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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Que não se aguenta

pedro, 17.06.07


Julgo não ficar muito longe da exactidão quando constato que, para o comum mortal, alguma incapacidade para as noções métricas se apresenta como natural. Estranho é que também assim se verifique comigo. Acontece, e só me dota de ainda mais charme. Isto, de não ter grandes noções de métrica, eleva-se a complicação da grossa a partir do momento em que se tenta cozinhar seguindo as instruções da alcunhada receita. As poucas quase certezas que tenho na área das medições dizem respeito a pessoas e devidas alturas. Fora disso, é território desconhecido ou, sendo menos pessimista, território onde atiro palpites assim tudo à balda. Palpites que, saliente-se, e bem salientadinho, saem da minha boca com uma convicção tal que passam por factos em tudo quando é lado, desde o café onde ofereço cabeçadas à mínima divergência opinativa até aos cocktails onde finjo que o que m’apetece não é comer com as mãos e atirar caroços de azeitona para os copos das outras pessoas. Que isto afinal é tudo uma questão de postura. E não são factos da Internet. São factos dos irrepreensíveis, daqueles dos laboratórios e em que se usaram tubos de ensaios e que foram resultado de “estudos exaustivos”. Nem no futebol, área que, como cerca de mais de mil outras, domino como ninguém, consigo grande nível de exactidão. É sempre “c’uma porra, então a barreira está a dois metros” e “qu’i caralho, então o gajo está alguns três metros fora de jogo” quando são, respectivamente, lances defensivos e ofensivos da outra equipa. E, por exclusão de partes, “eh pá, assim não dá, então a nossa barreira está a mais de cento e cinquenta metros da bola” e “foda-se, está alguns vinte metros em jogo, meu boi/urso! Não vês que o Liedson é rápido, minha besta/anta?”, quando se referem ao meu clube, que permanecerá, mais uma vez, incógnito. Certa ocasião, estava um consócio a dizer-me que tinha visto um golo incrível dum gajo qualquer chamado João Seminário. “Foi a mais de trinta e cinco metros da baliza, e entrou mesmo lá na gaveta”. E eu, porque não tinha mesmo certezas, soltei, como quem não quer a coisa, um “ah, então foi um remate de longe, e isso”. Parece que sim, que foi. Não sei porque é que o velho não disse isso então. Eu, porque queria deixar de ouvir falar em golos do tempo em que as barras eram barrotes das obras, disse-lhe que me lembrava de ter visto o Lorenzo Lamas aviar um rotativo em três maus, assim tipo dominó. Ou bowling. Os velhos nunca sabem quem é o Lorenzo Lamas. Nem bowling. E se um velho não sabe de quem ou do que se fala, cala-se, com vergonha. Sobretudo se numa ambiência futebolística. Até hoje, não houve velho que tivesse tido a última palavra numa discussão contra mim. Embora, admito, o facto de lhes dar o sono ainda bem antes das seis da tarde, acabe por se revelar um aliado em condições. Para mim, os remates no esférico só têm três leituras, em termos de distâncias. O remate de longe, que é qualquer charutada de fora d’área; o remate de perto, que é qualquer merda perto do guarda-redes e, relembre-se, é coisa para, nas peladinhas de gente de bem, dar muitas vezes azo a que se levantem questão essenciais como “ah, vale sarda ao perto, é? Então ‘tá bem!”; e o remate de meio-campo, que, como o próprio nome, esse chibo, anuncia logo, é um remate de meio-campo ou, curiosamente, para trás de meio-campo. Se verbalizam a coisa em termos de metros, perdem-me logo e eu digo que não tenho tempo para sensaborias porque estou a pensar na influência do/a – inserir vocábulo inventado na altura – na queda do império bizantino. Quer dizer, trinta e cinco metros parece-me longe, concedo, mas também não me parece muito longe e sei lá se foi ali ao pé da área ou de meio-campo, por exemplo. Já agora, ressalve-se que marquei uma vez um golo, no Pro Evolution II ou III, que no VI os cabrões fizeram questão que fosse impossível, de livre directo a quarenta e um metros da baliza. Mas sei que era quarenta e um metros porque aquilo diz, no cantinho, antes de chutarmos. E, pasme-se, com um gajo da Tunísia. Não me lembro do nome. Ou de Marrocos. Ou da Turquia. É o capitão e tem uma espécie de afro com textura típica da África branca. É trinco e péssimo, óbvia e esperadamente. Deve ser o tunisino mesmo, que os trincos turcos no Pro Evolution Soccer, tanto II como III, eram dois anões. O Suat Kaya e o Okan Buruk. Saber isto de cor assusta-me um bocadinho. Quanto ao golo, fiquei com os olhos vidrados, caramba. Mas deixei-me estar, impávido, que sereno nem por isso e chateia-me essa merda dessas duas expressões terem que vir o caralho sempre juntas ou a merda, vão-se foder, mas é mais isso que não há decreto nenhum nesse sentido. Nem festejei. Para os outros gajos pensarem que eu fazia aquilo com frequência tal que já nem manifestava qualquer emoção. Assim uma espécie de Amon Goeth dos livres directos. Profissional e frio. Sem perturbações básicas. Embora mais a enfiar patardos no ângulo que balázios em judeus, que isso diz que agora é crime. Vem este paleio sem grande jeiteira a propósito do facto de eu ter tentado cozinhar algo mais que o habitual; sendo isso, o tal de habitual, a engenhosa abertura duma lata de grão e outra de atum, registando-se o posterior emparelhamento de ambas as coisas, numa miscelânea singularmente orquestrada. Tem dias que até pico meia cebola e meto orégãos a fingir que é salsa. A salsa é psicológica. Não é o frio, como, algures na nossa vida, alguém muito irritante faz questão de dizer. É a salsa. Quem tem este problema com medidas está lixado quando se trata de cozinhar. Primeiro, q.b. é uma definição inócua, que mais podia querer dizer “olhe, desenmerde-se e meta o que quiser”. Não percebo como é que as mesmas pessoas que usam o q.b., aparecem depois com preciosismos incríveis. Como gramas. Trinta e cinco gramas de margarina é o quê? Deviam meter coisas como “uma dedada de margarina”, e bastaria enchermos a ponta dum dedo para saber quanto queriam. Uma mão-cheia também me parece bem. Aliás, e já que é para meter a mão no pacote da margarina, nem é mão-cheia, é macheia mesmo. Ou, então, as referências das receitas deviam-se limitar a metades. Qualquer coisa como “metade do pacote de margarina”. Ou o pacote todo, vá. Duas metades. Também daria. Ou até quartas partes. Um quarto do pacote de margarina também é facilmente mensurável. Agora, trinta e cinco gramas? Tanto quanto sei, trinta e cinco gramas até pode ser o pacote de margarina inteiro. Já agora, vou lá ver isso. Calma. Afinal, nem tenho margarina. Mas vi o de manteiga e a caixa diz que o pacote todo tem trezentos gramas. Amanhã lá me lembro disto. Esta última frase é para ler naquele tom irónico que oralmente resulta tão bem que até mete impressão. Como queria que aquilo ficasse decente, lá acabei por tentar descobrir quanto seriam trinta e cinco gramas de margarina. E, aos bocadinhos, lá fui pesando aquilo na balança onde normalmente me certifico que ainda sou o Adónis que sempre fui e serei. Decorre este comportamento do facto de se saber quanto se pesa começar a ser altamente valorizado em conversas. Vão por mim. Já ia em vinte e oito gramas de margarina quando alguém me pergunta se aquela balança não era onde eu metia os pés para me pesar. Percebendo que vinha lá mais uma rasteira para me chamarem nomes na esteira de um “que badalhoco, Pedro”, disse que sim, mas apressei logo que usava sempre meias ou chinelos e nunca me punha descalço em cima daquilo. Não caio em armadilhas básicas. Confesso que também não percebo que raio quer dizer um “enfim” acompanhado dum abanar de cabeça nesse contexto específico. É que foi essa a reacção. Bem, pelo menos não me chamaram nomes. Claramente, ganhei o duelo. E lá consegui os trinta e cinco gramas de margarina. Mas é um esforço infrutífero, bem vistas as coisas. Perde-se quase duas vintenas e meia de minutos a medir trinta e cinco gramas de margarina para, na linha seguinte da receita, virem logo exigir uma desumanidade: dois decilitros de leite. Ninguém com perfeitas noções sobre o que deve conhecer e dominar neste mundo carracento sabe quanto raio são dois decilitros de qualquer coisa. Muito menos de leite, substância que, não me perguntem porquê, não que não saiba, que sei, não quero é dizer, é particularmente imedível. É comensurável em copos e pacotes, nada mais. Traz-me um copo de leite e traz-me um pacote de leite. É só isto. Ninguém fala em decilitros. Decilitros serve para se fazerem umas contas na primária, se não me falha a memória e já se sabe que isso, patentemente, nunca sucede. Passei à frente, só naquela de deixar isto para o fim, crente que, perto do desfecho, talvez já tivesse uma ideia da quantidade aproximada que seria isso do decilitro. No fundo, sou um lírico. Mas o lirismo dura pouco. Nem dois segundos, em dias bons. A seguir queriam uma xícara de farinha. Nem era chávena, era xícara. Enfim. É que esta preferência pela xícara, em vez da chávena, leva-me logo a entrar num estado pasmático de alguns dez minutos, a pensar em palavras começadas por x. Na verdade demorou até entrar alguém e eu ter aproveitado para perguntar “olha lá, não havia uma novela chamada xícara da silva?” e dizerem-me que “não, era Chica”, e eu perguntar de novo “só Chica?” e a pessoa dizer “Não, Chica da Silva”, e eu finalmente chegar a um “Ah, então era isso”. Parece que é uma que tinha uma mulata altamente copulável.  Falar em xícara é falar em chá, e falar em chá traz a lume outras questões. Isto da expressão do trazer a lume, estando eu a falar de chá, até foi por acaso. Quando m’apercebo que nem tenho que m’esforçar para ser como sou, percebo que se calhar me devia tratar melhor. Ter assim um pequeno altar em minha homenagem ou algo símile. Quiçá uma festa, daquelas em que há pevides, tremoços, rifas e bolo da festa. Bolo da festa é uma coisa estranha. E faz-me lembrar que andei anos e anos a dizer que não gostava de pão-de-ló porque estava convencido que era aquele bolo horrível com um ovo cozido no meio e que, ao que consta, até se chama folar. Afinal gosto, e bastante, de pão-de-ló. Só de pensar na quantidade de fatias que rejeitei por causa daquela porcaria com um ovo cozido no meio, até me dá vontade de legislar os direitos de antena e obrigá-los a falarem é destas coisas. Um partido que, há uns anos, me tivesse dito que um pão-de-ló não era um folar, teria o meu voto para sempre. Já em relação ao chá, conforme a preferência da presença feminina que reúna na sua pessoa as cerca de meia dúzia de características que considero substanciais, até sou sujeito para beber uma coisa dessas e fingir que sou todo zen. Incensos é que não. Que isso é ficar um passo mais próximo de me tornar uma daqueles pessoas que depois diz, em sítios diversos e sem critério aparente, “tenho que ir comprar incenso para queimar, que acho que já se m’acabou”. Não que não simpatize com queimadas, que simpatizo, mas acho que só valem a pena com pneus e coisas assim mais nessa onda do fumo mesmo preto e que faça chorar ou desmaiar. Portanto, beber chá, até bebo, mas em canecas. Não tenho chávenas, muito menos xícaras. Não percebo a utilidade duma louça que nos obriga a enchê-la dezoito vezes, ou se calhar até mais, umas trinta. Seria como jantar num pires. Não faz sentido. O preferível, nestas coisas, é sempre ir comer uma bifana àquelas roulottes da especialidade. Aproveite-se a ocasião, nada metida a martelo, para destacar a minha arte em todavia uma outra área. Sou o único gajo, pelo menos da minha e de outras cinco gerações – duas delas vindouras, o que é absolutamente colossal –, a conseguir comer uma bifana de roulotte, daquelas com tudo, a andar. Em locomoção, sem me cair um bago de milho que seja aos pés. É um espectáculo de inusitada beleza estética e psicomotora. Não são palavras minhas. Disseram-me, e bem mais que uma vez. Aproximadamente o dobro.

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