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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

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Grandes Líderes (I): Estaline

pedro, 02.05.05


















José Estaline nasceu em Gori, na Geórgia, corriam exactamente 28 dias do mês de Dezembro do ano de 1879, curiosamente, o mesmo que viu berrar pela primeira vez outro bigode famoso, o de Albert Einstein. Filho de pai sapateiro e mãe lavadeira, Zé teve uma adolescência feliz, fazendo sucesso nos bailes dos seminários da Igreja Ortodoxa, muito por culpa da sua roupa sempre cheirosa e dos seus sapatos impecavelmente dispostos. José era então um gajo popular, o vulgo pintarolas, e, para completar a peça, não se coibia de enfrentar frequentemente as autoridades locais, recebendo inclusive o epíteto de Koba, nome de um outrora famoso conterrâneo que também só dava chatices à polícia.

Já imiscuído na vida de contestação ao regime czarista, Estaline fez parte da direcção do Pravda, famigerado jornal russo, do qual o resto do mundo – Carlos Fino e o José Milhazes não incluídos – só percebe os resultados do campeonato de futebol (embora também não valha de muito porque é impossível descodificar quais as equipas em causa). Já em 1917, e depois de o Czar Nicolau II ter sido amavelmente deposto a tiro, Estaline ocupou o lugar de Comissário para as Nacionalidades, comprovando que os cargos políticos e a noção do ridículo raramente andam de mãos dadas. Bem, José lá foi subindo na estrutura do partido e, quando Lenine deu por ela, já o possuído e irascível nativo de Gori era Secretário-geral. Tarde demais. Lenine bateu as botas em 1924 e, antes que o diabo esfregasse um olho, Koba era agora o dono do jogo.

Estaline era um visionário. Cedo percebeu que não ia longe com o seu nome de baptismo, Josef Vissarionovich Dzughashvili, até porque demorava mais de meia hora só para se apresentar às pessoas. Decidiu então, aos 34 anos, trocar a impronunciablidade dos seus apelidos originais pela fonética atraente que a expressão ‘Estaline’ (que quer dizer ‘Homem de Ferro’) trazia consigo. A verdade é que em quase 30 anos a gramar com aquele bigode, a URSS cresceu brutalmente, mas também convenhamos que a tarefa fica bastante facilitada quando não há oposição e, basicamente, se oferecem férias pagas na Sibéria a quem arrebita cachimbo. Não é, portanto, de espantar que, por esta altura, o número de execuções tenha ultrapassado em larga escala o número de filmes em que o Donald Sutherland entra. Koba até se deu ao luxo de mandar a sua polícia política perseguir o pobre Leão Trotsky, animado opositor do regime Estalinista, até no México, país onde o pobre diabo se havia exilado. Do mal, o menos, já que ainda o deixou comer a Frida Khalo que, embora não fosse a bomba atómica que é a Salma Hayek, acabou por não ser nada mau negócio para o banana do Trotsky.

Estaline viveu uma vida atribulada. Casou quatro vezes, e, por mais incrível que possa parecer, só a primeira patroa se suicidou. Oficialmente, ajudou a gerar três vidas, entre as quais uma filha que, aos 18 anos, resolveu casar com um estudante judeu, seu colega na Universidade de Moscovo. Ora bem, se andar a comer a filha do Estaline já não é sinal de muita inteligência, não há adjectivos que classifiquem a clarividência de um gajo que casa com a mesma à revelia do brutal ditador. A prenda de casamento do sogro assumiu, muito naturalmente, a forma de umas férias pagas para uma pessoa na Sibéria. Ao longo da sua vida, e quando não estava ocupado a ter ataques de raiva, Estaline ainda assinou um tratado de não-agressão com outro pacholas, o Hitler, mas teve azar porque o alemão não percebeu que o acordo incluía guerras e invasões. A muito custo, Koba lá conseguiu impedir que o Nacional-Socialismo se tornasse mandamento na URSS, tendo ainda, e no seguimento de serviços prestados à nação, sido condecorado com uma série de títulos, todos unanimemente reconhecidos como mais que justos, e, por pura coincidência, nenhum deles a título póstumo.

Com escandalosamente demasiado cabelo para quem já apresentava 73 primaveras no lombo, Estaline morre a 5 de Março de 1953, e, ao contrário do que muitos possam pensar, não após uma divergência de opiniões consigo próprio. Foi uma hemorragia, ironicamente, cerebral, órgão do sistema nervoso a que o ditador dava um uso reconhecidamente bastante moderado. Depois de morto, Estaline teve o que merecia, foi empalhado e ficou em exibição na Praça Vermelha, local para onde os russos ocorreram em massa só para se certificarem que era mesmo verdade e que Koba tinha ido pregar para freguesias mais cálidas. Finalmente, e após alguns anos de animado dueto com outro empalhado famoso (Lenine) no mausoléu de Moscovo, o corpo de José foi trasladado para a zona menos simpática de um cemitério onde estão os restos mortais de líderes menores da revolução de 1917.

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