Quinta-feira, 20 de Março de 2008
Sai daqui, que me fazes electricidade estática


Antes que m’esqueça de o fazer, adianto desde já que, no meu supermercado, a mulher da secção da charcutaria (ou lá que coito de nome tem aquilo assim em termos mais técnicos) só não bufa ligeiramente – que fique subentendido que é em manifestação de desagrado, espero não ter que explicar esta questão dos bufares – quando peço acima de quatro fatias de queijo e respectivo fiambre, ou vice-versa. Se peço uma, bufa, se peço duas, bufa, se peço três, bufa, se peço quatro, bufa. Com cinco, já não bufa, mas também nunca lhe notei qualquer tipo de entusiasmo. O que também faz sempre é atirar um “é só?” para cima de mim, como se o que acabei de pedir fosse sempre pouco. Levo pouco porque não sei quanto tempo dura o queijo e o fiambre. Tenho-me como indivíduo precavido, sobretudo desde que, em tempos, comprei uns quilos de bananas em promoção. Ainda assim, ando a juntar dinheiro para tentar perceber até que ponto ela diz “é só?”, embora, logo à partida, me pareça que, se eu lhe pedir cinquenta fatias de queijo e fiambre, um “é só?” vá parecer desadequado. É quando como eu chego mais de duas horas atrasado a um encontro qualquer e as pessoas, quando me vêem chegar, dizem “já aí vem o Pedro”. Esse “já” é tão irónico, mas, enfim. Vamos esperar para ver como corre esta contenda das cinquenta fatias de queijo e fiambre. Quem achar que faço poucos parágrafos – sendo “poucos” sinónimo de “nenhum”, como é sabido –, pode imaginar que fiz um aqui e esta frase não existe. Prossigamos agora para outras matérias, com licença. Um exemplo paradigmático do expectável, ainda que por ora pouco visível, domínio da máquina sobre o homem, reside na seguinte e corriqueira dinâmica [com a qual, decerto, todos nós estaremos familiarizados]: no decorrer de um banho, a água quente conhece um considerável período de fluxo gelado porque, apenas e só, o esquentador se resolveu desligar sozinho. Perante isto, afirmam diversas entidades (o manual, a caixa e até a pessoa que sofreu com a decisão do esquentador em se desligar sozinho, entre outras) que o aparelho é “inteligente”. Em contraponto a este tratamento já de si levemente incompreensível, surge aquele que é facultado aos humanos que, mesmo quando inadvertidamente, têm o azar de parar a água quente a alguém lá em casa que estava a tomar banho, seja porque puxaram o autoclismo ou se meteram a lavar a louça de quinze dias, que entretanto foram acumulando. Com efeito, essa pessoa – chamemos-lhe, meramente para efeitos de etc., “eu” – que inocentemente interferiu com a temperatura da água do banho é, automática, invariável e inapelavelmente, apelidada de “estúpido”, adjectivação essa que, não raras vezes, vem acompanhada de um “da merda” que mais não faz senão ilustrar ainda mais um discurso já de si bastante perceptível. Até porque costuma ser aos berros e oriundo das goelas de quem acabou de levar com água gelada nas costas, ombros e cabeça (quase sempre). Portanto, temos, para acções de desfecho exactamente idêntico, reacções amplamente distintas. Uma para o esquentador, outra para o tal “eu”, um humano. O esquentador é “inteligente”, ao passo que “eu” já sou “estúpido da merda”, no mínimo. Quando analisada à luz da eterna questão da intenção, a diferença de tratamento poderá fazer algum sentido. O esquentador teve intenção de desligar a água quente a quem tomava banho, ao passo que “eu” não tive. Transporte-se, para um maior imediatismo a nível de compreensão de V. Exas., esta dinâmica para o concurso “Quem quer ser milionário?”; onde, conjecturemos, temos dois concorrentes cujo desfecho foi idêntico: escolheram a resposta certa. Porém, um deles fê-lo certo de que aquela seria a resposta correcta, enquanto que o outro disse ao calha (são quase sempre gajas). Aos olhos de todos os que acompanham o concurso, o primeiro é inteligente e o segundo é um burro que vive à base de fezadas. Cá está de novo: para acções de desfecho igual, reacções antagónicas. A intenção parece assumir carácter decisivo. Seria, então, de prever que, assemelhando ainda mais a minha acção da do esquentador, i.e., juntando-lhe o factor intencional, me iriam catalogar também de “inteligente” em vez de me metralharem com um “estúpido da, etc.”. Acontece que quando, propositadamente, faço parar a água quente do banho de alguém, é praticamente tudo igual e, ora bem, ninguém me chama inteligente. De resto, a variação foi mesmo mínima, para não dizer inexistente, tirando uma vez, que ouvi “mas tu andas a gozar com esta merda ou quê?”, o que seria de facto, e com muito boa fé, uma variação relativamente a reacções anteriores, mas não tardou até se complementar a ilusória inovação com o habitual “ó estúpido da, etc.”. Não acho justo este desfasamento em termos do conceito de inteligência entre esquentadores e pessoas, basicamente. Deixando umas breves linhas sobre um assunto em nada relacionado com o anterior, refira-se que gostaria de, ao rol de entidades que anseio por ver abatidas num feriado nacional – se possível o dez de Junho que me agrada o solinho no lombo –, as pessoas que fazem questão de abrir o chapéu-de-chuva em locais sobrepovoados. De resto, o costume.




Comentários:
De RG a 20 de Março de 2008 às 18:48
Ontem também fui à charcutaria e estava lá um naco de presunto daqueles quase sem gordura a sorrir para mim. Pedi à senhora 5 fatias ao que ela me respondeu: "Este presunto é o mais caro...", com ar de quem sabe muito da vida dos outros. Eu não lhe perguntei o preço, só disse que queria daquele presunto. Como sou refilona mas só em casa sorri, mas fiquei a pensar se tenho assim aspecto de pobretanas que nem presunto posso comprar sem ser do mais barato. E o que é que ela tem a ver com isso? Não se dá formação às senhoras das charcutarias para melhor atendimento? Bem vindo de volta, já começava a achar que tinhas sido atropelado ou assim...


De Sr. Bastonário a 20 de Março de 2008 às 19:00
A "blogosfera" pensava que tinhas morrido. Caso isso aconteça agradecemos que avises, para um gajo não vir cá todos os dias para ver se há posts novos.


De Moyle a 22 de Março de 2008 às 03:57
Idem


De ZOT a 22 de Março de 2008 às 08:44
Ja tive problemas com uma mulher da charcutaria por causa de requeijões de Seia. Estavam apenas dois no expositor, e recusou-se a vender-me um porque estavam "guardados" (???). Teve azar porque eu percebi que estava uma mulher com um talão 3 numeros depois do meu e lhe fez sinais tipo corrector de bolsa para reservar os requeijões e claro, isso enervou-me ao ponto de não sair dali sem aqueles dois requeijões. Insisti até ao ponto de me ter esquecido de comprar fiambre, razão pela qual eu tinha ido para a fila da charcutaria. Além disso a tal mulher também estava na fila para o talho, que era mesmo ao lado da charcutaria, e isso é batotice e enerva-me sériamente.
Agora, enervante, enervante é postar esta merda passado tanto tempo de ausencia. Nem o Purovic esteve tanto tempo sem marcar golos. Se tens outro blog que te ocupa o tempo todo, diz qual é, mesmo que seja sobre pesca à boia.


De ZOT a 22 de Março de 2008 às 08:55
deu-me bastante gozo repetir: charcutaria, ao ponto, tanto tempo e fila.

O meu tio pescava enguias com um chapéu de chuva...


De João a 24 de Março de 2008 às 14:22
Obrigadinho pelo post, que isto de viver na China, Tibete e tal aparte, às vezes é enfadonho.

谢谢你,como se diz por aqui - se não aparecerem, assuma-se que antes do "como se diz por aqui", estão 3 caracteres.


De Clara Umbra a 24 de Março de 2008 às 17:59
Ei! Que história é essa de serem «quase sempre gajas» a acertar «ao calha»? Está a ser estatístico, empírico ou a dizer ao calha?
Um blogue tão fixe, que se refere sempre em termos tão elogiosos às mulheres, e, de repente, sub-repticiamente (porque entre parêntesis)… pimba! Chuveirada gelada a meio do banho quente. Abriu a água para lavar a alma, foi?


De pedro a 24 de Março de 2008 às 20:11
Tenho, ao longo da vida, acumulado diversas questões mal resolvidas, nomeadamente um que envolve uma gaja que ganhou dez mil contos porque o Jorge Gabriel queria continuar a olhar para as mamas da irmã, que esteve sempre na plateia.

Vai daí, desatou a incentivá-la a arriscar sempre que a rapariga lançava um palpite que, ia-se a ver, estava correcto.

Não sei, portanto, explicar a chuveirada gelada em direcção do género feminino, embora sinta muitas saudades das mamas da irmã dessa concorrente. Agora fiquei confuso.


De Clara Umbra a 24 de Março de 2008 às 20:59
Pois… bem que esse comentário deixava adivinhar questões mal resolvidas, não se preocupe, todos as acumulamos, e com mais facilidade do que acumulamos dez mil contos.
Também compreendo a sua confusão – achava desprezível a atitude do Jorge Gabriel e constata agora que sente saudades da imagem que perturbou o apresentador… É assim mesmo, tenho acumulado ao longo da vida provas de que a nossa natureza fala sempre mais alto.
Posto isto, só mantenho uma dúvida existencial: o título do seu post deve-se a…? Escapa-me...


De Vítor Teixeira a 24 de Março de 2008 às 21:49
Já sentiamos a tua falta ...
Continua assim, EM GRANDE! :)


De h4rddrunk3r a 25 de Março de 2008 às 20:23
Olhe que ... Gostei do blog! Estrei-me logo nestas lides com este dissecar das reacções humanas e saio daqui de barriguinha cheia, sim senhor.

Vou já adicioná-lo aos meus (poucos) eleitos.


De poca a 27 de Março de 2008 às 14:30
Se um dia te apanho, trinco-te todinho!


De tiagugrilu a 27 de Março de 2008 às 16:16
Antes de mais, peço imensa desculpa por vir interromper as trincadelas. A sério.

Excelente texto, este. Olhe que sim, shô Doutor, olhe que sim.


De Anónimo a 24 de Abril de 2008 às 18:34
até tens imensa piada...

mas o facto de escreveres frases exageradamente grandes não abona, absolutamente, nada a favor dos posts. fazes textos ou testes de memória?? na eventualidade de a segunda hipótese ser a mais acertada, proponho que mudes de ramo...

se te reconforta o ego, o facto de as pessoas "se perderem" no meio de uma das tuas frases (o que, sem dúvida alguma, não é revelador de qualquer incapacidade) fica sabendo que, na opinião de muita gente, isso é pura falta de jeito e GOSTO!!

por isso, já sabemos que fazes um bom uso das virgulas, mostra agora as tuas capacidades para fazer frases no mínimo INTELIGÍVEIS!! e já agora mete-lhe uns parágrafos à mistura!


cumps!


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