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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Inveja

pedro, 10.05.07
















Nisto da inveja há sempre dois grupos facilmente distinguíveis. A saber, os promotores directos do fenómeno, isto é, a canalha de sequiosos por tudo aquilo que é de outrem e o camandro alado, e aqueles que, de forma indirecta, se vêem também eles envolvidos neste pecado capital, o mesmo é dizer, os que desfrutam das causas da inveja. Segundo a minha infalível opinião – facto curioso: em reuniões e coisas mais formais como conversas com crianças recorro a “parecer”, mantendo a adjectivação “infalível” –, e também segundo os últimos censos, eu enquadro-me no segundo grupo. Curiosamente, sozinho, com o Liedson, o Polga e o João Moutinho. Porém, e porque a perfeição, essa vaca, exige sempre um pouco de humildade, posso afiançar que, também eu, carrego comigo algum sentimento de inveja. Não para com qualquer característica, isso, sendo eu quem sou, seria ridículo, mas para com minudências bastante específicas. Vou, porque vocês são umas antas e não conseguem adivinhar as cenas à balda e ao calha, apontar aqui algumas. Eu sou indivíduo para considerar extremamente um pão com chouriço. Não é chourição, paio, salpicão, linguiças, nem conarias dessas. É chouriço. Vai daí que, diversas vezes durante a madrugada, eu decida preparar um pão com tão requintada vianda. Corto em rodelas e armazeno o resultado do acto no pão, com uma harmonia tão perfeita que o miolo panificado fica completamente coberto. Depois, e porque como sempre na sala ou nos quartos, sítios onde o facto de haver migalhas é sempre sobrevalorizado sob a forma de gritaria e histeria feminina que eu simiamente ignoro, há uma fase de transporte do pão com chouriço. Nessa travessia, cai-me quase sempre pelo menos uma rodela de chouriço. Nunca a encontro. Mesmo quando a sinto cair. Eu às vezes sei que ela caiu do pão, desceu a minha perna e eu, com o movimento locomotor, acabei por pontapeá-la sabe-se lá para onde. É-me igual, que nunca encontro a galdéria da rodela que caiu. Nunca. E, muitas vezes, até procuro como deve ser. Baixo-me e tudo. Afasto-me um bocadinho e desfoco o olhar, que, conselho grátis, é a melhor forma de encontrar unhas em azulejaria e clips em chãos de tom cinza. Peva de peva, não encontro. Mas, e é isto que invejo, basta chegar alguém a casa para a primeira coisa que vêem ser a rodela de chouriço que me caiu. E nem tem que ser a última rodela. Pode ter sido uma das dez últimas. Assim com’assim, nunca encontrei nenhuma. As visitas é qu’encontram. Encontram, e não conseguem deixar de ficar com aquele ar “pá, este gajo tem rodelas de chouriço no chão da sala, se calhar é melhor nem respirar pela boca enquanto aqui estiver”. A minha mãe é incrível neste campo em concreto. Ainda nem entrou em casa, abriu apenas a porta, e já topou que está uma rodela de chouriço no chão da sala. Isto, pá, admito, gostava de ter. Invejo esta capacidade. Já me disseram que é mesmo assim, que não há nada a fazer, e que até há um provérbio chinês que lembra que nunca conseguimos encontrar a nossa própria rodela de chouriço no chão da sala, mas recuso-me a acreditar nisso. De forma idêntica, admito ter que gerir um pouco de inveja para com as pessoas que conseguem fazer conversa de circunstância com as velhas que vão comprar verduras à mercearia onde eu vou comprar salsa. E pensar que, quando eu era mai’ gaiato, não se comprava salsa. Era isso e louro. Havia sempre ao pé de casa, num quintal não sei de quem, ou, como a minha consciência definia a coisa, um baldio que não era de ninguém e de todos em concomitância. Mas eles acabaram com isso. Eles, os do capital, tinham que nos roubar a salsa e o louro gratuito. Não descansam enquanto não privatizarem tudo, esses ordinários. Ainda há dias, comprovando a minha inaptidão para a conversa circunstancial em ambientes como o acima descrito, e para deixar o aflitivo silêncio que se criou entre mim e a D. São dos Emílios depois do “Olá, está boazinha?” que já tanto me custa, só me saiu um “Então diz que o Carlos, o mai’ novo ali da coisa, morreu?”. Seguiu-se uma pausa, de não mais que um par de segundos, até que eu me corrigi com um “Aliás, casou-se”. “Casou-se”. “O mai’ novo da coisa…”. Nada. Ficou tudo ali, a olhar, como se nunca tivessem trocado os verbos casar com morrer. Escusado será dizer que a coisa estava lá. E sentiu-se mal e o raio. Enfim. A verdade é que, fosse eu mais habilitado ao nível da conversa de circunstância, e nada disto teria acontecido. E invejo aqueles homens que, pelo menos de forma aparente, ficam genuinamente convencidos com explicações que gravitem à volta da eterna questão “sim, claro que é preciso lavar os dois lados dos pratos”. Não consigo. Há algo no meu código genético – pensava eu que em todo o código masculino, mas já vi indivíduos lavar os dois lados e acreditarem que é mesmo indispensável – que m’impede de processar qualquer razão apresentada como válida. Já me disseram de tudo. Já me sentaram e explicaram tudo e mais alguma coisa. Tudo o que alguma vez se tenha sequer conjecturado como razão para se lavarem os dois lados do prato. Mas não consigo. Tenho, porém, a hombridade de admitir isto. E a abnegação para exigir a quem acredita que é para lavar os dois lados do prato para me lavarem a parte onde eu não toco por convicção. Sim, invejo quem o consegue fazer, mas não desvalorizem os meus credos. Nas festas de anos, invejo as pessoas que conseguem não parar na primeira mesa de doces e bolos e encher a mula de pudim. Eu faço sempre isto. Perante doçaria, não consigo gerir as emoções. Uma vez, comi alguns doze molotov em quinze minutos na primeira mesa e depois fiquei embuchado o resto da festa. O pior vem sempre depois. Quando, nos dias seguintes, estou em casa, a comer uma sopa cheia de talos, a lembrança do que podia ter comido na festa assombra-me agonicamente. Estou aqui rodeado de talos, a pensar no que podia ter comido e não comi porque enchi logo o bandulho com a primeira coisa em que deixei cair os olhos. Nunca me indignei com um filme e saí da sala de cinema. Quem o faz, causa-me sempre alguma inveja. Mas nunca consegui. Até já treinei, em casa, a minha postura de “eh pá, isto é um ultraje, vou-me embora todo ferido na minha sensibilidade e a barafustar”. Mas, quando no cinema, nunca tenho coragem. E motivos nunca me faltaram, que eu já vi as piores coisas do mundo numa sala de cinema. Já vi um plano estático dum arbusto durante quinze minutos, cuja única acção tinha sido surgido nos primeiros cinco segundos, com um gajo igual ao gajo da banda que cantava aquela que era "yeahh, yeahh, yeahh, yeaaaahhh, yeah" a saltar por cima dessa mesma planta lenhosa. Nem é preciso ir muito mais longe. Ainda na semana passada, numa coisa de nome “Shortbus”, vi um senhor num acrobático acto de autografiticação oral. E, não sendo um puritano em termos cinematográficos, acho que isto é o tipo de coisa com o seu nível de interesse mas quando perpetuado algures na via pública. Não sei porquê, mas há qualquer coisa num “Eia, caramba, ‘bora ali ver um gajo que se está a mamar a ele próprio no meio da Praça da Figueira” que um “Eia, caramba, ‘bora ali ver um filme que tem um gajo que se mama a ele próprio” nunca terá. Tirando os 4 euros e tal de diferença, a segunda hipótese já implica uma aura de mariquice que a primeira consegue afastar por completo com o seu alto nível de curiosidade mórbida. Também, verdade seja dita, se não saí da sala com aquilo, também não saio com mais nada. Não é por isso que deixo de invejar quem o faz. Ainda por cima, assim, não saindo, mostro que sou preguiçoso, avarento e invejoso. Três pecados num só. Três em um, como os champôs, quando conseguirem lá meterem mais alguma coisa além do amaciador. Anseiam por mais uma inveja? Pode ser então. Sempre invejei os meus colegas na primária que conseguiam fazer muito bem aquilo de colar um espinho com cuspo na palma da mão para depois se ir cumprimentar os gordos e os gajos de óculos lá da escola. Nunca fiz isso muito bem. Havia lá gajos que pareciam doutorados naquilo. Nem cuspo a mais, nem cuspo a menos, e o espinho firme, em rigor mortis, pronto a espetar a palma da mão dos gordos e gajos de óculos que pensavam que aquele passou-bem era o primeiro passo da sua inclusão no rol das pessoas normais. Agora até já consigo fazer isto do pico com cuspo na palma da mão mais ou menos, mas parece que já passou de moda. Ou isso, ou há para aí muito homem feito a trabalhar em bancos e dar aulas em universidades com muito pouco sentido de humor. Vá, já chega, a sério.

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