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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

MMVDXII

pedro, 07.01.08



Partindo do pressuposto que tudo no mundo seguia um rumo sempre optimizado e que, pequeno exemplo dessa optimização, ninguém teria sido já obrigado a comer jaquinzinhos com arroz de cenoura porque não havia tomate pelado no supermercado e aquele em pedacinhos custa para lá do dobro, adiante-se, em abono da veracidade dos factos, que esta comunicação deveria ter sido trazida a público faz já um série de dias. Feita a ressalva, importa justificar o atraso, sendo que tal procedimento passará, única e imperativamente, pelo facto de eu querer que o título fosse dois mil/sete em numeração romana e, clara e estupidamente, só ter entendido, numa fase posterior à incrustação inabalável desse desejo em todo o meu ser, que não estava capacitado para operacionalizar tão específico desejo com rigor. Consequentemente, o título disto – que não passa duma amálgama de letras capitais que, julgo, são também numerais romanos – deve ser lido e processado como dois mil e sete no numérico romano. O que me leva a ter que dizer que, embora nos tempos que correm o que não faltam são razões para detestar sarracenos e sua cultura intrinsecamente camecéfala, há que lembrar sempre que, não fora por esses senhores e a sua numeração através de algarismos, e agora tínhamos que andar a comer com numeração através de letras. Já alguém tentou fazer uma conta de dividir com numeração romana? Não dá. É impossível. Tivesse-se, num exercício de absurdo fechamento ao que de melhor tem a cultura moura, mantido a numeração romana e ninguém em lado nenhum passava da terceira classe. Calcando outro campo analítico, o do ludus, como é que seria jogar às escondidas, quando contar até cinquenta em numeração romana tem ar de ser coisa para demorar não menos que um recreio inteiro? Já para não falar, a nível económico, na moeda em numeração romana e no tempo que se demoraria a fazer um troco. Dê-se graças a quem de direito pela adopção da numerália sarracena. Pois bem, o que importa reter é que, nesta fase de transição anual, manda a tradição que se façam balanços do que passou e resoluções para o que aí vem. Concordo em parte, embora discorde em absoluto, de modo que, no decurso de um período temporal ainda por balizar, ir-se-á, também aqui, estruturar exercício de similitude relativa. Comece-se por um apontamento de balanço e outro de natureza onde impere a dinâmica da resolução. Assim, como balanço, temos a eleição dos meus piores e melhores telefonemas de dois mil/sete, intercalando-os com um tipo de telefonemas os quais achei por bem apelidar de quase piores telefonemas de dois mil/sete. A classificação final foi, em vista disso, a que se segue a estes dois pontos:

 

Pior telefonema de dois mil/sete: telefonemas do “olá, sou [não sei quem] do Barkley’s [não sei quê, etc.]” a perguntarem se o meu pai está em casa.

 

Quase pior telefonema de dois mil/sete: quando não sou que atendo e é para mim.

 

Melhor telefonema de dois mil/sete: quando não sou eu que atendo e não é para mim.

 

Para que melhor se entenda esta dinâmica avaliativa do ano que findou faz poucos dias, deixo outro balanço marcado essencialmente pela eleição de coisas:

 

Pior condição médica de dois mil/sete: Frieiras, seguido de muito perto por cortes de papel quando o jantar era batatas fritas e não me apeteceu usar talheres.

 

Quase melhor condição médica de dois mil/sete: Aftas na ponta da língua.

 

Melhor condição médica de dois mil/sete: Febre quando está muito frio.


Por seu turno, como resolução para dois mil/oito, posso adiantar desde já a que se segue. Por muito que m’apeteça, e apetecerá que eu sei, vou deixar de pedir a Bola de Berlim no café, caso o referido item se encontre nas seguintes condições:


a) Ter, notoriamente, passado a noite no estabelecimento;
b) Estar encafuada entre uma parafernália de bolos tal que, quando a começar a                        comer, me vai saber a meia dúzia de bolos diferentes;

c) Ter, escandalosamente, o creme todo a sair por um dos lados;
d) A pessoa que me serve dizer “ora, cá está uma bolinha de berlinde”;
e) A cobertura ser de açúcar de pacote ao invés daquele mais fininho;

 

Há razões para que o ano de dois mil/oito vá passar por estes critérios no que às Bolas de Berlim diz respeito. Se a razão para a alínea a) é para lá de óbvia, a c) e d) podem-se reduzir a uma flexão do verbo enervar – isto é, enerva-me –, ao passo que a e) se explica pela ocorrência de eu me sujar todo se for uma Bola de Berlim com açúcar de pacote, aquele que, em termos de tacto, parece sal grosso. Propositadamente, reservo acentuado destaque para a alínea b), uma vez que é extremamente desagradável ingerir uma Bola de Berlim que conjuga o sabor de, chegou-me a acontecer, seis bolos. Todos eles horríveis, diga-se de passagem. A saber, o Pata de Veado, o Caracol, um Palmier grande, uma coisa com coco ralado, uma outra que tem um creme oco e de coloração esbranquiçada e o Rim/um grande bocado daquela parte queimada do pastel de nata. Como curioso emerge o facto de o bolo de coco ralado que esteve encostado à Bola de Berlim dotar esta última do cheiro a coco, mas não do sabor. Isto intriga-me a níveis pouco naturais em humanos, mas, nem no sentido de melhor entender o fenómeno, não mais experimentarei este tipo de Bolas de Berlim mutantes. Dois mil/oito será um ano de categoria.

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