a frase “ai, cheira aqui mesmo a limão”. Era eu, que tresandei a limão todo santo dia, cara senhora. Bebi, como de costume, dois absintos ainda não era meio-dia e até isso me soube a limão, sendo que isto se calhar se verifica mais porque eu uso muito gel de banho na zona que medeia o nariz e o lábio superior, no sentido de, desse modo incrível, me cheirar sempre muito bem em todo o lado. É verdade que m’estraga quase todas as refeições, porque todos os pratos me sabem ao gel de banho que usei, tirando daquela vez que usei champô e me soube a champô [mel e amêndoas, parece-me, o que não foi mau de todo, uma vez que gosto de mel e amêndoas], mas lá acaba por ser um acto de inegáveis contrapartidas. Nomeadamente, o conseguir-se urinar num canto do Bairro Alto sem nos cheirar a mijaceira, ainda por cima alheia. É, digamos, factor de que não me vejo a abdicar tão cedo. Assim, a minha individualidade, e até naqueles sítios onde o cheiro a mijonça é tão intenso que atira com pessoas ao chão e provoca desmaios colectivos, só processa fragrâncias cheirosas que, ainda por cima, sei que deixam a pele macia e hidratada. Presentemente, não sei de que porra estava a falar, de tal maneira que irei ali mais atrás ler do que se tratava. O gel de banho Fa “Limões do Caribe” enquanto ardil do capitalismo, exactamente. E ardil em que medida, sentido e mais um outro sinónimo disto, se houver? Vou elucidar, quanto mais não seja porque o que não falta aqui deste lado é tempo e vontade de ajudar a desmascarar e desmistificar. Que pessoa é que, no seu perfeito juízo, não iria apoiar um sistema que, por uns meros seiscentos e cinquenta paus [três euros e picos ao câmbio actual e de sempre], lhe garante andar uns poucos de dias [um mês, se misturarmos água ao gel de banho quando já houver pouco, naquela altura em que até temos de deixar o frasco virado ao contrário para depois quando formos tomar banho não termos que estar à espera que o gel de banho propriamente dito nos chegue à mão] a cheirar a limões do Caribe? Não é limões de, por exemplo, Benavente. É das Caraíbas! Isto é, o capitalismo, e a/o Fa em particular, querem-me convencer que, em vez de terem apanhado meia dúzia de exemplares do limoeiro ali ao pé da fábrica, foram de propósito às Caraíbas buscar limões para usar no meu gel de banho? Com certeza que sim. Razão tenho eu, e o Marx, embora por arrasto: o capitalismo emaranha-se de tal forma nos seus próprios equívocos que perde a cabeça e vai sufocando. E sufocará de vez, porque, ao invés de nos enganar com a léria que o gel de banho tinha limões de, quanto muito, Ayamonte, preferiu que fosse tudo à grande e, conseguintemente, [inserir sinónimo de fodeu-se, um que, de preferência, não seja brejeiro mas tenha força argumentativa semelhante].


Eurostat: foram usados cerca de trinta advérbios. Um novo recorde pessoal? Não se sabe, que nem estes contei, mas talvez.

un'altra te

pedro, 18.11.07

[sim, que até eu me fartar, os títulos serão apenas e só músicas do Eros Ramazzotti. Razão, que providencio igualmente apenas e só devido a estar bem-disposto: porque o chegar-se a casa de madrugada, ligar o televisor e apanhar um Top + de mil nove noventa e três, é coisa para resgatar a saudade dos tempos em que o Ramazzotti cantava e ficava tudo bem, o que, emocionalmente, pesa que se farta]




Uma coisa que o Iraque tem de bom é que as toilettes consistindo na parte de cima dum fato de treino de pele de pêssego e calças de fazenda, bem como a parte de baixo dum fato de treino de pele de pêssego e camisa, ainda não saíram de moda. A destacar, também, o facto de o acesso a bazucas estar extremamente facilitado. São, mormente esta última, características que aprecio num país. Em Portugal é impossível conseguir uma bazuca, o que não deixa de constituir uma desilusão. De mais a mais, e só para que conste, quem não achar que a melhor cantiga dos Blondie é a Atomic, merece uma doença de pele contagiosa que venha acompanhada de extremo prurido e seja motivada pela presença de um ácaro. Vulgo, sarna. A reter, também e finalmente, o facto de quem nunca acordou praticamente nu no tejadilho de um carro em Vendas Novas, tendo começado a beber naquele bar do Bairro Alto onde a mini era a oitenta cêntimos depois do Itália x Suécia do Euro, sabe lá o que é uma bebedeira. Sendo que, por praticamente nu, eu posso muito bem querer dizer ‘apenas com uma meia na pila’. Em que medida me chateiam aquelas pessoas que perguntam se tenho uma esferográfica em vez de perguntarem se tenho uma caneta? É muito. Diga-se ainda que todos os acontecimentos cujo aspecto realçado por grande parte dos intervenientes seja “é o convívio” são, em traços gerais, merdosos. O que também m’arrenega em conformidade.

 

don’t worry, kid, it’s me, Chuck Norris

pedro, 13.11.07


Gostaria de salientar avidamente a existência de demasiadas figuras de estilo que, prosódia e graficamente, se assemelham em demasia a doenças ou, por outra, a procedimentos medico-cirúrgicos. A destacar, desta panóplia, o quiasmo, a epanadiplose, a paranomásia, o poliptoto, a sínquise, a apofonia, a batologia, a perissologia, o epitocrasmo, a enargia, a tapinose, o hipocorismo, a cominação, o diasirme, a contrafisão, o ceuasmo [também comummente identificado como autocategorema ou prospolese], a retroacção [ou epanartose] e a gonorreia. Por seu turno, da mesma forma que aspegic podia ser um central sérvio, pariponoïan tem nome de medicamento e, em princípio, o i tem mesmo que alombar com aquele trema, o que não deixa de ser curioso. Merecedor de saliência, ainda mais dois factos: a) contam-se pelos dedos de uma mão [não todos, talvez nem dois quintos] os vocábulos que, até prova em público, me considero capaz de pronunciar correcta e não-parecendo-atrasado-mentalmente; e b) está ali uma rasteira, na medida em que uma das figuras de estilo é, na realidade, apenas uma doença. Alvíssaras, na forma de uma carícia heterossexual, para quem a identificar.    

idade de consentimento

pedro, 09.11.07


Esperar, a arte que muitos com um tipo bastante específico de vesânia definem como ‘aguardar’ [nota do autor: denote-se o facto de andar desertinho para usar vesânia numa conversa e, derivado de ainda não ter conseguido tamanho feito – e decorrente de não saber como se articula, oralmente, a palavra -, não resisti e tive mesmo que espetar com a vesânia na primeira linha disto, sem me preocupar com sentidos, contextualizações ou o cacete alado], não é assim tão fastiento como isso. Procurar coisas é, de muito longe, pior. Se há para aí canalha que pensa que não é bem desta forma, que não é bem como eu enuncio, e que esperar pode, em determinadas circunstâncias, ser pior que procurar, deixem-me adiantar, antes que se formem mais ideias estupendamente camelares, e um tanto parvas, que estão iludidos, tão ou mais que qualquer pessoa que diga que uma mousse de chocolate com nozes é pior ou, no máximo, equivalente a uma mousse de chocolate sem nozes. Não é, mesmo que, no meio das nozes, vá um bocado de casca. De noz, que se for casca de batata, ou de tubérculos na sua generalidade, já levanta questões, designadamente de natureza deontológica, entre outras. As nozes, de que a mousse com nozes é exemplo supremo até eu achar que é outro, obedecem a uma dinâmica inversa àquela que rege as passas. Nozes é o tipo de coisa que melhora tudo onde é enfiado, ou, na pior das hipóteses, não piora; ao passo que as passas – repare-se como as figuras de estilo me saem sem eu ficar uma tarde inteira a pensar nelas, como fazia o Miguel Torga; quem não souber onde está uma figura de estilo, peça ajuda a um adulto – têm uma invulgar dificuldade que consiste, num sentido lato, na circunstância de nada, nadinha, ser melhor com passas. Peva, mas, culturalmente, insiste-se em passas com elevada constância. Nunca na história da humanidade, e o que mais para aí tenha havido antes da macacada e dos protozoários, há registo, real ou que eu tenha testemunhado num sonho, de alguém a dizer ‘isto até é bom, mas sabes o que falta aqui? Passas!’. Passas não fazem falta em nada e, para ainda se manterem em tanto quadrante da nossa sociedade alimentícia (é pavorosa a percentagem de bolachas que se deixam conspurcar por este fruto seco do diabo), só podem ter um potente grupo de pressão, o chamado lobby – que, já agora, é um nome que os cães chamados Bóbi confundem com o seu [facto comprovado de modo experencial por mim]. Porque, ò gentalha, é bom que se vão convencendo que tudo é produto de grupos de pressão. Em questões alimentares, então, isto é para lá de patente. Um exemplo, porque sei que há sempre cépticos em tudo. Quando eclodiu aquela suposta doença das vacas, cedo avistei o que aí vinha. O lobby da carne de porco (quem sabe, talvez também o da carne de galinha e esses pássaros) tinha inventado uma doença, contaminando, isso sim, a opinião pública com estes boatos maldosos, supostamente alicerçados em estudos científicos independentes. Nada mais adulterino. Estes estudos independentes só podem ter sido desenvolvidos por cientistas que, no cozido à portuguesa, preferem a carne de porco. Vai daí, e como não tinham nada a perder, porque continuavam a apreciar o cozido à portuguesa e sem ter que passar pela chatice de procurar os bocados de carne de porco entre os bocados de carne de vaca, toca a tentar lixar a carne deste último animal. A mim, em cenas, não me copulam, como se sabe. E, quando se anunciam essas supostas doenças – e este exemplo também serve para febres aftosas e aquelas constipações em pássaros –, o que há a registar, e com eminente agrado, é o facto de agora eu ir despender bem menos por um bife. Inclusive, no auge dos pássaros constipados, naquela altura em que bastava ver-se um chinês a espirrar na Mouraria para se instalar o alvoroço, larguei euro e vinte cinco por um frango assado. Não era meio frango, era um. Muito frango assado comi eu nessa altura. E eu sou o gajo mais porreiro de ser comer frango assado com. Porque sou acérrimo adepto do peito, deixando pernas (e outras bodegas, tipo asas, pescoços e rabo) para os outros. Dizem-me sempre ‘gostas do peito? O peito é tão seco’, mas eu gosto porque me calha sempre aquele bocadinho de plástico com o nome do aviário. O nome disto, de preferir o peito às pernas, é apenas um: altruísmo, sem tirar, nem pôr. Além do mais, gosto de manter os meus critérios estáveis, trate-se de preferências em termos de frango assado ou mulheres. Pois bem, quanto às passas, não há muito mais a dizer, e, reconhecida que está a incontestável existência dum forte grupo de pressão, nada mais há a fazer senão lutar. Comece-se por abalroar uma das bases mais consistentes das passas, aquela porcaria de comer as doze na passagem d’ano, uma por cada mês do ano. Ou badaladas. Ou apóstolos. Ou os patifes daquele filme. Não sei quem são os doze homenageados com essa ingestão de dúzia de passas, valha a verdade. Eu, desde a passagem d’ano noventa e seis para noventa e sete, como sempre é doze cajus e os anos têm-me corrido normalmente, com a vantagem de eu gostar de cajus e não me darem azia para o resto da noite. Se bem que, ainda ontem, recebi um carta electrónica, anónima, que dizia apenas “Estás a ver, meu cornúpeto, se comesses as doze passas, a bola batia na cabeça do Polga e ia para canto”. Só percebi que tinham enveredado pela ofensa depois de ir ver o que quer dizer cornúpeto, que até é daquelas coisas que passa por elogio. Independentemente disso, já entreguei o assunto às autoridades competentes, que, basicamente, sou eu, mas com um taco de bilhar afiado e dois amigos da chamada ciganagem hardcore. Entretanto, e em protesto para com a influência das passas e com o episódio da bola ter batido na cabeça do Polga e ter ido para a baliza, retiro-me para sempre destas lides até para a semana.

mais do qu'isto *

pedro, 01.11.07

palmas


Na pretérita semana, e como invariavelmente ocorre em qualquer série de sete dias consecutivos, tomei consciência que sou excepcionalmente bom em todavia mais uma outra cena. Precisamente as palmas, os aplausos, essa entidade que, não se tendo o cuidado e categoria essenciais, se transmuta quase sempre numa saloiada de primeira água. Já me sabia indivíduo que não oferta o seu aplauso por tudo e por nada. O critério é a base da civilização. Até nem é, mas imagine-se que sim. A banalização das palmas, dos aplausos, é dos piores fenómenos que a cultura de massa nos foi impingindo. O outro foram os Simply Red, a pior banda de todo o sempre, futuro, passado e presente - o tipo de conjunto musical que nos faz desejar que os Grammy, em vez daquele gramofone pequenino e dourado com uma base em madeira que aparenta ser da cara, fossem pontapés na cabeça, e que os Simply Red ganhassem sempre à vontade. Menos em anos bissextos, período em que ganhariam os Suede. Ora, por, digamos, consequência revoltosa, não faço aquela paspalhice de bater palmas ritmadas quando o Tello vai marcar um livre, frontal ou descaído para a meia direita. Agora já nem é o Tello, é aquele rapaz aborígene com um nome parecido com aquele outro rapaz do Manchester que parece, em exacta proporção, o Tony Soprano e o Shrek, mas o princípio conserva-se imaculado. Portanto, não é disso, de bater palmas à balda e sem critério, que o meu método aplaudente se pode e deve gabar. É, isso sim, o facto de, em todos os espectáculos a que assisti até hoje, ter sido sempre o último gajo a parar de bater palmas, quando, obviamente, considero termos estado perante um momento aplaudível. Mas é uma coisa marcada pela extrema classe, rítmica e o que mais houver de positivo. Não fico, feito parvo, a bater palmas. É um dom. Tanto é, que aquele último “clap”, mínimo, mas perceptível para quem está realmente atento, é sempre meu. Frise-se que é aspecto altamente valorizado em determinadas culturas, embora sejam, até ver, todas elas fictícias.


miami sound machine vs. no doubt


São dois agrupamentos musicais profundamente dispensáveis, mas que encerram em si nota digna de registo. Desde o dia (vou dizer um dia ao calha, mas terá sido algures nesta altura e no mínimo acerto na estação do ano) seis de Março que, e após um esforço prévio no sentido da conversa seguir esse fascinante rumo, consegui convencer exactamente uma dezena e meia de pessoas que a ex-vocalista dos No Doubt é a Gloria Estefan. Curiosamente, o contrário, isto é, que a Gwen Stefani é a ex-vocalista dos Miami Sound Machine, revelou-se bem mais complicado, tendo apenas quatro barra quinze das cobaias ficado convencido de que assim era. Convencido de que a Gloria Estefan era a ex-vocalista dos No Doubt e que a Gwen Stefani era a ex-vocalista dos Miami Sound Machine ficou apenas um indivíduo, mas ele tinha a gola da camisola demasiado babada, logo, em termos estatísticos, a sua opinião, ainda que por mim moldada, é residual, o mesmo é dizer, muito estúpida. A despeito dos nomes das raparigas, Gloria e Gwen, serem, a nível da fonética, até relativamente confundíveis, acho que toda a glória destes números deve ser associada somente à minha pessoa. Porque, em síntese, alcançá-los, aos resultados, é bem mais bicudo do que possa parecer.


bill paxton


É um actor. Não chateia, mas também ninguém molha as calças com os seus desempenhos no grande ecrã. Foi, e isto é que é merecedor de amplo destaque e nobilitação, o único actor a levar, letalmente, nas fuças dum Exterminador, dum Alien e dum Predador. Primeiro, como membro de um gang que se mete com o T-800 (naquela parte em que ele aparece nu e está com frio, até nem queria problemas, apenas um casaco ou agasalho de qualquer espécie), é empurrado contra um gradeamento e morre. Depois, como soldado Hudson, é puxado por um Alien através dum alçapão, quando estava a metralhar outros Aliens e a gritar o, habitual nestas coisas, “do you want some of this?” feito maluquinho. Finalmente, é todo escavacado por um Predador no metro de Los Angeles. Não foi bonito, que a circulação, não sei bem em que linha, chegou a ser interrompida. Cada vez que chego ao metro e dou de caras com aquele aviso do “por motivos alheios ao metro [ou lá o que é, não me lembro do que eles se consideram], encontra-se interrompida a circulação na linha [cor da linha que, por acaso, eu ia usar]”, lembro-me deste filme do Predador, que é o dois. Porque neste filme é que se mostra, com um realismo atroz, como é que “por motivos alheios ao metro”, a circulação pode ficar interrompida. O que quero deixar claro é: não me queiram copular sem eu dar aval, metro de Lisboa, porque não estou bem a ver que raio de motivos completamente alheios à vossa acção podem impedir a circulação. Há outra empresa a usar aqueles túneis ou as carruagens? Então, porra, a não ser que tenham um Predador a dar cabo dos comboios em andamento e, irresponsavelmente, a carregar naquele travão de emergência, não nos dêem a cantiga do “por motivos alheios”. Porque isso, um Predador a virar carruagens à procura do Bill Paxton, é que são motivos alheios. É só um exemplo, claro. Assim com’assim, o que importa reter, em termos deste actor, o Bill Paxton, é que fui a primeira pessoa a saber isto em Portugal. Uma espécie de António Variações, se se quiser (partindo-se do princípio que, por “morrer de sida”, consideramos aqui o “saber que o Bill Paxton foi o único actor do mundo a ser morto por um Exterminador, um Alien e um Predador”).



camión



Aos meus, não raras vezes inocentes, olhos, cada vez menos eventos se vão revelando como portadores do chamado factor surpresa, sobretudo na sua faceta mais pungente. Não significará isto que, alquando, tal não se vá verificando? Não sei, que, bem vistas as coisas, acho que não percebo a minha própria questão. Deve ser por causa da dupla-negação. Sei é que basta, por exemplo, haver um acidente de trânsito envolvendo veículos pesados aqui na zona para nos fazer descer à terra e ganharmos consciência que, em solo nacional, a percentagem de indivíduos – dos mais variados credos, etnias, faixas etárias e géneros – que ainda diz camión, referindo-se à viatura automóvel de largo porte que o léxico português identifica como camião, é absurdamente elevada. Havia um, e apenas um, parvo que disse caminhão, mas cheira-me que era brasileiro, quanto mais não seja porque era condignamente parecido com aquele sul-americano do Sporting que fez o passe para o Skuhravy mandar aquele remate à barra contra o Chaves em noventa e cinco. Eu já fui melhor com nomes, a verdade é essa. E o que mais m’inquieta, enquanto cidadão e membro activo de nada em especial, é que, sobre isto do camión, não existam indicadores da União Europeia. A julgar pelo universo que aquele acidente envolvendo um pesado aqui na minha zona se mostrou capaz de agregar, palpita-me que a percentagem de indivíduos que dizem camión é maior em Portugal que em França. Aproveito e deixo também, justamente nesta parte sobre camións, aquela que considero ter sido a frase do mês. O autor responde pelo nome de Hélder Cristóvão, é ex-futebolista de clubes tão diversos e odiáveis como o Benfica, etc., e ontem teve a seu cargo os comentários do encontro entre o Centro Desportivo de Fátima e uma equipa que tinha o Liedson e que me recuso a acreditar ser o Sporting Clube de Portugal. Embora tenha pautado os seus comentários pela coerência e espectacularidade, até em termos de timbre de voz (metia medo, basicamente), há, segundo a minha convicção, um raciocínio que teve materialização vocal e que merece amplo destaque. Ei-lo: “Com a equipa em vantagem, há que procurar o contra-ataque, e isso, o Fátima fazeo [nem sei como se escreverá esta coisa e admito ligeiramente que nem seja assim, mas foi isto que o Hélder Cristóvão disse e eu ouvi – e várias vezes, embora esta tirada sobre o contra-ataque enquanto arma preferencial das equipas em vantagem tenha sido a mais conseguida e contextualizada, daí o destaque aqui como “frase do mês”] muito bem”.  


* Pela primeira vez, desde há sabe Deus quanto tempo, título e fotos facilmente relacionáveis (mais ou menos) com o conteúdo e não apenas aqui para atrofiar as pessoas