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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

non c'è più fantasia

pedro, 23.11.07


O capitalismo, a exemplo de variadíssimos outros ismo [autoclismo, cinismo, feudalismo, metabolismo, sabujismo, catecismo, etc., serão porventura exemplos capazes] é fenómeno que se apresenta perante mim sem segredos de qualquer espécie. Conheço-lhe as manhas todas, e, não fosse a ocorrência de o Marx falar alemão e já ter morrido – sobretudo isto –, eu era cachopo para ser um dos seus melhores amigos, ou inclusive até substituir o seu fiel companheiro, Engels, em eventos sociais ou o que fosse, quando este estivesse constipado ou simplesmente a chocar alguma, que ninguém é imune a aragens e correntes de ar. Assim com’assim, o que importa reter é a circunstância de este regime económico, precavendo-se contra a sua anunciada queda, tentar, frequente e sub-repticiamente, inundar-nos a mente com mensagens sobre as suas supostas mais-valias relativamente a outros sistemas. Estes recados estão por todo o lado, sem excepção do frasco de gel de banho a que recorri hoje. Sou, como seria expectável, indivíduo sem preferência na área dos géis de banho, uma vez que utilizo sempre o que estiver ali nos arrabaldes da banheira. Decorrente desta preferência, surge-nos o facto de nunca ter comprado, então, um frasco de gel de banho. O mesmo princípio s’aplicaria a lasanhas congeladas se, por obra e graça de sabe-se lá quem, o frigorífico, mormente a sua zona da congelação, tivesse lá sempre um exemplar de lasanha. Como tal nunca se verificou, vejo-me na obrigação fisiológica e social de comprar lasanhas congeladas com assiduidade. Géis de banho é que nunca foi necessário. Está lá sempre pelo menos um frasco e, na única vez em que não esteve, optei por gastar mais champô, espalhando-o corporalmente; logo eu, que sou um acérrimo partidário de espuma com fartura. Ora, o que sucedeu foi que o capitalismo, através dum gel de banho de marca Fa, quis-me convencer, como é de resto seu apanágio, que eu estaria a ter acesso a um produto fantástico, repleto de substâncias raras e reguladas com tecnologia de ponta, tudo isto a um preço que, enfim, no máximo dos máximos, não meteria nojo por aí além [informei-me a posteriori e percebi que custou seiscentos e cinquenta paus]. Este gel de banho Fa, como, presumivelmente, todos os géis de banho Fa, tinha um sabor. Ou cheiro, como se preferir. Este gel de banho Fa tinha como subtítulo, o mesmo é dizer, tinha como binómio sabor/cheiro, a torresmada “Limões do Caribe”. Não nego que andei o dia inteiro a cheirar a limão, tendo mesmo auscultado um par de vezes a frase “ai, cheira aqui mesmo a limão”. Era eu, que tresandei a limão todo santo dia, cara senhora. Bebi, como de costume, dois absintos ainda não era meio-dia e até isso me soube a limão, sendo que isto se calhar se verifica mais porque eu uso muito gel de banho na zona que medeia o nariz e o lábio superior, no sentido de, desse modo incrível, me cheirar sempre muito bem em todo o lado. É verdade que m’estraga quase todas as refeições, porque todos os pratos me sabem ao gel de banho que usei, tirando daquela vez que usei champô e me soube a champô [mel e amêndoas, parece-me, o que não foi mau de todo, uma vez que gosto de mel e amêndoas], mas lá acaba por ser um acto de inegáveis contrapartidas. Nomeadamente, o conseguir-se urinar num canto do Bairro Alto sem nos cheirar a mijaceira, ainda por cima alheia. É, digamos, factor de que não me vejo a abdicar tão cedo. Assim, a minha individualidade, e até naqueles sítios onde o cheiro a mijonça é tão intenso que atira com pessoas ao chão e provoca desmaios colectivos, só processa fragrâncias cheirosas que, ainda por cima, sei que deixam a pele macia e hidratada. Presentemente, não sei de que porra estava a falar, de tal maneira que irei ali mais atrás ler do que se tratava. O gel de banho Fa “Limões do Caribe” enquanto ardil do capitalismo, exactamente. E ardil em que medida, sentido e mais um outro sinónimo disto, se houver? Vou elucidar, quanto mais não seja porque o que não falta aqui deste lado é tempo e vontade de ajudar a desmascarar e desmistificar. Que pessoa é que, no seu perfeito juízo, não iria apoiar um sistema que, por uns meros seiscentos e cinquenta paus [três euros e picos ao câmbio actual e de sempre], lhe garante andar uns poucos de dias [um mês, se misturarmos água ao gel de banho quando já houver pouco, naquela altura em que até temos de deixar o frasco virado ao contrário para depois quando formos tomar banho não termos que estar à espera que o gel de banho propriamente dito nos chegue à mão] a cheirar a limões do Caribe? Não é limões de, por exemplo, Benavente. É das Caraíbas! Isto é, o capitalismo, e a/o Fa em particular, querem-me convencer que, em vez de terem apanhado meia dúzia de exemplares do limoeiro ali ao pé da fábrica, foram de propósito às Caraíbas buscar limões para usar no meu gel de banho? Com certeza que sim. Razão tenho eu, e o Marx, embora por arrasto: o capitalismo emaranha-se de tal forma nos seus próprios equívocos que perde a cabeça e vai sufocando. E sufocará de vez, porque, ao invés de nos enganar com a léria que o gel de banho tinha limões de, quanto muito, Ayamonte, preferiu que fosse tudo à grande e, conseguintemente, [inserir sinónimo de fodeu-se, um que, de preferência, não seja brejeiro mas tenha força argumentativa semelhante].


Eurostat: foram usados cerca de trinta advérbios. Um novo recorde pessoal? Não se sabe, que nem estes contei, mas talvez.

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