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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

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Preguiça

pedro, 19.02.07










Assim em termos de características de carácter mais terreno, por oposição àquelas de natureza mais sobrenatural que formigam na minha mui humilde pessoa, diria que sou um tudo-nada calão. Embora se trate de um dos sete pecados capitais, acaba por não ser nada de muito notório e vê-se facilmente diluído no mar de qualidades que banha a minha personalidade. É unânime que a preguiça é um conceito sempre discutível. Por exemplo, há quem defenda que deixar o rolo de papel higiénico com uma amostra ínfima de papel é razão suficiente para não ter que o trocar. Eu sou, objectiva e declaradamente, apologista desta tese. Porquê? Simples. A regra social dita, apenas e só, que quem acabar o papel é obrigado a trocá-lo por um rolo novo. Só isto. Não refere quantidades de papel. Menciona apenas um momento: o fim do rolo. Fim é fim. É nada. Nicles. Zero. O vazio. Se há papel, mesmo que mínimo, não é fim. Há pessoas que não percebem isto. Não percebem que não cabe ao indivíduo decidir, a seu bel-prazer, a existência de uma quantidade mínima aceitável de papel para se não ter a obrigação moral de trocar o rolo. Deixar isto ao critério de qualquer um seria a barbárie. E ninguém deve pactuar com barbáries que gravitem à volta de rolos de papel higiénico. A regra é clara. Ainda em relação ao fenómeno que algumas entidades apelidam de “preguiça”, é verdade que já me aconteceu, e bem mais que uma vez, ter que apanhar umas boas horas de má televisão porque não tinha o comando à mão. O erro foi meu, claro. Sentar-me sem certificar que o comando ficara alcançável pelo braço, ou pé, é erro de principiante. Mas, de quando em vez, lá calha. E não há outro remédio se não aguentar até que alguém venha e eu possa, finalmente, dizer “porra, ainda bem que chegaste! Passa-me o comando ou muda-me aí de canal.”. Se, quem entrou, inquirir, incrédulo, há quanto tempo estava eu à espera, digo “há pouquinho, há pouquinho. Ia-me levantar mesmo agora, mas ouvi-te chegar…”. É mentira, claro, mas já percebi que há para aí muito boa gente que gosta de atirar logo com a expressão “preguiçoso da merda” à mais pequenina coisa. E eu não estou para ser metralhado com ofensas gratuitas só por causa dos meus credos. Já agora, é bom que se diga que, bem pior que não ter o comando à mão, é aquela situação em que pegamos nesse genial utensílio, sentamo-nos e, quando tentamos ligar a TV, percebemos que alguém desligou a porcaria da caixa que mudou o mundo no botão. Isto não se faz a ninguém. Já há muito que devia ser uma alínea na Declaração Universal dos Direitos Humanos: a televisão é para deixar no stand-by! Não vá um indivíduo fazer tudo bem – ou seja, sentar-se munido do comando, sem mácula, sem erros de principiante, confiante –, e depois, desprovido de qualquer partícula de culpa, ver-se obrigado a sofrer daquela forma. Poucas sensações serão piores que a de carregar num comando à distância e perceber que a televisão está desligada no botão. Mas, vá lá, isto acontece-me muito excepcionalmente. A outra hipótese é mais recorrente. Lembro-me que, à espera que alguém viesse para me passar o comando, fui obrigado a ver um documentário, de absurda duração temporal, sobre o Michael Bolton. Até não foi tão pavoroso como se esperaria. Sempre deu para eu perceber que, durante uma boa meia dúzia de anos, andei a trocar o nome do Michael Bolton com o do Kenny G e vice-versa. Só se o documentário foi sobre o Kenny G e, nesse caso, ainda os confundo. Recordo ainda, com saudade putrefacta e auto-mutilativa, um “70x7” que vi de alto a baixo, onde se discutiram os novos caminhos do Ecumenismo. Numa outra ocasião, vi uma Taça Ibérica de hipismo inteirinha. Curioso é que, se me perguntassem antes, diria que não aguentava mais de cinco segundos a ver qualquer desporto equestre. O que, em certa medida, até se poderá considerar estranho, quanto mais não seja porque um desporto que consiste num gajo montado num cavalo a saltar muros, sebes e poças tem tudo para ser idolatrado. Uns cinco segundos, dizia eu, era o que aguentaria a ver hipismo. Mas naquele dia, com o comando a exigir locomoção, testei as minhas capacidades. E, já se sabe, um gajo, quando se lhe disparam os instintos mais básicos, faz coisas que nunca julgara serem possíveis. Isto é um bocadinho como aqueles indivíduos em África que não se importam que a ajuda alimentar seja sempre aquele milho ou não sei quê em pó em sacos de serapilheira ou um qualquer material sintético de funcionalidade idêntica. Nunca os vi torcer o nariz e dizer “porra, outra vez isto? Quando é que é bitoque?”. Ou gambas, vá. E porquê? Porque a necessidade, a carência e a míngua, isso fortalece as pessoas. Leva-nos a estádios comportamentais, níveis de sofrimento, que nunca julgáramos alcançáveis. É que, da mesma maneira que os africanos com fome têm que gramar com sacos e sacos daquele granulado amarelo, eu tive que aturar o hipismo, o “70x7” e o Kenny G. Num caso, temos a fome. No outro, a total ausência de vontade em me levantar para ir buscar o comando. Em ambos, o drama.

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