Preguiça

Assim em termos de características de carácter mais terreno, por oposição àquelas de natureza mais sobrenatural que formigam na minha mui humilde pessoa, diria que sou um tudo-nada calão. Embora se trate de um dos sete pecados capitais, acaba por não ser nada de muito notório e vê-se facilmente diluído no mar de qualidades que banha a minha personalidade. É unânime que a preguiça é um conceito sempre discutível. Por exemplo, há quem defenda que deixar o rolo de papel higiénico com uma amostra ínfima de papel é razão suficiente para não ter que o trocar. Eu sou, objectiva e declaradamente, apologista desta tese. Porquê? Simples. A regra social dita, apenas e só, que quem acabar o papel é obrigado a trocá-lo por um rolo novo. Só isto. Não refere quantidades de papel. Menciona apenas um momento: o fim do rolo. Fim é fim. É nada. Nicles. Zero. O vazio. Se há papel, mesmo que mínimo, não é fim. Há pessoas que não percebem isto. Não percebem que não cabe ao indivíduo decidir, a seu bel-prazer, a existência de uma quantidade mínima aceitável de papel para se não ter a obrigação moral de trocar o rolo. Deixar isto ao critério de qualquer um seria a barbárie. E ninguém deve pactuar com barbáries que gravitem à volta de rolos de papel higiénico. A regra é clara. Ainda em relação ao fenómeno que algumas entidades apelidam de “preguiça”, é verdade que já me aconteceu, e bem mais que uma vez, ter que apanhar umas boas horas de má televisão porque não tinha o comando à mão. O erro foi meu, claro. Sentar-me sem certificar que o comando ficara alcançável pelo braço, ou pé, é erro de principiante. Mas, de quando em vez, lá calha. E não há outro remédio se não aguentar até que alguém venha e eu possa, finalmente, dizer “porra, ainda bem que chegaste! Passa-me o comando ou muda-me aí de canal.”. Se, quem entrou, inquirir, incrédulo, há quanto tempo estava eu à espera, digo “há pouquinho, há pouquinho. Ia-me levantar mesmo agora, mas ouvi-te chegar…”. É mentira, claro, mas já percebi que há para aí muito boa gente que gosta de atirar logo com a expressão “preguiçoso da merda” à mais pequenina coisa. E eu não estou para ser metralhado com ofensas gratuitas só por causa dos meus credos. Já agora, é bom que se diga que, bem pior que não ter o comando à mão, é aquela situação em que pegamos nesse genial utensílio, sentamo-nos e, quando tentamos ligar a TV, percebemos que alguém desligou a porcaria da caixa que mudou o mundo no botão. Isto não se faz a ninguém. Já há muito que devia ser uma alínea na Declaração Universal dos Direitos Humanos: a televisão é para deixar no stand-by! Não vá um indivíduo fazer tudo bem – ou seja, sentar-se munido do comando, sem mácula, sem erros de principiante, confiante –, e depois, desprovido de qualquer partícula de culpa, ver-se obrigado a sofrer daquela forma. Poucas sensações serão piores que a de carregar num comando à distância e perceber que a televisão está desligada no botão. Mas, vá lá, isto acontece-me muito excepcionalmente. A outra hipótese é mais recorrente. Lembro-me que, à espera que alguém viesse para me passar o comando, fui obrigado a ver um documentário, de absurda duração temporal, sobre o Michael Bolton. Até não foi tão pavoroso como se esperaria. Sempre deu para eu perceber que, durante uma boa meia dúzia de anos, andei a trocar o nome do Michael Bolton com o do Kenny G e vice-versa. Só se o documentário foi sobre o Kenny G e, nesse caso, ainda os confundo. Recordo ainda, com saudade putrefacta e auto-mutilativa, um “70x7” que vi de alto a baixo, onde se discutiram os novos caminhos do Ecumenismo. Numa outra ocasião, vi uma Taça Ibérica de hipismo inteirinha. Curioso é que, se me perguntassem antes, diria que não aguentava mais de cinco segundos a ver qualquer desporto equestre. O que, em certa medida, até se poderá considerar estranho, quanto mais não seja porque um desporto que consiste num gajo montado num cavalo a saltar muros, sebes e poças tem tudo para ser idolatrado. Uns cinco segundos, dizia eu, era o que aguentaria a ver hipismo. Mas naquele dia, com o comando a exigir locomoção, testei as minhas capacidades. E, já se sabe, um gajo, quando se lhe disparam os instintos mais básicos, faz coisas que nunca julgara serem possíveis. Isto é um bocadinho como aqueles indivíduos em África que não se importam que a ajuda alimentar seja sempre aquele milho ou não sei quê em pó em sacos de serapilheira ou um qualquer material sintético de funcionalidade idêntica. Nunca os vi torcer o nariz e dizer “porra, outra vez isto? Quando é que é bitoque?”. Ou gambas, vá. E porquê? Porque a necessidade, a carência e a míngua, isso fortalece as pessoas. Leva-nos a estádios comportamentais, níveis de sofrimento, que nunca julgáramos alcançáveis. É que, da mesma maneira que os africanos com fome têm que gramar com sacos e sacos daquele granulado amarelo, eu tive que aturar o hipismo, o “70x7” e o Kenny G. Num caso, temos a fome. No outro, a total ausência de vontade em me levantar para ir buscar o comando. Em ambos, o drama.
