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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Não tenho mais fotos e queria ver se conseguia meter um vídeo

pedro, 10.10.07

 

Uma coisa que as cantigas têm, entre si e relativamente a mim, é a circunstância de me darem vontades. Não são, evidentemente, querenças nascidas de associações primárias na estirpe de um “ah, aquela do Ai Timor se outros calam cantamos nós” dá-me vontade de cobrir completamente o Luís Represas de pioneses" (N.B: sim, estamos perante o plural mais idiota de sempre, mas algum tinha que ser; é verdade que o podia ser com menos margem de camelice, mas às vezes estas coisas são assim e não há que questioná-las ou fazer grandes alaridos teórico-práticos). Por cobrir de pioneses, não se entende a hipotética acção, de laivos circenses, de despejar uma grande balde azul de pioneses sobre o Luís Represas. Com efeito, tal execução seria, e em rigor, também cobrir de pioneses o Luís Represas, contudo, não é essa forma de cobrimento de que aqui se pretende idealizar a operacionalidade. Trata-se, por outra, de espetar pioneses no Luís Represas até que este fique completamente coberto destes pregos altamente adamados. A diferença é substancial, senão mesmo muito colossal. Pese embora, há que afirmar desde já que todo este exemplo bóia num mar de imbecilidade aparente e efectiva por duas ordens de razões. Porque, a), o Luís Represas é o tipo de individualidade que apetece sempre cobrir de pioneses, logo, não faz grande sentido que uma música em particular desperte esse sentimento; e, b), as vontades que as cantigas me incitam não são nada destas insipidezes com um nível de associação a, qual vassoura alegórica, roçar o solo da banalidade; não, são coisas bem mais rebuscadas, para pensar, com significados profundos, metáforas e coisas assim dessa têmpera e compleição. Sem mais delongas, esta canção em particular, que está naquele teledisco ali de cima, dá-me vontade de queimar coisas. Plásticos, coisas em vimes ou empalhados de uma forma mais genérica, pneus, casacos de ganga, pequenos móveis, sobretudo mesinhas de cabeceira, naperons, latas de laca, legumes, basicamente, tudo o que der. Raramente me deixam queimar coisas. Era assim em criança, continua a ser assim agora. A ideia “já queimávamos era isto, n’era?” nunca é acolhida com entusiasmo ou efusão. E eu sei, porque a uso como alternativa a quase tudo. Vá-se lá perceber um mundo que não recebe com efusão uma proposta destas. O cerne da questão, no que toca a identificar o problema central deste, chamemos-lhe conjunto musical, e nesta cantiga em concreto, é o facto da rapariga, ou matrafona de vestes normalmente associadas ao género feminino, apresentar, de longe e neste mítico dueto, a voz encorpada. Ao passo que o enfezado rapazola tem um falsete que faz parecer que os Bee Gees são o Darth Vader de ressaca. Por falar em Darth Vader, este ex-senhor de todo o mal das galáxias é um bom exemplo de reinserção na sociedade activa e liberta de gandulices. Depois de uma vida de iniquidades da pior espécie com naves e lasers, Darth cumpriu a sua pena e agora é o gajo que diz “this is cnn”, nos separadores da CNN. Não deve ser coisa para tirar menos de 200 contos por mês. Nada mau, para alguém com cadastro. Esta coisa, do duo com as vozes trocadas, destrói qualquer banda, porque confunde as pessoas. Não há necessidade de confundir as pessoas, sobretudo ao nível da dinâmica da percepção visual-auditiva. Serve isto também para lembrar que até já vi um concerto deste indivíduo de voz castrada, o Jimmy Somervile, ao vivo. Escandalosamente, não estava bêbado, pelo menos não no sentido comatoso do vocábulo, embora estivesse fora do país. O que acaba por ser a mesma coisa. Fora do país está-se sempre bêbado e sem se tocar num pingo de álcool. É o que o estrangeiro tem de bom. Não o livro do Camus, claro, mas esta referência sempre deu para fingir que até domino amplamente qualquer literatura mundial de referência ou não. Mais ou menos como quando finjo que a bola de bilhar que consegui meter no buraco depois de duzentas e trinta tabelas não foi ao calha. E vi o Somervile (ao vivo e a solo – ele, eu estava com mais pessoas), de certezinha totalitária, na sequência duma aposta que venci em toda a minha glória. Dizer isto, que já se viu aquele gajo dos Communards, o da voz fininha, que também foi dos Bronski Beat, mas a solo, não é o deus ex machina que julgava ser, assim em termos de conversas. Passa despercebido. Ou então dá chatices. O que é pena, porque é sabido que a única razão para se irem ver coisas é para depois se poder usar em conversas o facto de se ter ido ver, e, nesse sentido, Jimmy, só me serviste para ter que andar a explicar quem afinal és tu e conseguir, quanto muito, uns “ah, já estou a ver”. Mas é daqueles “ah, já estou a ver” fingidos, como os que eu uso quando m’explicam onde é que fica um sítio e dão referências “depois sobes e tens uma transversal que tem uma rotunda à direita, perto duma escola” e entes congéneres. Entretanto, e para ver se me passa este ânsia de queimar coisas, vou narrar uma história, impreterivelmente verídica. A primeira vez que joguei à porrada, naquela altura das nossas vidas em que o ludus marca forte presença na eterna arte da bulha, deveu-se a uma, até aí insondada, dificuldade em flexionar o verbo caber. Passava eu, do alto das minhas sete ou oito primaveras, de bicicleta numa zona que, devido a um indivíduo e a um carrinho de mão que norteava, estava agora ligeiramente mais apertada que o costume. O carrinho de mão forçou-me a aligeirar a velocidade, e eis que, do nada, o indivíduo, que, apesar de andar a empurrar carrinhos de mão tinha apenas mais um ano ou outro a mais que eu, atira-me um “não cabes?”. Eu cabia. Perfeitamente. E nem encarei aquilo como uma provocação. Mas levantaram-se logo uma série de obstáculos. Como é que dizia que cabia? Qual é a primeira pessoa do verbo caber? Como é que se diz? Sim, bem sei, agora e desde há uns anos – quatro –, que é caibo, mas não sabia naquele momento de tensão. E, claro está, se há coisa que não gosto de fazer diante de operadores de carrinho de mão, essa coisa é precisamente conjugações verbais desfeadas. As hipóteses que ecoavam na minha mente soavam mal. O cabo, o próprio caibo. Soava mal. Porque sim e por causa da pressão a exigir resposta pronta. Dizer simplesmente “sim” não era alternativa credível. Também não queria passar por uma daquelas pessoas que diz “sim” em vez de usar o verbo. Isto é, aquelas pessoas que, à questão “foste ali?”, e em caso afirmativo, respondem “sim” em vez de “fui”. Não queria, e não quero, ser confundido com esta gente, dos sins. Ora, não conseguindo decidir entre “cabo” e “caibo” e não sendo um solitário “sim” uma opção viável, lá tive que dizer que não. Como era óbvio que cabia à vontade, aquilo assumiu contornos de provocação e estágio de pré-cachaporra. Disto ao gesto foi um instantinho. Começámos a jogar à bulha. Nada de especial, só ficámos com as golas das camisolas um bocadinho mais largas. Lá nos cansámos e foi cada um à sua vida. Pronto. E a moral é simples e una. Ter a flexão verbal correcta na ponta da língua é meio caminho andado para não se meter em confusões e maçadas. De resto, e valha a verdade, não serve para muito mais.  

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