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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

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Luxúria

pedro, 03.10.07


Lato sensu – e estrear o que quer que seja com uma expressão em latim notifica logo, e muitíssimo bem neste caso, o leitor no sentido de “cuidado, pá, que este gajo sabe mais coisas que tu, se calhar até já leu mais de sete ou oito livros, e só dois ou três é que eram obrigatórios na escola” –, a luxúria pode-se definir como o desejo intenso e desregrado pelos prazeres do corpo. Por isto, por prazeres do corpo, e no sentido de se conseguir apurar com maior exactidão o que condena e o que é afinal isto da luxúria, de que trata e afins, a Igreja Católica, enquanto instituição e portanto aqui em letra capital, entende não mais que o desejo desordenado pelo prazer sexual. Está, convenha-se, aqui estruturada uma regra que prima pela elevado calibre de espirituosidade, e como sempre a igreja católica, ainda enquanto instituição mas agora sem letra capital porque acho que não vale a pena correr o perigo de fazer uma distensão no espaço que medeia o meu indicador e o dedo do pirete só para carregar na porcaria do shift, destaca-se pela posição extremamente reducente. Logo à partida, várias questões se levantam e, como tal, merecem ser tocadas e esfregadas com sofreguidão. No caso do género masculino, o toque e esfrega não costumam demorar mais que o tempo de desconto concedido na segunda parte de um jogo da bola. Ao passo que, no caso do mulherio, aquilo demora um prolongamento inteiro, um prolongamento inteiro e os penalties, ou até mesmo uma metade dum jogo com intervalo e tudo. Assim com’assim, a primeira questão a eriçar é o facto da Igreja Católica (agora usei o caps lock, mas é chato, ligá-lo para meter uma letra grande, depois desligá-lo para meter as outras pequenas e voltar a ligá-lo para voltar a meter uma letra grande e desligá-lo ainda uma outra vez para voltar a escrever as letras pequenas; não gostei deste sistema alternativo, sendo sincero) ter podido, ao longo dos tempos e se quisesse ser mesmo desmancha-prazeres, alargar a punição, isto da etiqueta de luxurioso, a todo e qualquer prazer que o corpo providencie. Mas não, e, assim, coisas como urinar quando se está mesmo aflitinho são prazeres que não contam para isto das luxúrias. O que é bom, porque eu, e infelizmente muito boa gente, urino mais vezes quando estou aflitinho do que tenho sexo com o que quer que seja, e incluo aqui pequenos electrodomésticos e seres vivos ou inanimados. Comatosos, nem por isso. Não sou nenhum tarado, se não contarmos com os sonhos ou aquela minha lista das coisas que faria se o mundo acabasse amanhã. Tem lá coisas que nem podem ser escritas, quanto mais consumadas. Mictar, e repare-se como sou evoluído ao ponto de não recorrer à brejeirice que fustiga o vocábulo “mijar”, quando se está aflitinho é, sem sombra de dúvida, um prazer corporal. Um que, é sabido, funciona mais numa dinâmica de alívio, mas nem por isso menos corporalmente prazenteiro. E, como a micção quando se está mesmo aflitinho, outros prazeres há que, valha-nos Deus, ninguém se lembrou de condenar para a eternidade. Acaba por ser uma sorte de dimensão consideravelmente assinalável, o facto dos Evágrios Pônticos, os São Tomázes de Aquinos, e outros que tais que vestiam sacos de serapilheira com uma corda a fazer de cinto e decidiam estas coisas no antigamente, não se terem lembrado de associar, derivado da tipologia de prazer proporcionado, o mictar-se aflitinho à luxúria enquanto pecado mortal, como aqueles daquele filme com um gajo que é amigo do George Clooney e depois assaltam o casino do Andy Garcia que andava a comer a Julia Roberts sem o Richard Gere saber. O mesmo s’aplica ao meter o pé numa passadeira rolante que está parada. Deixai-me, para quem me lê directamente do monte rural, necessariamente bucólico e essas coisas das poesias, e não espeta com frequência o pé numa passadeira da índole ali mesmo atrás especificada, dilucidar que fenómeno é este. Pousar o pé numa passadeira rolante é, para nós, citadinos que frequentam essa rabaceira que é a cidade de Lisboa, um acto mais que corriqueiro; bem mais banal que, por exemplo, registar-se, entre usuários que não possuem ligação relacional de qualquer ordem, uma sincronia mictória em urinóis públicos. Ou até, pronto, entre conhecidos, que isso também é raro, ao que julgo saber. Sincronia mictória é, enfim, o facto de se começar a expelir pela uretra no preciso momento em que outro usuário do urinol começou o seu próprio acto expelente. É ocorrência que acarreta um desconforto atroz, contudo, felizmente, não corriqueira. Não como meter o calcanho na passadeira rolante o é. É que, dia após dia, o corpo familiariza-se com o movimento, com a parte rolante da passadeira. E quando acontece pôr o pedúnculo em tapete rolante que, por intempéries técnicas ou só para chatear, não está a rolar, entra-se em todo um novo mundo de sensações vertiginosas e de deleite. Recomenda-se. Serve isto para destacar o facto da igreja católica poder ter sido ainda mais chata e ter abraçado, como luxúria e digno de castigo eterno, estes pequenos prazeres. Mas não. A igreja decidiu considerar ignominioso apenas o prazer supremo que o corpo providencia, o sexual. É que, pode-se afirmar com propriedade, o meter o pé numa passadeira rolante que está parada dá, quanto muito e com muito boa vontade, luta a um ou outro orgasmo. E a igreja deixa fazer isso. E deixa urinar quando se está aflitinho. Pois, estas coisas podem dar luta a alguns orgasmos, mas não chegam para os suplantar. Que um orgasmo, mesmo quando é mau, é bom. Um orgasmo é, nesse sentido, a pizza das sensações. Se a procura desgovernada e salivante pelo orgasmo fosse condenável, está mais que visto que o grau máximo do prazer sexual seria menos aprazível. Seria, não pizza, mas aqueles palitos de champanhe – claramente, o maior lobby existente a nível dos biscoitos. Aquilo até nem é mau, mas ninguém os ia querer a toda a hora e com dois terços das mulheres que vê na rua. A verdade, e é isto que, se não houver um paralelepípedo de calçada à mão, se deve atirar com força à cara dos devotos, é que se Deus não quisesse que nos enrolássemos e esfregássemos todos, a toda a hora, mesmo à mesa e enquanto dão notícias da guerra e da fome e isso no noticiário, Deus teria engendrado um qualquer sistema de prevenção. O mesmo é dizer, preventivo. Que previne. Até eu que, vá lá, embora apenas no sentido ritualista do termo, não sou Deus, conheço sistemas preventivos de eficácia intocável. Posso inclusive aludir a um deles. De cada vez que apetecesse e houvesse vontadinha, víamos um Paco Bandeira em biquini a fazer o limbo ou a tocar maracas. Isto ficaria cravado na nossa mente até que o desejo fosse à vida, o que, segundo um cálculo probabilístico que acabei de inventar, demoraria não mais que dois ponto noventa e seis segundos. No caso masculino, esta medida preventiva seria então sinónimo de ter um tão específico Paco Bandeira na sua mente a cada três segundos. Paciência, seriam os desígnios de Deus. Então e, pode-se sim senhoras perguntar que faz sentido, na antiguidade, quando não havia Paco Bandeira, como é que as pessoas se veriam divinamente livres do desejo galopante? Pá, seja de que época se trate, há sempre um Paco Bandeira ou equivalente. É dos livros. O Paco Bandeira pode assumir diversas manifestações físicas, mas é uma instituição perene, presente em todo e qualquer período histórico. Isto, há que dizê-lo, é inequívoco em todas as horizontalidades. A questão é que Deus não quer nada disso. Se Deus quisesse mesmo e fizesse questão disso, ficaria então apartada a consumação física dos actos que a luxúria compreende. Nem a luxúria de pensamento é condenável, porque, a ser, lá aparecia o Paco Bandeira em biquini a bater castanholas ou lá o que era. E, a mim, que quando oiço falar em gémeas siamesas, imagino logo como seria excitante se elas estivessem unidas pela boca ou que a boca de uma estivesse algures numa zona erógena de outra, não m’aparece o Paco a interromper a imagem mental. Mas tinham que ser gémeas giras e lascivas, nada daquelas entoalhadas do médio-oriente, a saber a pó. Nunca um meu pensamento de natureza luxuriosa, este ou qualquer outro, foi interrompido pelo Paco Bandeira em biquini. Conclusão? Só uma. É porque não é pecado. Se nem pensar nisso o é, muito menos seria a sua operacionalidade. E até progrido mais. Se fosse suposto eu nem sequer estar, neste preciso momento, a desenvolver um guião cinematográfico que acasala duas das mais fascinantes áreas da sétima arte – a pornografia e a fantasia; podendo-se, então, e finalmente, juntar pais e filhos à frente da televisão ou do ecrã do Cinebolso –, já há muito que teria recebido um sinal divino para parar com essas ordinarices. Se não é suposto eu escrever um filme pornográfico com unicórnios, já me tinham dado um sinal. No mínimo, já tinha apanhado o Paco Bandeira na praia ou assim. E só o vi duas vezes no Chiado. De casaco. E era em Maio, a temperatura já estava bem galante. Se ele estivesse de t-shirt, ainda era de se hesitar. Em suma, e para arrumar este assunto de uma vez por todas, Deus vê tudo o que se passa cá em baixo. E é preciso lembrar que Deus não tem Internet. Nós somos a Internet de Deus. Vamos agora providenciar a Deus uma Internet sem sexo de todas as maneiras e feitios? Uma Internet sem sexo e pornografia? Isso é na China. Deus merece uma ligação em condições.


 

Os outros seis:
Inveja
Orgulho
Ira
Gula
Avareza
Preguiça

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