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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Sai daqui, que me fazes electricidade estática

pedro, 20.03.08


Antes que m’esqueça de o fazer, adianto desde já que, no meu supermercado, a mulher da secção da charcutaria (ou lá que coito de nome tem aquilo assim em termos mais técnicos) só não bufa ligeiramente – que fique subentendido que é em manifestação de desagrado, espero não ter que explicar esta questão dos bufares – quando peço acima de quatro fatias de queijo e respectivo fiambre, ou vice-versa. Se peço uma, bufa, se peço duas, bufa, se peço três, bufa, se peço quatro, bufa. Com cinco, já não bufa, mas também nunca lhe notei qualquer tipo de entusiasmo. O que também faz sempre é atirar um “é só?” para cima de mim, como se o que acabei de pedir fosse sempre pouco. Levo pouco porque não sei quanto tempo dura o queijo e o fiambre. Tenho-me como indivíduo precavido, sobretudo desde que, em tempos, comprei uns quilos de bananas em promoção. Ainda assim, ando a juntar dinheiro para tentar perceber até que ponto ela diz “é só?”, embora, logo à partida, me pareça que, se eu lhe pedir cinquenta fatias de queijo e fiambre, um “é só?” vá parecer desadequado. É quando como eu chego mais de duas horas atrasado a um encontro qualquer e as pessoas, quando me vêem chegar, dizem “já aí vem o Pedro”. Esse “já” é tão irónico, mas, enfim. Vamos esperar para ver como corre esta contenda das cinquenta fatias de queijo e fiambre. Quem achar que faço poucos parágrafos – sendo “poucos” sinónimo de “nenhum”, como é sabido –, pode imaginar que fiz um aqui e esta frase não existe. Prossigamos agora para outras matérias, com licença. Um exemplo paradigmático do expectável, ainda que por ora pouco visível, domínio da máquina sobre o homem, reside na seguinte e corriqueira dinâmica [com a qual, decerto, todos nós estaremos familiarizados]: no decorrer de um banho, a água quente conhece um considerável período de fluxo gelado porque, apenas e só, o esquentador se resolveu desligar sozinho. Perante isto, afirmam diversas entidades (o manual, a caixa e até a pessoa que sofreu com a decisão do esquentador em se desligar sozinho, entre outras) que o aparelho é “inteligente”. Em contraponto a este tratamento já de si levemente incompreensível, surge aquele que é facultado aos humanos que, mesmo quando inadvertidamente, têm o azar de parar a água quente a alguém lá em casa que estava a tomar banho, seja porque puxaram o autoclismo ou se meteram a lavar a louça de quinze dias, que entretanto foram acumulando. Com efeito, essa pessoa – chamemos-lhe, meramente para efeitos de etc., “eu” – que inocentemente interferiu com a temperatura da água do banho é, automática, invariável e inapelavelmente, apelidada de “estúpido”, adjectivação essa que, não raras vezes, vem acompanhada de um “da merda” que mais não faz senão ilustrar ainda mais um discurso já de si bastante perceptível. Até porque costuma ser aos berros e oriundo das goelas de quem acabou de levar com água gelada nas costas, ombros e cabeça (quase sempre). Portanto, temos, para acções de desfecho exactamente idêntico, reacções amplamente distintas. Uma para o esquentador, outra para o tal “eu”, um humano. O esquentador é “inteligente”, ao passo que “eu” já sou “estúpido da merda”, no mínimo. Quando analisada à luz da eterna questão da intenção, a diferença de tratamento poderá fazer algum sentido. O esquentador teve intenção de desligar a água quente a quem tomava banho, ao passo que “eu” não tive. Transporte-se, para um maior imediatismo a nível de compreensão de V. Exas., esta dinâmica para o concurso “Quem quer ser milionário?”; onde, conjecturemos, temos dois concorrentes cujo desfecho foi idêntico: escolheram a resposta certa. Porém, um deles fê-lo certo de que aquela seria a resposta correcta, enquanto que o outro disse ao calha (são quase sempre gajas). Aos olhos de todos os que acompanham o concurso, o primeiro é inteligente e o segundo é um burro que vive à base de fezadas. Cá está de novo: para acções de desfecho igual, reacções antagónicas. A intenção parece assumir carácter decisivo. Seria, então, de prever que, assemelhando ainda mais a minha acção da do esquentador, i.e., juntando-lhe o factor intencional, me iriam catalogar também de “inteligente” em vez de me metralharem com um “estúpido da, etc.”. Acontece que quando, propositadamente, faço parar a água quente do banho de alguém, é praticamente tudo igual e, ora bem, ninguém me chama inteligente. De resto, a variação foi mesmo mínima, para não dizer inexistente, tirando uma vez, que ouvi “mas tu andas a gozar com esta merda ou quê?”, o que seria de facto, e com muito boa fé, uma variação relativamente a reacções anteriores, mas não tardou até se complementar a ilusória inovação com o habitual “ó estúpido da, etc.”. Não acho justo este desfasamento em termos do conceito de inteligência entre esquentadores e pessoas, basicamente. Deixando umas breves linhas sobre um assunto em nada relacionado com o anterior, refira-se que gostaria de, ao rol de entidades que anseio por ver abatidas num feriado nacional – se possível o dez de Junho que me agrada o solinho no lombo –, as pessoas que fazem questão de abrir o chapéu-de-chuva em locais sobrepovoados. De resto, o costume.

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